Cinquenta e sete partidas. Esse número, divulgado pela própria Globo, resume um fenômeno que se repete a cada quatro anos com a regularidade de uma estação: a Copa do Mundo transforma a maior emissora do país em canal esportivo de tempo integral, e quem esperava ver Avenida Brasil no horário de sempre pode se preparar para a surpresa. O paradoxo é que a Globo nunca exibiu tanta Copa — e nunca retirou tanto conteúdo próprio do ar para isso.

O número que reorganiza 38 dias de grade

A Copa do Mundo de 2026 começou oficialmente para a programação da Globo em 11 de junho, data da abertura do torneio com o duelo entre México e África do Sul. Naquele primeiro dia, já sumiram da grade três atrações consolidadas: Edição Especial, Sessão da Tarde e Vale a Pena Ver de Novo. Era o aviso. Nos dias seguintes, a lista cresceu.

JAPÃO X SUÉCIA | COPA DO MUNDO 2026 | 3ª RODADA | FASE DE GRUPOS AO VIVO COM IMAGENS

Na sexta-feira, 12, Guerreiros do Sol e o Globo Repórter cederam lugar à transmissão de Estados Unidos x Paraguai. No sábado, 13, estreia do Brasil na competição, foi a vez de A Nobreza do Amor, da segunda edição do telejornal local e de Coração Acelerado ficarem fora do ar. No domingo, 14, o Cinemaço também não foi ao ar. Quatro dias de torneio, sete atrações suspensas — e o torneio mal havia aquecido.

Para quem acompanha a história da emissora, esse movimento não é novidade. Em 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato nos Estados Unidos, a Globo já interrompia novelas das seis e das sete para transmitir jogos da tarde. Em 2006, com a Copa na Alemanha, o fuso horário europeu criou um problema diferente — os jogos chegavam cedinho, antes do meio-dia de Brasília, e a grade matutina virou território da FIFA. O que mudou em 2026 é a escala: 57 partidas em 38 dias, distribuídas em múltiplas faixas horárias, criam uma pressão sobre a programação que não tem precedente na história da emissora.

Semana a semana, o que some da telinha

A segunda semana do torneio consolidou o padrão. Entre os dias 15 e 18 de junho, a Sessão da Tarde ficou completamente fora da grade. O Vale a Pena Ver de Novo — que exibia episódios de Avenida Brasil, a novela de João Emanuel Carneiro que em 2012 quebrou recordes históricos de audiência — também não foi ao ar nos dias 15, 16 e 18. Na segunda-feira, 15, Coração Acelerado voltou a ceder espaço pela segunda vez em menos de uma semana.

Na sexta-feira, 19, foi o Jornal da Globo que ficou de fora — algo relativamente raro, já que o telejornal da madrugada costuma ser o último reduto intocável da grade. No sábado, 20, as sessões de filmes Sessão de Sábado e Supercine também desapareceram. A terceira semana trouxe novas baixas: na segunda-feira, 22, a Edição Especial com a novela Além do Tempo saiu da programação; na terça, 23, foi a Sessão da Tarde de novo.

Quem viveu São Paulo nos anos 1990 conhece bem essa sensação — é como o trânsito da Avenida Paulista às 18h num dia de jogo do Brasil: tudo para, tudo se reorganiza, e qualquer rotina que você tinha antes simplesmente não se aplica mais. A Copa não pede licença. Ela ocupa.

"A programação da segunda semana segue alinhada ao ritmo da competição, com ajustes distribuídos ao longo dos dias", informou a Globo em nota oficial sobre as mudanças na grade.

Na quarta-feira, 24, o jogo do Brasil contra a Escócia — marcado para as 19h — reorganizou completamente a tarde e a noite da emissora. Sessão da Tarde e o episódio de Avenida Brasil no Vale a Pena Ver de Novo ficaram fora. A pré-transmissão começou às 18h15, e o Jornal Nacional só foi ao ar às 21h10, depois do apito final.

O número que reorganiza 38 dias de grade 57 jogos e a Globo some da tarde brasil
O número que reorganiza 38 dias de grade 57 jogos e a Globo some da tarde brasil

A Central da Copa e o que fica no ar

Nem tudo some. A Globo também estreou, em 11 de junho, a Central da Copa — programa de análise e bastidores que existe desde o Mundial de 2010 e que nesta edição é comandado por Fábio Porchat e Tadeu Schmidt. A atração ocupa as noites da emissora após as transmissões, funcionando como espécie de âncora editorial para quem quer mais do que o placar.

O modelo lembra o que as televisões europeias fizeram durante as grandes Copas das décadas de 1980 e 1990. A RAI italiana, por exemplo, criou em 1990 — durante a Copa realizada em solo italiano — estúdios de análise que duravam até a madrugada e que transformaram ex-jogadores em celebridades televisivas. A Globo segue esse mesmo caminho há mais de uma década, consolidando o pós-jogo como produto editorial independente.

Para o telespectador que quer se organizar, a regra prática é direta: qualquer jogo transmitido entre 14h e 22h tende a eliminar ao menos uma atração da faixa correspondente. A Sessão da Tarde, que ocupa o período das 14h45 às 17h, é a mais vulnerável. As novelas das seis e das sete resistem melhor — mas, em dias de jogo do Brasil, até elas entram na fila dos ajustes de horário.

O Brasil joga sua próxima partida pela fase de grupos no dia 19 de junho contra o Haiti, às 21h30, com transmissão da Globo — e a emissora já confirmou que o Jornal Nacional será antecipado para as 19h30 naquele dia para acomodar a partida.