36 jogos. Esse é o número que abre e fecha o argumento sobre Séamus Coleman nesta temporada 2025/2026 da Premier League. Não é a quantidade de jogos de um veterano que aparece quando o titular se machuca. É a marca de um titular incontestável, com 37 anos completos, disputando cada rodada do campeonato mais competitivo do mundo como se a alternativa simplesmente não existisse.

O número que define a temporada

6 gols. Para um zagueiro de 37 anos, em 36 partidas de Premier League, essa marca não é um acidente estatístico — é uma declaração de função. Coleman, que usa a camisa 23 do Everton, converteu mais gols nesta temporada do que a maioria dos defensores centrais titulares do campeonato inglês na mesma janela de tempo. Para colocar em perspectiva: times inteiros de defesa na Premier League — quatro jogadores somados — terminam temporadas com menos do que isso. Dois gols a mais, e ele teria batido a produção ofensiva coletiva de linhas defensivas completas de ao menos três clubes na divisão.

As 2 assistências que acompanham esses 6 gols constroem o retrato de um jogador que não apenas aparece na área em bola parada, mas que participa ativamente da criação de jogadas. São 8 participações diretas em gols em 36 partidas — uma frequência que, em qualquer posição, exige atenção editorial.

Como ele chegou aqui

Coleman nasceu em 11 de outubro de 1988, em Killybegs, no condado de Donegal, na República da Irlanda. A trajetória que o trouxe até Goodison Park não foi construída sobre vitórias de Copa ou títulos de liga — foi erguida sobre consistência, sobre temporadas empilhadas uma sobre a outra sem que o nível caísse de forma perceptível.

O caminho do futebol irlandês até o futebol inglês de elite é estreito. Coleman percorreu esse corredor com 177 cm e 67 kg — dimensões que, no vocabulário físico da Premier League, não intimidam ninguém. O que intimidou foi a permanência. Temporada após temporada defendendo o mesmo clube, a mesma camisa, a mesma torcida que enche Goodison mesmo quando o Everton não tem muito para oferecer além de raça e organização tática.

A carreira dele é um argumento contra a ideia de que futebolistas irlandeses precisam de um clube grande para serem levados a sério. Coleman construiu relevância sem Champions League, sem títulos de liga, sem as vitrines que normalmente definem legado no futebol europeu. O que ele tem é presença — e nesta temporada, ela se traduz em 36 aparições na lista de convocados e 36 vezes dentro de campo.

O que o faz diferente dos pares

A comparação mais direta que se pode fazer com Coleman é com defensores laterais ou zagueiros da mesma faixa etária que ainda disputam Premier League. A maioria deles aparece em 20, 25 jogos por temporada — quando muito. Alguns são utilizados como opção de banco, como presença de vestiário, como liderança que não precisa mais de minutos para existir.

Coleman não aceitou esse papel. Aos 37 anos, ele está em campo mais do que jogadores dez anos mais jovens que ele na mesma posição. E não apenas em campo — produzindo. Os 6 gols desta temporada representam uma média que poucos defensores da Premier League, em qualquer idade, conseguem sustentar por 36 rodadas.

Séamus Coleman (Everton)
Séamus Coleman (Everton)

O dado físico também merece atenção: com 177 cm, ele não domina pelo tamanho. O que os números desta temporada sugerem — e conforme registrado por SportNavo ao longo da temporada — é que a leitura de jogo compensa o que o tempo inevitavelmente retira. Posicionamento, antecipação, timing de chegada na área: são atributos que se acumulam com anos de repetição, não com academias de formação.

Os limites a vencer

A pergunta que paira sobre qualquer atleta de 37 anos não é se os limites existem — é quando eles se tornam visíveis. Para Coleman, a temporada 2025/2026 ainda não mostrou esse ponto de inflexão. Mas ele está próximo de uma fronteira que o futebol raramente permite ultrapassar sem consequências.

O Everton, clube que atravessa um período de reconstrução institucional e esportiva, depende de Coleman não apenas como jogador, mas como referência de postura dentro do grupo. Quando um veterano de 37 anos lidera em jogos disputados, isso diz algo sobre o estado do elenco ao redor dele — e sobre a ausência de um sucessor claro que já tenha tomado conta da posição.

Nos próximos 12 meses, o cenário mais realista é de transição gradual. Coleman pode continuar sendo titular se o corpo responder — e até aqui, respondeu. Mas o Everton precisará, em algum momento desta janela de tempo, decidir se renova a confiança nele por mais uma temporada ou se começa a construir a linha defensiva sem depender de alguém nascido em 1988. Essa decisão, quando vier, vai dizer mais sobre o clube do que sobre o jogador.

O que Coleman já provou, com 36 jogos, 6 gols e 2 assistências aos 37 anos, é que a pergunta sobre sua aposentadoria ainda não tem resposta óbvia. E enquanto não tiver, ele vai continuar na lista de titulares.