89 pontos — e não bastou. O Arsenal fez sua melhor campanha em pontuação desde a era dos Invencíveis, venceu o Everton de virada na última rodada com gols de Tomiyasu e Havertz, liderou a Premier League durante meses e ainda assim amargou o vice. O Manchester City, com 91 pontos, conquistou o tetracampeonato e entrou definitivamente para os livros de história do futebol inglês. Para os torcedores do Arsenal, que esperam pelo título desde 2003/04, a dor tem um sabor específico: o de quase.
Quem se beneficia diretamente
O maior beneficiado desta reta final foi Pep Guardiola, que completou 300 jogos no comando do City na Premier League e encerrou a temporada com o feito que nem Ferguson, nem Wenger, nem Mourinho conseguiram: quatro títulos consecutivos na mesma liga. A sequência de seis vitórias que o City emplacou nas rodadas finais — incluindo o 2 a 0 sobre o Nottingham Forest, com Gvardiol abrindo o placar e Haaland fechando como substituto — foi o motor desta virada. O norueguês chegou a 21 gols no campeonato, recuperando a liderança da artilharia sobre Cole Palmer, do Chelsea, e se consolidando como a peça mais decisiva da máquina de Guardiola.

O próprio Guardiola havia reconhecido publicamente a fragilidade de Rodri, peça central do meio-campo, que chegou às rodadas decisivas com problema na virilha e treinou em ritmo reduzido.
"Não consegue jogar três partidas em alto nível", disse Guardiola sobre o espanhol, numa rara admissão de limitação física dentro de um elenco construído para não ter fraquezas.A despeito da ausência de Rúben Dias e Gvardiol em alguns jogos, o City soube distribuir a carga. Doku, que abriu o placar com um golaço no Everton na 35ª rodada — recebendo na entrada da área, cortando para o pé esquerdo e finalizando no ângulo —, simbolizou essa profundidade de elenco.
Quem perde
O Arsenal perde, naturalmente, mas a derrota tem nuances que merecem ser lidas com cuidado. Mikel Arteta construiu um time capaz de somar 89 pontos — número que, em 16 das últimas 20 temporadas da Premier League, teria sido suficiente para o título. O problema é que o adversário desta vez era o City de Guardiola, que terminou com 91. A equipe dos Gunners venceu o Tottenham por 3 a 2 na 35ª rodada numa partida dramática, chegando a abrir três gols de vantagem antes de sofrer a reação rival, e depois bateu o Fulham por 3 a 0 — desempenho que, em qualquer outra temporada, seria de campeão.
A análise do SportNavo mostra que o Arsenal de Arteta carrega um padrão que remete aos finalistas frustrados das décadas anteriores: liderança sólida no primeiro turno, ligeira oscilação no segundo, e incapacidade de sustentar a vantagem quando o adversário encadeia uma série de vitórias. O que para o torcedor argentino é a dor do River Plate vendo o Boca levantar a taça no Monumental, para o torcedor do Arsenal é ver o City festejar no Etihad — a mesma cidade, o mesmo campeonato, a mesma impotência diante de um rival mais rodado nos momentos decisivos.
"O Arsenal precisava vencer e ainda contar com um tropeço do City, o que não aconteceu", registrou a ESPN Brasil na cobertura da última rodada — síntese cruel de uma temporada em que os Gunners dependeram de si mesmos até tarde demais para depender de outros no fim.
O efeito dominó nas próximas semanas
O Liverpool terminou em terceiro com 82 pontos, sete abaixo do Arsenal, e a distância confirma que a Premier League 2025/26 foi, de fato, uma batalha de dois. O Aston Villa fechou o G-4 com 68 pontos, o que revela o tamanho do abismo entre as duas primeiras equipes e o restante do pelotão. O Everton, que foi o adversário do Arsenal na última rodada, terminou na 15ª posição com apenas 40 pontos — longe da briga europeia que David Moyes perseguiu durante parte da temporada.
Para o City, o tetracampeonato abre um debate sobre longevidade de ciclos que o futebol europeu não via desde o Bayern de Munique de Heynckes e Guardiola entre 2012 e 2016, quando os bávaros venceram quatro Bundesligas consecutivas com mais de 80 pontos em cada. A diferença é que o City fez isso na liga considerada mais competitiva do mundo, com Arsenal e Liverpool operando em alto nível simultâneo. O levantamento do SportNavo aponta que apenas o Olympique de Lyon — com sete Ligue 1 seguidos entre 2002 e 2008 — supera essa sequência em termos de domínio absoluto em grande liga europeia no século XXI.
O quadro geral que se desenha
O Arsenal de Arteta tem elenco, tem sistema e tem jovens de alto nível — Gyökeres marcou o gol decisivo contra o Everton na 34ª rodada, garantindo uma vitória por 2 a 0 que parecia escapar, e Dowman, de apenas 16 anos, ainda ampliou nos acréscimos. A pergunta para a próxima temporada não é se o Arsenal pode brigar pelo título, mas se Arteta conseguirá ajustar o time para não depender de tropeços alheios nas últimas rodadas. Wenger enfrentou dilema semelhante entre 1999 e 2003, antes de finalmente montar o elenco que seria invicto em 2003/04 — a mesma temporada cujo título o Arsenal ainda não conseguiu repetir.
O City, por sua vez, precisará decidir o futuro de peças como Rodri, que chegou às rodadas decisivas de 2025/26 com limitações físicas preocupantes. A FA Cup ainda está em disputa — o clube chegou à final — e será o palco onde Guardiola pode adicionar mais um troféu a uma temporada já histórica. O Arsenal volta a campo pela pré-temporada em julho, com a missão de transformar 89 pontos de vice em algo que, desta vez, seja suficiente para encerrar 22 anos de espera.









