Diz-se que o Real Madrid é o clube que mais convocados envia às Copas do Mundo — e que sua presença nas seleções é quase automática. Na temporada 2025/2026, essa premissa foi desmontada com números: ao menos seis jogadores merengues que figuravam nos planos de seus respectivos técnicos ficaram de fora das convocações para a Copa do Mundo, diretamente impactados por uma temporada que terminou sem títulos na La Liga, na Champions League, na Copa do Rei e na Supercopa da Espanha — o primeiro zeramento completo do clube em competições oficiais em mais de 20 anos.
Uma temporada sem troféus e com brigas no vestiário
O paralelo histórico mais próximo ao colapso merengue de 2025/2026 remonta à temporada 2012/2013, quando o Real Madrid de José Mourinho terminou sem a Liga dos Campeões e com uma crise interna que culminou na saída do técnico português. Naquele ciclo, jogadores como Sergio Ramos e Iker Casillas chegaram ao Mundial de 2014 com desgaste visível, mas ainda foram convocados — e a Espanha sagrou-se campeã europeia no ano anterior como amortecedor da turbulência. Em 2026, não há esse colchão: a crise chegou ao ano do torneio, sem tempo de cicatrizar.
Desta vez, os relatos que vazaram da Espanha descrevem um vestiário fragmentado. Houve desentendimentos diretos entre o técnico e ao menos um jogador, e fontes próximas ao clube confirmaram brigas físicas entre atletas — episódios que, segundo apuração do SportNavo, influenciaram a avaliação de comissões técnicas de pelo menos três seleções ao montar as listas definitivas para o Mundial.
Mastantuono e o custo de uma primeira temporada europeia mal gerida
Franco Mastantuono, 18 anos, foi a exclusão mais comentada desta quinta-feira, 28 de maio, quando a Argentina divulgou seus 26 convocados. O atacante revelado pelo River Plate recebeu sua primeira oportunidade pela Albiceleste em junho de 2025 e acumulou quatro partidas pela seleção, incluindo 45 minutos contra a Mauritânia na Data Fifa de março. Nenhum gol marcado na camisa argentina.

No Real Madrid, os números contam a história com precisão: três gols em 35 partidas, com 14 aparições completas no banco de reservas — a maioria sob o comando interino de Álvaro Arbeloa. Para efeito de comparação, Lamine Yamal, que tinha a mesma idade ao estrear na seleção espanhola, registrou sete gols e dez assistências no Barcelona na mesma faixa etária. Relatos da imprensa espanhola indicam que Mastantuono rendia bem nos treinos, mas não replicava esse rendimento em campo. Essa inconsistência foi determinante para Scaloni.
"Scaloni quer jogadores em ritmo de jogo e com sequência. Mastantuono não teve isso no Real Madrid nesta temporada", avaliou fonte ligada à comissão técnica argentina, segundo a imprensa espanhola.
Huijsen e a Espanha sem um merengue pela primeira vez na história
Dean Huijsen, zagueiro de 20 anos, representa outro capítulo do mesmo problema. O defensor, que chegou ao Real Madrid com expectativa de assumir posição na zaga titular, teve sua temporada marcada pela irregularidade — reflexo direto da instabilidade coletiva do clube. A consequência foi a exclusão da convocação espanhola, tornando 2026 o primeiro Mundial em que a Espanha entra sem nenhum jogador do Real Madrid no elenco. Trata-se de um dado sem precedente na história do futebol espanhol moderno.
A ausência de Huijsen é ainda mais sintomática porque o técnico Luis de la Fuente havia sinalizado confiança no zagueiro ao longo do ciclo classificatório. O corte não foi por lesão — foi por desempenho, e o desempenho foi moldado pelo ambiente do clube. A Espanha chega ao torneio com uma zaga que não inclui nenhum representante da equipe que dominou o futebol europeu por mais de uma década.
O efeito cascata nos demais convocados e o peso institucional do caos
Eduardo Camavinga, 23 anos, é outro nome relevante nesse mapa de ausências. O meio-campista francês, que esteve presente na Copa do Mundo de 2022 e na Eurocopa de 2024, perdeu espaço progressivamente. Na última Data Fifa antes do torneio, não entrou contra o Brasil e só atuou nos 27 minutos finais do jogo contra a Colômbia — partida em que Didier Deschamps utilizou reservas como titulares. Com N'Golo Kanté, Manu Koné, Adrien Rabiot e Aurélien Tchouaméni disputando as mesmas posições, o espaço de Camavinga encolheu até desaparecer da lista final.
O dado que resume o impacto coletivo é direto: seis jogadores do Real Madrid que tinham espaço consolidado em suas seleções ficaram de fora das convocações para a Copa do Mundo de 2026. Para um clube que historicamente fornece entre oito e doze convocados por torneio, esse número representa uma queda estrutural — não apenas uma coincidência de lesões ou escolhas técnicas isoladas. A temporada sem títulos não foi só um resultado esportivo; foi um ambiente que corroeu o desempenho individual de jogadores em diferentes estágios de carreira.
"Uma temporada assim deixa marcas que vão além da tabela de classificação", disse um membro da comissão técnica de uma das seleções afetadas, sem se identificar, em declaração reproduzida pela imprensa espanhola.
A Copa do Mundo começa em junho, e o Real Madrid já anunciou mudanças na comissão técnica para a próxima temporada. Xabi Alonso, que iniciou o ciclo com resultados promissores antes do colapso, terá de reconstruir um vestiário fraturado — e convencer seis seleções de que seus jogadores voltarão a render no nível que os levou ao Santiago Bernabéu.










