É um relógio suíço com pavio curto.
O Santos de Cuca funciona com precisão no momento de abrir o placar — e entra em colapso quando deveria apenas administrar o que conquistou. Dos 16 jogos disputados sob o comando do treinador em 2026, em sete o Peixe saiu na frente e não conseguiu confirmar a vitória. Sete partidas. Quase metade do ciclo. Um padrão que não é coincidência.
Como o Santos chegou a este ponto no Brasileirão
Cuca assumiu o Santos em um momento de instabilidade, com o clube já sentindo a pressão da Série A. Nos primeiros jogos, a equipe mostrou capacidade de criar situações ofensivas e marcar primeiro — o que, em tese, deveria ser o caminho mais seguro para somar pontos. O problema é que o time nunca encontrou a chave para fechar as partidas.
Quando abre o placar, o Santos recua excessivamente, abre espaços no meio-campo e permite que adversários de maior posse de bola, como Flamengo e Palmeiras, reorganizem o jogo sem pressão. Quando perde a bola na saída de pressão, a linha defensiva demora a se recompor — e é aí que os gols sofridos aparecem.
Os 7 jogos que revelam o padrão de gestão do Santos
Das sete partidas em que o Santos saiu na frente sem vencer, duas terminaram em virada: contra o Flamengo, no Maracanã, e contra o Fluminense, na Vila Belmiro — ambas pelo Campeonato Brasileiro. Nos dois casos, o Peixe não apenas cedeu o empate como saiu derrotado, o que agrava ainda mais o diagnóstico tático.
Nos outros cinco confrontos, o Santos cedeu o empate. Pelo Brasileirão, isso aconteceu diante do Palmeiras, no Allianz Parque, e do Bahia, na Fonte Nova. Pela Copa Sul-Americana, os tropeços vieram em dois jogos contra o Deportivo Recoleta e em um duelo contra o San Lorenzo, na Vila Belmiro — este último com Neymar como dúvida para a partida, segundo informações do período.
Quando abre o placar em casa, o Santos perde a compactação defensiva nos últimos 20 minutos. Quando abre o placar fora, recua a linha para os 30 metros e entrega o controle da bola ao adversário.
O levantamento feito pelo SportNavo com base nos dados da temporada mostra que esses 7 jogos representam uma perda de 16 pontos: 10 no Brasileirão e 6 na Sul-Americana. Com esses pontos no bolso, o Santos teria 28 na Série A — o suficiente para ocupar a quarta colocação da tabela, em vez da 16ª posição com 18 pontos, apenas um acima da zona de rebaixamento. Na Sul-Americana, o cenário seria ainda mais drástico: o Peixe passaria de lanterna do grupo, com 4 pontos, para líder da chave, com 10.
O que Cuca precisa mudar para o Santos parar de sangrar pontos
Segundo análises do próprio corpo técnico, a dificuldade não é de ordem física — o Santos não apresenta queda de rendimento aeróbico nos minutos finais de forma sistemática. O problema está na leitura de jogo coletiva após a abertura do placar. A equipe não tem um mecanismo claro de gestão de vantagem: não pressiona para ampliar, não se fecha com organização para segurar.
Quando faz a transição para o bloco médio após o gol, o Santos perde referências no meio-campo e deixa o corredor central exposto. Quando tenta manter a posse para administrar, não tem qualidade técnica suficiente para isso com os jogadores disponíveis no setor intermediário.
A solução passa por ajustes pontuais de posicionamento após o gol — algo que treinadores como Cuca já implementaram com sucesso em outros clubes, como no Atlético-MG em 2021. A questão é se o elenco santista tem os perfis necessários para executar uma gestão de bloco baixo com saída rápida em contra-ataque, que é o modelo mais viável dado o calendário e o desgaste da temporada.
O Santos volta a campo no Brasileirão ainda nesta rodada — e cada ponto desperdiçado agora é um ponto que pode custar a permanência na Série A no final de novembro — a aritmética é implacável e não espera por ajustes graduais.









