8 vitórias consecutivas. Esse número, sozinho, resume o que Julian Nagelsmann construiu na seleção alemã desde que retomou o comando após a eliminação vexatória na Eurocopa de 2024 — quando a própria Espanha, em casa, encerrou o sonho germânico diante de 70 mil torcedores em Stuttgart. Nenhuma seleção europeia entre as favoritas ao título da Copa do Mundo de 2026 chega ao torneio com uma sequência assim. Nem a França de Mbappé. Nem a Espanha de Yamal. A Bundesliga sempre formou campeões, mas raramente a seleção nacional e o clube andaram tão sincronizados quanto agora.
Como os 4x0 sobre a Finlândia revelam a nova Alemanha de Nagelsmann
O placar de 4x0 contra a Finlândia no último domingo não foi acidente. Dois gols de Deniz Undav, um de Florian Wirtz e outro de Jamal Musiala compõem exatamente o trio ofensivo que Nagelsmann passou 18 meses lapidando. Wirtz, recém-transferido do Bayer Leverkusen para o Liverpool, já não é mais aquele meia de flanco que precisava de proteção. Tornou-se o organizador do jogo alemão — papel que Thomas Müller exerceu com maestria entre 2010 e 2018, mas com uma mobilidade técnica diferente, mais próxima do Zinédine Zidane dos anos 2000 do que do "Raumdeuter" bávaro.
Musiala, por sua vez, representa a continuidade de uma linhagem que a Alemanha levou décadas para produzir: o dez criativo, de pé educado, capaz de decidir em espaços reduzidos. A última vez que o selecionado germânico teve dois jogadores desse perfil operando simultaneamente foi em 2012, com Özil e Müller. Não é comparação leviana — é dado de convocatória e estatística de participação em gols que sustenta essa leitura.
Nas eliminatórias europeias, a Alemanha venceu cinco dos seis jogos do grupo, incluindo um 6x0 sobre a Eslováquia na última rodada. O saldo de gols nesses seis confrontos ficou acima de +18, número que coloca essa geração na mesma prateleira do time de Rudi Völler em 2002 — que chegou à final do Mundial no Japão jogando um futebol pragmático, mas eficiente. Nagelsmann, ao contrário de Völler, quer vistosidade e resultado.
O que os EUA de Pochettino precisam fazer para não repetir o 5x2 da Bélgica
Mauricio Pochettino chega ao Soldier Field, em Chicago, neste sábado (6 de junho) carregando um paradoxo incômodo: a vitória de 3x2 sobre Senegal devolveu moral ao grupo americano, mas os gols sofridos — dois deles após o intervalo, quando Mané encontrou espaços entre os zagueiros — expõem uma fragilidade que se repete nos últimos cinco jogos. Os EUA sofreram gol em todos eles: dois contra Senegal, cinco contra a Bélgica, dois contra Portugal, um contra o Paraguai, um contra o Uruguai. Sistêmico.
A ausência de Chris Richards complica ainda mais essa equação. O zagueiro do Crystal Palace rompeu dois ligamentos no tornozelo em 17 de maio e não viajou para o confronto contra Senegal. Sem ele, Pochettino improvisou um esquema com três zagueiros — Ream, McKenzie e Freeman — que funcionou por 20 minutos e depois se desmanchou. Contra Wirtz e Musiala em velocidade, essa linha de três pode sofrer muito mais.
Christian Pulisic, o termômetro americano com 33 gols em 85 jogos pela seleção, encerrou um jejum que se arrastava desde dezembro ao marcar e dar assistência contra Senegal. Quando o camisa 10 do Milan produz, os EUA competem. Quando ele desaparece — e isso ocorreu na maioria dos jogos deste ano —, a seleção anfitriã parece uma equipe de meio de tabela da MLS. Funcionou.
"Quando Pulisic está em dia, ele é capaz de mudar qualquer jogo", disse Pochettino em coletiva antes do embarque para Chicago, sinalizando que o atacante será peça central no esquema contra os alemães.
O que a sequência invicta projeta para o Mundial disputado em casa
Há um precedente histórico que ilumina esse momento da Alemanha. Em 1990, Franz Beckenbauer levou uma seleção que havia passado por uma reconstrução silenciosa — Matthäus como capitão e motor, Klinsmann como finalizador, Völler como segundo atacante — e venceu a Copa do Mundo na Itália com uma combinação de organização defensiva e transições rápidas. O time de Nagelsmann tem estrutura diferente, mais apoiada na posse de bola, mas o princípio da construção paciente é o mesmo.
A diferença, e ela é relevante, é que aquela Alemanha de 1990 chegou ao torneio com uma sequência invicta menor e menos gols marcados. O atual ciclo soma mais de 20 gols nos últimos oito jogos, com pelo menos três jogadores diferentes balançando as redes em cada partida — o que indica que Nagelsmann resolveu o problema crônico da dependência de um único artilheiro, algo que afligiu a seleção entre 2014 e 2022.
"Estamos crescendo a cada jogo. O grupo entende o que eu quero e os jogadores têm qualidade para executar", declarou Nagelsmann após a goleada sobre a Finlândia, numa rara demonstração de satisfação pública do treinador, conhecido por ser parcimonioso nos elogios.
O amistoso contra os EUA, neste sábado no Soldier Field — estádio que já recebeu jogos históricos da Copa de 1994 —, é o último ensaio antes do torneio. Em matéria do SportNavo, acompanhamos as odds do confronto, que colocam a Alemanha como favorita clara, com vitória germânica oscilando entre 1,55 e 1,65 nas principais casas. A seleção de Nagelsmann estreia na Copa do Mundo de 2026 no Grupo E, e uma vitória convincente sobre os anfitriões seria o argumento final de que essa sequência de 8 jogos não é somente estatística — é estrutura.
É o mesmo cenário que a Espanha viveu em 2008, chegando à Eurocopa com dez jogos sem perder sob Luis Aragonés — só que agora a aposta é de uma equipe que não joga em casa, mas que sabe exatamente o que quer do futebol.









