Diz-se que o Flamengo tem uma das bases mais produtivas do Brasil. O dado é real — mas o que acontece quando essa base precisa funcionar de verdade, com pressão de resultado e sem rede de proteção, revela algo que os números de categorias de base raramente mostram.
Com nove jogadores convocados para a Copa do Mundo e já integrados às suas respectivas seleções, Leonardo Jardim convocou oito atletas do sub-20 para os treinos no Ninho do Urubu. Não é um gesto simbólico. É uma janela de avaliação real, com tempo contado e critérios objetivos.
Nove fora, oito dentro — o vazio que virou oportunidade
A lista de convocados que deixou o Rubro-Negro com o elenco esvaziado é pesada: Alex Sandro, Danilo, Léo Pereira e Lucas Paquetá foram chamados pelo Brasil. Arrascaeta, De la Cruz e Varela seguiram para o Uruguai. São sete nomes de peso só nessas duas seleções — e o número total chega a nove quando se somam as demais convocações.
Para preencher esse espaço nos treinos, Jardim acionou: o lateral direito Daniel Sales, o lateral esquerdo Johnny, os zagueiros João Victor e Daniel Carvalho, o volante Kaio Nobrega, o meia Sayago e os atacantes Alan e Joshua. Oito nomes, oito histórias diferentes dentro do Ninho.
A lista, segundo o clube, ainda não está fechada. Nem em relação aos nomes, nem à quantidade. O processo de avaliação começou no dia seguinte ao último jogo do sub-20 — o empate com o América-MG, em Belo Horizonte, que deixou o time na 9ª posição do Brasileirão da categoria, um ponto fora da zona de classificação para as quartas de final.
O precedente que explica o método de Jardim
Isso já aconteceu antes no Flamengo — e o resultado foi misto. Em 2019, durante a campanha do título brasileiro com Jorge Jesus, alguns garotos foram integrados ao grupo profissional em datas FIFA e voltaram para a base sem deixar rastro. Em 2022, com Dorival Júnior, o processo foi diferente: Victor Hugo e Matheus Gonçalves treinaram com o elenco principal e um deles acabou sendo aproveitado em partidas oficiais meses depois.
Jardim parece seguir uma lógica mais próxima da segunda experiência. O técnico português tem histórico de trabalhar com jovens — no Monaco, entre 2014 e 2017, ele foi o responsável por lançar Kylian Mbappé e Bernardo Silva no futebol europeu de alto nível. Não é garantia de nada, mas o método existe e tem referência.
A analogia mais precisa vem do jazz: um músico de base que entra no palco de um grupo profissional não precisa ser o melhor da noite — precisa não desafinar. Jardim está ouvindo quem consegue tocar no ritmo certo.

"A lista de promovidos ainda não está fechada nem em relação aos nomes e nem à quantidade. Os jovens passam por um período de avaliação com Leonardo Jardim", informou o clube.
Quem são os garotos e o que cada um representa
Daniel Sales, lateral direito, é um dos nomes mais cotados para permanecer no grupo mesmo após o retorno dos convocados. Rápido na transição e com boa leitura defensiva, ele tem sido um dos destaques do sub-20 nesta temporada de 2026.
Johnny, na lateral esquerda, cobre uma posição que ficou sem reserva imediata com as ausências. A promoção dele é mais pragmática do que uma aposta de longo prazo — mas o desempenho nos treinos pode mudar essa equação.
João Victor e Daniel Carvalho formam a dupla de zagueiros promovida. Com Léo Pereira na Copa, a zaga precisa de opções. Os dois chegam como alternativas de curto prazo, mas qualquer destaque nos treinos abre margem para uma convocação em jogo oficial.
Kaio Nobrega, no meio-campo, e Sayago, como meia criativo, são os nomes que mais interessam ao técnico em termos de perfil tático. Jardim gosta de volantes que participam da saída de bola — Nobrega tem esse perfil. Sayago, por sua vez, pode funcionar como alternativa ao estilo de De la Cruz em situações específicas.
Os atacantes Alan e Joshua completam o grupo. Com Paquetá fora, o setor ofensivo precisa de criatividade vinda de outros pontos do campo — e os dois chegam para mostrar que a base tem soluções.
O sub-20 na corda bamba e o que muda com as promoções
O timing da promoção traz um problema colateral: o sub-20 do Flamengo está em 9º lugar no Brasileirão da categoria, com os oito primeiros se classificando para as quartas de final. Perder jogadores titulares para os treinos do profissional, mesmo que temporariamente, pressiona o técnico da base a reorganizar o time em um momento crítico.
O levantamento feito pelo SportNavo mostra que, historicamente, clubes que promovem mais de seis atletas simultaneamente da base para o profissional durante datas FIFA têm queda de desempenho nas categorias de origem nas rodadas seguintes — o que torna a gestão desse processo tão importante quanto a avaliação em si.
"O processo de análise se iniciou hoje, já que ontem o sub-20 atuou pelo Campeonato Brasileiro da categoria", destacou o clube em comunicado interno.
A questão central não é se algum desses oito vai virar titular do Flamengo em 2026. A questão é quantos vão sair dessa janela com contrato profissional assinado ou com uma promessa concreta de aproveitamento. Nos últimos três anos, o clube promoveu mais de 20 atletas da base ao profissional — mas apenas uma minoria conseguiu sequência real de jogos.
O Flamengo volta a campo pelo Brasileirão Série A no próximo fim de semana. Até lá, Jardim tem menos de dez dias para definir quem fica, quem volta para a base e quem entra na lista de relacionados para o próximo jogo oficial. A janela é pequena. As decisões, permanentes.
Oito garotos entraram no Ninho. Quantos vão sair com futuro no profissional é a única pergunta que importa agora.










