73,10 pontos numa escala de 0 a 100. Esse é o número que coloca Gavião Peixoto, município de menos de 5 mil habitantes na região de Araraquara, no topo do IPS Brasil 2026 — o Índice de Progresso Social que avalia 57 indicadores sociais e ambientais nos 5.570 municípios do país. A nota é superior à de todas as 27 capitais brasileiras, incluindo São Paulo (70,64), Curitiba (71,29) e Brasília (70,73).

É o terceiro ano consecutivo que a cidade lidera o ranking nacional. A média brasileira no IPS 2026 ficou em 63,40 — ou seja, Gavião Peixoto supera o índice médio do país por quase 10 pontos.

O que o IPS Brasil mede e por que 57 indicadores importam

Diferente do PIB ou do IDH tradicional, o IPS não mede riqueza gerada — mede resultado entregue à população. Os 57 indicadores estão distribuídos em três grandes grupos: Necessidades Humanas Básicas (alimentação, saúde, moradia, segurança), Fundamentos do Bem-estar (educação básica, meio ambiente, acesso à informação) e Oportunidades (direitos individuais, ensino superior, liberdades civis).

O que o IPS Brasil mede e por que 57 indicadores importam 73,10 pontos e menos d
O que o IPS Brasil mede e por que 57 indicadores importam 73,10 pontos e menos d

Os dados vêm de fontes públicas como DataSUS, IBGE, Inep e MapBiomas. No recorte nacional, o Brasil teve seu melhor desempenho médio em Moradia (87,95) e Acesso à Informação e Comunicação (79,81). Os piores foram em Direitos Individuais (39,14) e Acesso à Educação Superior. Gavião Peixoto se destacou especificamente em cobertura vacinal, mortalidade infantil, saneamento, segurança pública e conectividade.

A Embraer no interior paulista e o efeito multiplicador na cidade

A unidade da Embraer instalada em Gavião Peixoto desde 2001 é o principal motor econômico local. A fábrica emprega mais da metade da população ativa do município e responde por um PIB per capita que o coordenador do IPS Brasil, Beto Veríssimo, classificou como excepcionalmente alto para uma cidade desse porte.

"Gavião Peixoto reúne vários fatores positivos. É um município com PIB per capita muito elevado que consegue transformar isso em qualidade de vida", disse Veríssimo.

Esse ponto é central: ter PIB alto não garante qualidade de vida — o que o IPS mede é exatamente a capacidade de converter riqueza em bem-estar concreto para os moradores. Gavião Peixoto faz essa conversão com eficiência acima da média nacional.

A Embraer no interior paulista e o efeito multiplicador na cidade 73,10 pontos e
A Embraer no interior paulista e o efeito multiplicador na cidade 73,10 pontos e

A cidade também recebe visitas regulares de estudantes à unidade da Embraer, o que movimenta o setor de serviços local e diversifica a economia além da indústria aeronáutica.

São Paulo concentra o topo — e o mapa explica o motivo

Entre os 10 municípios com maior IPS no Brasil, sete são paulistas: Gavião Peixoto (73,10), Jundiaí (71,80), Osvaldo Cruz (71,76), Pompéia (71,76), Gabriel Monteiro (71,16) e Itupeva (71,08). Entre os 20 primeiros colocados, dez ficam no território paulista.

"O que a gente constata é que São Paulo apresenta uma 'mancha azul' no mapa do IPS Brasil, ou seja, uma qualidade de vida elevada e amplamente distribuída pelo território. Diferente de outros estados, onde há apenas alguns clusters de municípios com notas altas", afirmou Veríssimo à Folha.

A explicação técnica envolve três fatores combinados: infraestrutura consolidada, oferta regionalizada de serviços públicos e integração entre cidades médias e pequenas. Gavião Peixoto está a menos de 40 km de Araraquara, polo regional com hospitais de alta complexidade, universidades e serviços especializados.

"Mesmo municípios pequenos, como Gavião Peixoto, se beneficiam de estar próximos de centros maiores, como Araraquara. É como se o melhor cenário fosse morar em uma cidade pequena do interior paulista: você tem mais tranquilidade, menos congestionamento, melhor qualidade ambiental, mas continua com acesso relativamente próximo a hospitais de alta complexidade, educação e outros serviços", completou o coordenador.

No outro extremo, Uiramutã (RR) registrou o pior desempenho do país, com 42,44 pontos — diferença de 30,66 pontos em relação ao líder. Das 20 piores cidades, 19 ficam no Norte ou Nordeste, sendo 12 apenas no Pará — estado que sediará a COP30 ainda em 2025.

O que Gavião Peixoto entrega que falta nas grandes cidades

A cidade tem menos de 5 mil habitantes, fica a aproximadamente 4 horas da capital paulista e oferece atrações naturais como trilhas, cachoeiras e o Parque Ecológico Municipal. Mas o que o IPS captura vai além do turismo: os indicadores de segurança pública, mortalidade infantil e cobertura vacinal estão entre os mais altos do ranking nacional.

Para efeito de comparação: Curitiba, a melhor capital do ranking com 71,29 pontos, ainda fica 1,81 ponto abaixo de Gavião Peixoto — uma diferença que, na escala do IPS, representa dezenas de indicadores sociais acima da média. Brasília aparece em segundo entre as capitais (70,73), seguida por São Paulo (70,64), Campo Grande (69,77) e Belo Horizonte (69,66).

O desempenho de Gavião Peixoto no IPS 2026 reforça um padrão que o ranking vem documentando desde sua primeira edição: cidades pequenas com economia ancorada em grandes empregadores industriais, inseridas em regiões com infraestrutura regional consolidada, conseguem desempenho social superior ao de metrópoles com orçamentos bilionários. O próximo relatório do IPS Brasil está previsto para 2027, quando o índice completará seu terceiro ciclo completo de avaliação dos 5.570 municípios.