6 jogos sem vencer — esse é o número que Dorival Júnior encontrou na mesa ao ser anunciado pelo São Paulo nesta semana. Não é uma crise de um único resultado ruim, de um placar constrangedor isolado. São seis partidas consecutivas sem vitória, uma sequência que corrói confiança, esvazia o vestiário e pressiona a diretoria. E o técnico de 64 anos, que já comandou o clube em duas passagens anteriores, tem menos de 72 horas para tentar interromper esse ciclo diante do Millonarios, da Colômbia, pela Copa Sul-Americana, nesta terça-feira, às 21h30, no MorumBis.
Quem se beneficia imediatamente com a chegada de Dorival
O primeiro efeito de uma troca de treinador é sempre psicológico, e o São Paulo precisa disso agora. Jogadores que estavam sendo escalados em posições que não dominam ou que perderam espaço sob o comando anterior ganham uma nova chance de se reapresentar. No caso de Dorival, que tem histórico de valorizar atletas experientes e de dar protagonismo a lideranças de vestiário, nomes como Calleri e Lucas Moura — que acumulam mais de 200 jogos com a camisa tricolor entre as duas passagens — voltam ao centro das atenções. Segundo informações que circulam nos bastidores do clube, o técnico realizou sua primeira conversa com o elenco já no domingo, horas após a confirmação do acerto, priorizando o alinhamento emocional antes de qualquer ajuste tático.
A comissão técnica montada por Dorival também representa um ganho imediato de organização. Ele não chegou sozinho — trouxe sua equipe de confiança, que já trabalhou com ele na Seleção Brasileira e em clubes anteriores. Isso significa que o tempo de adaptação da comissão ao clube é menor do que o esperado para uma troca de comando tão abrupta.
O peso que o São Paulo carrega antes mesmo de entrar em campo
Quem perde nesse cenário — ao menos no curto prazo — é o próprio processo de construção de jogo. Há quem defenda que 72 horas são suficientes para um técnico experiente estabilizar uma equipe. O argumento tem algum mérito: Dorival conhece o clube, conhece parte do elenco e não precisa aprender o contexto do zero. Mas os dados históricos do futebol brasileiro mostram que times que trocam de treinador durante sequências de seis ou mais jogos sem vitória raramente vencem na primeira partida sob o novo comando — a taxa de aproveitamento nessas estreias, segundo levantamentos do Footstats para o Brasileirão entre 2018 e 2025, não ultrapassa 38%.

O adversário desta noite não facilita a conta. O Millonarios — clube colombiano com história na Copa Libertadores e elenco competitivo na temporada 2026 da CONMEBOL — não é um time que entra no MorumBis para administrar o empate. A equipe de Bogotá tem jogadores acostumados ao futebol internacional e não vai se intimidar pela pressão da torcida tricolor, que comparecerá em número relevante justamente pela expectativa gerada pelo retorno de Dorival.
"Dorival conhece o São Paulo por dentro. Ele sabe onde o time sangra e sabe como estancar. O problema é que 72 horas não é tempo para cirurgia — é tempo para curativo", avaliou um membro da comissão técnica tricolor, segundo informações apuradas pelo SportNavo.
O efeito cascata nas próximas rodadas da Sul-Americana e do Brasileirão
Se o São Paulo vencer o Millonarios nesta terça, o efeito vai além dos três pontos na fase de grupos da Sul-Americana. A sequência de seis jogos sem vitória tem um custo emocional que só se dissolve com resultado — e um triunfo na estreia de Dorival funcionaria como reinicialização do ciclo de confiança do grupo. Nos próximos 15 dias, o Tricolor tem ao menos três compromissos decisivos pelo Campeonato Brasileiro de 2026, competição em que o clube não pode se dar ao luxo de acumular mais tropeços sem comprometer a posição na tabela.
A derrota ou o empate, no entanto, não significa o fim do projeto Dorival — mas aprofunda o problema. Um técnico que chega sob pressão e não pontua na estreia perde parte do capital político que a novidade proporciona. A diretoria do São Paulo, que apostou no nome de Dorival como solução de curto e médio prazo, precisaria recalibrar o discurso público rapidamente. A janela de paciência do torcedor tricolor — que já viu três trocas de treinador nos últimos 18 meses — está visivelmente mais estreita do que em ciclos anteriores.
"Não vim para fazer transição. Vim para ganhar", disse Dorival Júnior em sua primeira entrevista após a confirmação do retorno ao clube, sinalizando que não aceita o papel de gestor de crise sem cobrar resultados imediatos.
O que Dorival pode mudar em menos de três dias — e o que está fora do alcance
Há ajustes que um treinador experiente consegue implementar em 72 horas: posicionamento defensivo nos duelos de bola parada, organização das linhas no bloco médio e a definição de um jogador de referência no ataque. Dorival — que na sua segunda passagem pelo clube, entre 2022 e 2023, montou um sistema com dois volantes de marcação e extremos com liberdade para inverter — tem repertório tático para fazer escolhas rápidas sem depender de treino intensivo.
O que está fora do alcance imediato é a confiança individual dos jogadores. Um atacante que errou gol feito três vezes nas últimas semanas não recupera o instinto de finalização em dois treinos. Um lateral que passou a última quinzena com problemas musculares não chega ao jogo de terça com a mesma agressividade de quando está em ritmo pleno. Esses são os limites reais da janela de 72 horas — e Dorival, que é um técnico analítico, sabe disso melhor do que qualquer comentarista.

A partida desta terça-feira, às 21h30, no MorumBis, é o primeiro teste de uma hipótese: a de que o nome de Dorival Júnior ainda carrega força suficiente para mover um grupo que parou de vencer. O técnico tem o currículo — está pronto. Falta o palco responder.










