Uma corda com seis nós. Cada nó é um jogo sem vitória, cada nó é uma noite na Vila Belmiro em que o Santos entrou como favorito e saiu com menos do que precisava. Só no parágrafo seguinte o tamanho disso fica claro: o Peixe não vence em casa pela Copa Sul-Americana há quatro anos — e nesta quarta-feira (20), diante do San Lorenzo, a corda pode ganhar um sétimo nó ou, finalmente, ser desatada.

A última vez que o Santos festejou uma vitória continental dentro de suas quatro linhas foi em 23 de junho de 2022, quando um gol aos 56 minutos do segundo tempo liquidou o Unión La Calera por 1 a 0, na fase de grupos daquela Sul-Americana. Desde então, seis partidas internacionais como mandante acumularam apenas cinco empates e uma derrota — o revés contra o Newell's Old Boys, em 2023, por 2 a 1, o único resultado negativo nessa sequência, mas suficiente para deixar a marca ainda mais pesada.

Como o Santos chegou a quatro anos de seca continental na Vila

A vitória sobre o La Calera, em 2022, não foi um triunfo tranquilo. O jogo foi marcado por expulsões e confusões, e o Santos precisou de um resultado tenso para assumir a liderança do Grupo C com 10 pontos, dois à frente dos chilenos. Mesmo assim, a campanha daquele ano terminou em vexame: eliminação nas oitavas de final pelo Deportivo Táchira, da Venezuela, após empate no tempo normal e derrota nos pênaltis — dentro da própria Vila Belmiro.

Em 2023, o clube voltou à Sul-Americana e não conseguiu sequer uma vitória em casa. Os empates contra Blooming e Audax Italiano e a derrota para o Newell's Old Boys compuseram um ciclo de frustrações que o torcedor santista ainda carrega. A única alegria continental daquele ano veio fora de casa, na estreia contra o Blooming, na Bolívia — e foi a última vitória do Santos no torneio até hoje. Desde aquele resultado, o Peixe soma oito partidas consecutivas sem triunfar na Sul-Americana considerando jogos dentro e fora de casa, com quatro empates e quatro derrotas nesse recorte.

Em 2026, o cenário se repetiu: empate com o Deportivo Recoleta na fase de grupos, mantendo o padrão de uma equipe que parece se transformar em outro time quando o contexto é continental e o palco é o litoral paulista.

A pressão da Vila e o que os números revelam sobre o momento do Peixe

Há um dado que contextualiza a dimensão do problema além do futebol: em seis jogos internacionais sem vitória na Vila Belmiro, o Santos passou por pelo menos dois ciclos técnicos distintos. A continuidade do jejum atravessou comissões técnicas, elencos renovados e diferentes momentos financeiros do clube — o que transforma o tabu de resultado individual em questão estrutural.

Para ter uma medida comparativa: em seis partidas sem vencer em casa na Sul-Americana, o Santos acumulou o mesmo número de jogos sem triunfo continental que o tempo médio que um técnico brasileiro dura em clubes da Série A antes de ser demitido — aproximadamente 18 rodadas, ou pouco mais de seis meses. O jejum do Peixe, em termos de jogos, já equivale a uma gestão técnica completa sem resultado positivo no mesmo palco.

O técnico Cuca, que comanda a equipe nesta temporada, herda esse peso institucional. A pressão da torcida na Vila é real e mensurável: a cobrança por resultados em competições continentais cresceu à medida que o clube retomou protagonismo no cenário nacional, e a ausência de vitórias internacionais em casa contrasta com as expectativas geradas pelo retorno de Neymar ao clube.

Segundo o técnico Cuca, uma vitória contra o San Lorenzo é vital para as ambições do Peixe na competição, já que a equipe ainda busca terminar como líder da chave para conquistar a vaga direta para o mata-mata.

San Lorenzo, a classificação em risco e o que está em jogo nesta quarta

O adversário desta noite não chega à Vila Belmiro como figurante. Santos e San Lorenzo já se enfrentaram cinco vezes em competições oficiais, com o Peixe somando duas vitórias, dois empates e uma derrota — retrospecto que oferece algum conforto histórico, mas pouco peso diante da situação atual na tabela.

Com apenas três pontos em quatro rodadas do Grupo D, o Santos ocupa a última colocação e precisa vencer para manter qualquer esperança de classificação direta às oitavas de final. Mesmo em caso de triunfo, o Peixe seguirá dependendo de outros resultados na rodada e terá de vencer o último compromisso da fase de grupos para avançar com chances reais. A matemática é implacável: dois jogos restantes, um deles em casa, e a necessidade de resultado positivo em ambos.

A pressão que a torcida exerce na Vila Belmiro, portanto, não é irracional. É a resposta natural de uma fanbase que viu o clube empatar com Banfield, Táchira, Blooming, Audax Italiano e Recoleta em casa, e perder para o Newell's — adversários que, em outros contextos, não representariam ameaça ao Peixe dentro de seu próprio estádio. O tabu deixou de ser curiosidade estatística e passou a ser pressão psicológica real sobre o grupo.

Nas palavras do entorno do clube, o duelo contra o San Lorenzo representa a chance de o Peixe voltar a vencer como mandante em competições internacionais após quatro anos — uma janela que, se não for aproveitada, pode fechar definitivamente a participação santista na Sul-Americana de 2026.

Uma receita que ficou quatro anos sem sair do forno não perde só o sabor — perde a confiança de quem cozinha. O Santos precisa, nesta quarta-feira, provar que ainda sabe a fórmula. O jogo contra o San Lorenzo começa às 19h (de Brasília), na Vila Belmiro, com o Peixe precisando dos três pontos para não encerrar a fase de grupos na lanterna do Grupo D.