Contrataram o técnico da Portuguesa pra Chape.
Portuguesa que caiu pra Série D?
Exatamente essa. Mas o cara foi embora por vontade própria. Os números dele lá eram bons.

Esse diálogo aconteceu em bares de Chapecó no domingo (5) e resume bem o dilema que a Chapecoense colocou na mesa: contratar um técnico que deixou um clube da quarta divisão para salvar um clube da primeira. A pergunta legítima é se o contexto da Portuguesa invalida o currículo de Fábio Matias — ou se os números falam mais alto do que o endereço do emprego anterior.

O que os números de Fábio Matias realmente dizem

Seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica: 13 jogos, 6 vitórias, 3 empates e 4 derrotas. O aproveitamento de 55,6% que Matias registrou na Portuguesa não é de um técnico em crise. Para efeito de comparação, Gilmar Dal Pozzo, demitido pela Chapecoense na última sexta-feira (3) após a goleada de 4 a 0 sofrida diante do Atlético na Arena Condá, deixou o clube com desempenho abaixo dos 30% nas últimas cinco rodadas. O contraste é objetivo.

Matias acumula passagens por Internacional, Flamengo, Red Bull Bragantino, Botafogo, Juventude e Atlético-GO — todos clubes com estrutura superior à Portuguesa. Não é um técnico que chegou ao topo do futebol brasileiro, mas é alguém que conhece os bastidores de clubes que disputam e disputaram a Série A com regularidade. Esse repertório importa quando o vestiário está em colapso de confiança.

"Em meu trabalho, prezo pela transparência e pela verdade. Nada diferente disso." — Fábio Matias, em publicação nas redes sociais após deixar a Portuguesa.

A saída da Portuguesa, aliás, diz algo sobre o perfil do treinador. O clube paulista divulgou nota afirmando que o demitiu por conta do "avanço de negociações com outro clube". Matias rebateu publicamente, afirmando que apresentou carta de demissão assinada de próprio punho às 13h do domingo (5), dentro do prazo que tinha para responder à Chapecoense. Independentemente de quem está certo na disputa narrativa, o técnico priorizou a transparência sobre a conveniência — e isso é um dado de caráter que clubes em situação de crise precisam avaliar.

A Chapecoense na 17ª posição e o que precisa mudar urgente

A Chapecoense ocupa a 17ª colocação da Série A 2026 — dentro da zona de rebaixamento. O time sofreu 4 gols em um único jogo contra o Atlético e enfrenta o Vitória neste domingo sob o comando interino do auxiliar Celso Rodrigues, enquanto aguarda a chegada oficial de Matias, prevista para terça-feira (7). Cada rodada perdida nesse ritmo aprofunda o buraco estatístico: times que chegam à 10ª rodada no Z-4 com menos de 30% de aproveitamento têm histórico de rebaixamento superior a 70% nas últimas cinco edições da Série A.

O problema da Chape não é apenas de resultado — é de organização defensiva. Tomar 4 gols em casa, na Arena Condá, sinaliza uma fragilidade estrutural que nenhum técnico resolve em uma semana. O que Matias pode fazer de imediato é reestabelecer compactação tática e recuperar a crença do grupo. Na Portuguesa, mesmo em um contexto de Série D, o time apresentou equilíbrio — apenas 4 derrotas em 13 jogos — o que indica capacidade de organizar defensivamente equipes com elenco limitado.

"O técnico começa a implementar sua filosofia, avaliar o elenco e ajustar a equipe para os próximos desafios", informou o portal NDMais sobre os primeiros dias de Matias no Verdão do Oeste.

O contra-argumento existe — e precisa ser levado a sério

Quem questiona a contratação tem razão em um ponto: a Série D e a Série A são campeonatos com intensidade, pressão e nível técnico radicalmente distintos. Um aproveitamento de 55,6% contra times da quarta divisão não garante nada contra Flamengo, Palmeiras ou Internacional. O salto de contexto é real e não pode ser ignorado por nenhuma análise honesta.

Mas o contra-argumento se enfraquece quando se olha para o que a Chapecoense tem como alternativa real. O mercado de técnicos disponíveis no meio da temporada raramente oferece nomes de primeira prateleira — e contratar alguém sem histórico de trabalho recente seria um risco ainda maior. Matias chega com ritmo de jogo, com uma metodologia em andamento e com passagens documentadas em clubes da elite. Isso não é garantia, mas é mais do que a Chape tinha na sexta-feira passada.

A estreia oficial está prevista para a próxima rodada do Brasileirão. Matias terá poucos dias de treino para imprimir qualquer mudança visível. O que se exige dele nesse primeiro momento não é uma revolução tática — é estabilidade emocional para um grupo que levou 4 gols em casa e perdeu o treinador em 48 horas. Depois disso, os números vão falar. O aproveitamento de 55,6% é o ponto de partida. A Série A exige pelo menos 52% para escapar do rebaixamento — e Matias já sabe o que é trabalhar perto dessa linha.