Confesso: quando a FIFA anunciou a expansão para 48 seleções na Copa do Mundo de 2026, achei que era o limite. Que a entidade havia encontrado o equilíbrio entre crescimento e qualidade. Hoje, com a notícia de que Zurique estuda levar o torneio a 66 países em 2030, percebo que cometi o erro clássico de subestimar o apetite de quem controla o maior espetáculo esportivo do planeta. Não há tragédia: há contabilidade.

O que a FIFA está desenhando para 2030

A proposta circula nos bastidores da entidade com uma arquitetura bem definida: 16 grupos de quatro seleções cada, com os dois melhores terceiros colocados avançando para a fase eliminatória. O número exato — 66 — não é aleatório. Ele representa um crescimento de 37,5% em relação ao formato que estreia agora nos Estados Unidos, Canadá e México, e mais do que o dobro das 32 seleções que disputaram o Mundial do Catar em 2022. Segundo o jornal espanhol As, federações nacionais e a própria Conmebol já sinalizaram apoio à ideia, o que transforma o que parecia delírio administrativo em algo com tração política real.

A Copa de 2030 já tem uma geografia generosa: sede principal dividida entre Espanha, Portugal e Marrocos, com partidas históricas na Argentina, Uruguai e Paraguai para celebrar o centenário do torneio. Adicionar 18 seleções a esse mapa não é apenas uma decisão esportiva — é uma negociação de direitos de transmissão, de patrocínios e de poder geopolítico dentro do futebol.

A lógica da representatividade e seus limites reais

O argumento oficial da expansão tem um apelo genuíno. Seleções como Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão chegam pela primeira vez a uma Copa do Mundo em 2026 — exatamente porque havia mais vagas disponíveis. Levar o futebol a países que nunca viveram um Mundial tem valor cultural que nenhuma planilha captura completamente. A FIFA, ao ampliar de 32 para 48, não estava errada nessa premissa.

O problema começa quando a matemática encontra o campo. Com 66 seleções, os grupos de fase inicial passam a incluir confrontos entre seleções de ranking muito distante. Um levantamento que o SportNavo acompanhou ao longo das classificatórias de 2026 mostrou que jogos com diferença superior a 60 posições no ranking FIFA registram média de 3,8 gols de diferença — partidas que esvaziam arquibancadas e fazem o controle remoto trabalhar horas extras. A qualidade técnica média do torneio cai. Isso não é opinião: é o padrão histórico de toda expansão de competição.

O que os críticos apontam com mais consistência

  • Calendário ainda mais sobrecarregado: com 66 seleções, o número de jogos salta para algo próximo de 140 partidas, contra as 104 previstas para 2026 — impacto direto nos clubes europeus e sul-americanos que cedem jogadores.
  • Diluição técnica na fase de grupos: confrontos entre seleções de baixo ranking enchem vagas sem gerar tensão esportiva real.
  • Logística em escala industrial: sedes múltiplas em três continentes diferentes já exigem coordenação extrema para 48 times — 66 transforma isso numa operação de Estado.

A Copa de 2026 como laboratório decisivo

A própria FIFA reconhece, mesmo que nas entrelinhas, que nenhuma decisão sobre 2030 será tomada antes do fim do torneio deste ano. O processo de planejamento da edição centenária sequer foi iniciado oficialmente. O que existe são conversas, pressões e sinalizações — a linguagem real do poder dentro de entidades esportivas. O desempenho comercial de 2026 será o argumento mais forte de qualquer lado: se o lucro recorde projetado se confirmar, a expansão ganha combustível. Se os estádios esvaziarem nos jogos menos atrativos da fase de grupos, a resistência cresce.

O que a FIFA está desenhando para 2030 66 seleções numa Copa do Mundo é ambição
O que a FIFA está desenhando para 2030 66 seleções numa Copa do Mundo é ambição

Há um detalhe revelador no movimento interno da FIFA: a ideia de realizar o Mundial de Clubes a cada dois anos perdeu força nos bastidores no mesmo período em que a proposta das 66 seleções avançou. A entidade parece ter escolhido onde concentrar sua expansão — e escolheu o torneio que vende mais, que transmite mais, que paga mais. A lógica é quase elegante na sua frieza.

O que esperar até a decisão final

O centenário da Copa do Mundo em 2030 cria uma pressão simbólica que favorece anúncios grandiosos. Mas entre o estudo e a implementação existe um caminho que passa por negociações com ligas nacionais, confederações continentais e emissoras de televisão — cada uma com interesses específicos e capacidade real de travar ou acelerar o processo. A Copa de 2026 termina em julho deste ano, e é a partir daí que o planejamento de 2030 começa de verdade. Qualquer anúncio oficial sobre o formato de 66 seleções só deve acontecer em 2027, no mínimo — tempo suficiente para os dados de 2026 falarem mais alto do que qualquer proposta de bastidor.