O número ficou pulsando na tela por um bom tempo depois do apito final em East Rutherford: 86 toques na bola. Foi o total de Ayyoub Bouaddi, 18 anos, jogador do Lille que nem tinha uma partida oficial pelo Marrocos há três semanas antes desse jogo, no sábado, 13 de junho. Oitenta e seis toques — mais do que qualquer companheiro de equipe — com precisão de passe acima de 90%. O Brasil empatou em 1 a 1 e agora precisa vencer o Haiti, na sexta-feira, 19 de junho, às 21h30, para não deixar sua classificação na mão de terceiros.

O que Bouaddi revelou sobre o meio-campo brasileiro

Reparemos no detalhe que os números escondem: Bouaddi não apenas teve muitos toques — ele os teve nas zonas certas. Um volume tão alto de participações para um meia central numa partida de Copa do Mundo indica, antes de tudo, que a pressão defensiva do adversário foi insuficiente. Em termos de PPDA (passes permitidos por ação defensiva), o Brasil apresentou números que preocupam: quando o PPDA de uma equipe sobe acima de 10 no campo do adversário, significa que ela está deixando o rival construir com conforto. Bouaddi construiu com conforto.

O problema não foi só a quantidade de passes que ele recebeu, mas a ausência de progressive passes em resposta pelo lado brasileiro. Progressive passes são aqueles que avançam o jogo pelo menos dez metros em direção ao gol adversário — e o setor intermediário do Brasil pouco os produziu no primeiro tempo. Sem essa progressão, o ataque ficou dependente de jogadas individuais, e o 1 a 1 final refletiu exatamente isso: um Brasil que criou, mas não sufocou.

O técnico marroquino Mohamed Ouahbi não escondeu a satisfação com a performance de seu jovem meia:

"Sabíamos que ele era um jogador de qualidade e foi por isso que tivemos muitas reuniões para convencê-lo a jogar pelo Marrocos."
Essa frase importa porque Bouaddi passou a maior parte de 2024 e início de 2025 como capitão da seleção sub-21 da França — e escolheu Marrocos pouco antes da Copa. Contra o Brasil, em sua quarta partida pela seleção africana, foi o melhor em campo.

O que Bouaddi revelou sobre o meio-campo brasileiro 86 toques de Bouaddi expuser
O que Bouaddi revelou sobre o meio-campo brasileiro 86 toques de Bouaddi expuser

A lateral direita sem Wesley e o que muda com Ederson

Wesley cortado da Copa por lesão na coxa direita — quarenta dias de recuperação, torneio perdido — foi a notícia mais dura da semana para a comissão técnica brasileira. O lateral publicou nas redes sociais, neste domingo, um passeio de barco com a família, tentando seguir em frente enquanto Ederson, do Atalanta, foi convocado para ocupar a vaga.

A mudança tem implicações táticas diretas. Wesley é um lateral com perfil mais ofensivo, com alta capacidade de sobreposição e geração de xA (expected assists) por cruzamentos — algo que o Brasil usa bastante no lado direito para criar triangulações com o camisa 7 ou o meia que avança. Ederson tem um perfil mais conservador, mais seguro na marcação individual, mas menos projetado ao ataque. Isso altera o equilíbrio da equipe: ou o lado esquerdo vai precisar assumir mais responsabilidade ofensiva, ou o time vai buscar o Haiti de forma mais centralizada, apostando em jogadas pelo meio.

Contra o Haiti, essa segunda opção pode até funcionar. A seleção caribenha perdeu para a Escócia na estreia e está na última posição do Grupo C. Mas subestimar o adversário seria um erro histórico — em 2010, o Haiti voltou às eliminatórias com um futebol baseado em alta intensidade defensiva e transições rápidas. O técnico atual da equipe haitiana já demonstrou que o time não virá para se defender passivamente.

Como a defesa brasileira pode se ajustar para sexta

Três pontos de ajuste que a análise do jogo contra Marrocos sugere com clareza:

  • Aumentar as defensive actions no campo adversário: O Brasil precisa elevar a pressão alta logo após a perda de bola. Contra Bouaddi, os jogadores brasileiros recuaram com frequência, permitindo que ele girasse com tempo. Contra o Haiti, pressionar a saída de bola pode ser a chave para criar situações de xG (expected goals) mais próximas da área.
  • Reformular o pass network no setor central: Uma rede de passes mais compacta entre os meias e os volantes evita que o adversário encontre linhas de passe verticais. Contra Marrocos, o espaçamento foi excessivo, e Bouaddi explorou essas lacunas repetidamente.
  • Usar Ederson com inteligência posicional: O lateral do Atalanta tem boa leitura de jogo e pode cobrir bem os espaços que o Haiti vai tentar explorar em contra-ataques. A chave é não pedir a ele o que Wesley fazia — sobreposição constante — e deixá-lo com uma função mais equilibrada.

Há também a questão de Neymar, que segue como dúvida para o jogo de sexta após se recuperar de lesão. Se ele jogar, o Brasil tem um criador de xA diferenciado — alguém que, mesmo com os números físicos abaixo do que tinha em 2014 ou 2018, ainda gera situações de finalização pela capacidade de atrair marcadores e abrir espaço para os companheiros.

O Grupo C e o que está em jogo na sexta

A situação no Grupo C é a seguinte: a Escócia lidera com 3 pontos, Brasil e Marrocos têm 1 ponto cada, e o Haiti está com zero. O Brasil joga contra o Haiti antes do Marrocos — isso significa que os marroquinos saberão exatamente o que precisam fazer na última rodada para se classificar. Se o Brasil vencer por uma margem confortável, a pressão sobre Marrocos aumenta.

E então tem a Alemanha. Enquanto o Brasil tropeçava no sábado, os alemães aplicavam 7 a 1 em Curaçao, no domingo, com gols de Nmecha, Schlotterbeck, Havertz, Musiala, Nathaniel Brown e Undav — além do gol histórico de Livano Comenencia pelos caribenhos. Com esse resultado, a Alemanha ultrapassou o Brasil e se tornou a maior artilheira da história das Copas do Mundo: 239 gols, contra 238 do Brasil. Manuel Neuer, 40 anos, titular alemão, voltou da aposentadoria internacional para essa Copa e fez a partida sem trabalho.

Em matéria do SportNavo publicada logo após o apito final da partida Brasil-Marrocos, os dados já apontavam que a seleção verde-amarela entra em território de eliminação se não vencer na sexta. Com a Copa do Mundo em formato de 48 seleções, os oito melhores terceiros colocados avançam — mas nenhum torcedor do hexacampeonato quer depender desse critério.

O Brasil entra em campo na sexta-feira, 19 de junho, às 21h30 (horário de Brasília), contra o Haiti. Uma vitória coloca a seleção em posição favorável no grupo e abre caminho para enfrentar o segundo do Grupo F — Holanda, Suécia, Japão ou Tunísia — em Houston, no Texas. Perder ou empatar, nesse ponto, seria abrir mão do controle do próprio destino nesta Copa.