Uma música sem letra, composta por britânicos em 1982, nunca esteve tão perto do centro do mundo. Sirius, do Alan Parsons Project, soou no SoFi Stadium nesta sexta-feira (12) antes de Copa do Mundo estrear nos Estados Unidos — e o paradoxo é evidente: a Fifa escolheu para o maior torneio de futebol do planeta uma faixa que nunca foi composta para o futebol, nunca teve letra e nunca foi pensada para uma audiência global. Mas que, por 44 anos, construiu silenciosamente o repertório emocional de uma nação inteira.

Os 44 anos que transformaram uma faixa de rock progressivo no hino de uma geração

Lançada no álbum Eye in the Sky em 1982, Sirius era uma abertura instrumental de pouco menos de dois minutos — tecnicamente um interlúdio antes da faixa-título. Sua ascensão ao status de ícone cultural americano começou em 1984, quando o Chicago Bulls a adotou como música de apresentação dos titulares no United Center. O timing não foi acidental: foi o mesmo ano em que Michael Jordan chegou à franquia, vindo da Universidade da Carolina do Norte. A partir daí, cada vez que a batida eletrônica de Sirius atingia seu ápice, o locutor anunciava a frase que entrou para a mitologia do esporte americano — "da Carolina do Norte, o nosso armador Michael Jordan" — e o United Center entrava em erupção.

A associação durou seis títulos da NBA: os tricampeonatos de 1991, 1992 e 1993, e depois os de 1996, 1997 e 1998. Dois ciclos de dominância absoluta, separados pelo breve retiro de Jordan no beisebol. Nesse período, Sirius deixou de ser uma canção para virar um gatilho pavloviano — quem a ouvia sabia que estava prestes a assistir a algo extraordinário. O ditado que circula até hoje nos fóruns de NBA resume bem esse peso simbólico: "Se você está ouvindo 'Sirius', é porque seu time está prestes a ser eliminado dos playoffs."

Há aqui uma referência inevitável a Touro Indomável, o documentário de 1980 sobre Jake LaMotta: assim como Scorsese usou a câmera lenta para eternizar movimentos que durariam frações de segundo, a NBA usou Sirius para dilatar o instante antes da ação — transformando a entrada dos jogadores em ritual cinematográfico. A Fifa, ao adotar a faixa em 2026, está comprando exatamente esse efeito.

Por que a Fifa aposentou Seven Nation Army e Arhbo para apostar numa música sem letra

A decisão da entidade máxima do futebol mundial não foi improvisada. Seven Nation Army, do White Stripes — lançada em 2003 e adotada como trilha sonora da Copa da Rússia em 2018 — tinha uma vantagem clara: o riff de guitarra de Jack White é um dos mais cantados por torcidas em todo o mundo, de San Siro a Maracanã. Já Arhbo, de Ozuna e GIMS, composta especificamente para o Qatar 2022, tentou capturar a fusão cultural do Oriente Médio com o pop latino, mas não sobreviveu ao torneio — raramente se ouve a faixa fora do contexto daquela Copa.

Sirius resolve um problema que nenhuma das duas anteriores conseguiu: ela não pertence a nenhuma língua, não exige tradução e não envelhece porque nunca teve letra para ficar datada. Sua duração de aproximadamente 1 minuto e 50 segundos encaixa cirurgicamente no protocolo pré-jogo — tempo suficiente para a apresentação dos 22 titulares e o aquecimento emocional da torcida, sem estourar a janela de transmissão. Conforme registrado pelo SportNavo, a faixa já foi adotada ao longo dos anos por modalidades tão distintas quanto hóquei no gelo, futebol americano universitário e basquete universitário nos EUA, o que demonstra sua versatilidade como música de arena.

A escolha também tem uma leitura geopolítica direta: com os Estados Unidos como um dos três países-sede, a Fifa precisava de um gesto de pertencimento cultural ao público americano — que historicamente tem uma relação mais distante com o futebol do que com a NBA. Usar Sirius é, nesse contexto, uma declaração de intenção: este torneio fala a sua língua.

A noite do SoFi Stadium onde Anitta, Katy Perry e uma criança norueguesa abriram a Copa

A cerimônia de abertura americana, realizada nesta sexta-feira (12) no SoFi Stadium, em Los Angeles, reuniu um elenco improvável. Katy Perry dividiu o palco com Tius, um garoto norueguês de 10 anos cujos vocais aparecem na faixa Wonder, do álbum 143 da cantora. A própria Perry explicou a origem da parceria:

"Essa vozinha que você está ouvindo agora é o Tius. Ele gravou sua participação nessa música quando tinha apenas cinco anos de idade, em 2021. Ouvi os vocais dele em 2023 e me inspirei a escrever os versos, adicionando a faixa ao meu sexto álbum."

Anitta se apresentou ao lado de Lisa, do grupo sul-coreano BlackPink, e do cantor nigeriano Rema. Os três interpretaram Goals, música do álbum oficial da Copa. O look da cantora carioca — desenvolvido exclusivamente pela H&M — foi descrito pelo material de divulgação da marca como um conjunto all-white com top ajustado, recortes, chaps oversized e harness de strass. A própria Anitta definiu o momento com precisão:

"Este é um momento muito especial para mim e para a minha carreira. Representar o meu país enquanto o mundo inteiro assiste é algo que me enche de uma sensação incrível de realização. Fazer isso usando um look exclusivo da H&M que é totalmente a minha cara — forte, esportivo, um pouco selvagem — é tudo."

O show americano foi o terceiro de uma sequência de três cerimônias de abertura: na quinta-feira (11), o México recebeu Shakira, J Balvin e outros artistas; o Canadá apresentou seu show à tarde, antes do empate de 1 a 1 entre canadenses e bósnia-herzegovinos. Nos Estados Unidos, além de Anitta, Lisa, Rema e Katy Perry, também se apresentaram o rapper Future e a cantora Tylae. A transmissão foi ao ar pela TV Globo, GE TV, SporTV, N Sports, CazéTV e SBT.

Já dentro de campo, o jogo entre Estados Unidos e Paraguai começou com um gol contra do volante Damián Bobadilla, do São Paulo, aos 7 minutos — resultado de uma jogada de Pulisic pela esquerda que passou por McKennie até chegar ao paraguaio, que tentou afastar e mandou para as próprias redes. A estreia americana, portanto, foi aberta com Sirius no alto-falante e um gol involuntário de um brasileiro na jogada. É o mesmo cenário que o Chicago Bulls viveu em 1984 — uma música nova, uma arena nova, uma expectativa impossível de conter — só que agora a aposta é o torneio mais assistido da história do esporte.