Quanto tempo uma organização criminosa consegue operar dentro do segundo maior tribunal do país antes de ser desmantelada? A pergunta parece retórica, mas os documentos da Procuradoria-Geral da República entregues ao STF na quarta-feira, 27 de maio de 2026, respondem com precisão cirúrgica: quatro anos — de 2019 a 2023 — de interferências sistemáticas em julgamentos do Superior Tribunal de Justiça mediante pagamento de propina a assessores de ministros.
O ministro Cristiano Zanin, relator do caso no Supremo, agiu no dia seguinte à denúncia. Na quinta-feira, 28, determinou a notificação dos nove denunciados, abriu prazo de 15 dias para defesa prévia, retirou o sigilo dos autos e autorizou a continuidade das investigações por mais 60 dias. A Primeira Turma do STF será a instância que decidirá se recebe ou não a acusação formal — e, caso aceite, transforma os investigados em réus de uma ação penal.
Como o lobista Anderson Gonçalves montou a estrutura de ataque ao STJ
Na terminologia do jiu-jitsu, existe uma posição chamada back control — você está atrás do adversário, com os ganchos encaixados, controlando sem que ele consiga reverter. A PGR descreve algo estruturalmente parecido: o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves operava como o homem que segurava as costas da organização, intermediando pagamentos e negociando acesso a informações internas do tribunal. Ele é apontado como líder do grupo.
O acesso ao fluxo interno do STJ vinha de dentro. Daimler Alberto de Campos, então chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti, e Márcio José Toledo Pinto, assessor do tribunal, repassavam minutas e dados sigilosos de processos em tramitação em troca de vantagens indevidas. A denúncia da PGR descreve que os envolvidos "integraram organização criminosa, cientes de seu propósito ilícito voltado ao pagamento e à obtenção de vantagens pecuniárias ilícitas, em troca de interferências no resultado de decisões judiciais proferidas no bojo de processos com tramitação no Superior Tribunal de Justiça".
A lista completa dos nove denunciados inclui ainda Mirian Ribeiro Rodrigues de Mello Gonçalves, Vanessa Resende Gonçalves, Carlos Antônio Nogueira Júnior, Bernardo Mazzutti, Diego Cavalcante Gomes e João Batista da Silva — um mix de operadores financeiros, advogados e interessados diretos nos resultados dos processos. A diversidade do elenco sugere um esquema com múltiplas camadas: quem vendia a informação, quem pagava, quem lavava o dinheiro.
As investigações ganharam tração de forma inesperada. A perícia no celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado no final de 2023, revelou uma série de conversas e negociações explícitas para influenciar decisões na Corte superior. Foi o celular de um morto que abriu a porta para a Operação Sisamnes, deflagrada em novembro de 2024.
O que a PGR diz sobre as ministras e o que os números revelam
Um dos movimentos mais delicados da denúncia foi o que a PGR não incluiu nela. O procurador-geral Paulo Gonet pediu o arquivamento de qualquer linha de investigação que tangenciasse as ministras Nancy Andrighi e Maria Isabel Gallotti. A justificativa técnica foi direta:
"Os elementos reunidos indicam que a prática criminosa se desenvolveu à margem da atuação jurisdicional regular, sem ciência ou anuência das Ministras, mediante atuação desviada de agentes de assessoramento que exploraram indevidamente o acesso interno ao fluxo de elaboração de minutas", argumentou Paulo Gonet.
Zanin, na sua decisão, foi ainda mais preciso ao responder esse ponto: afirmou não haver necessidade sequer de arquivamento formal, porque nenhuma das apurações de hipóteses criminais envolve as duas ministras. A distinção é processualmente relevante — arquivar pressupõe que havia uma linha aberta; Zanin diz que nunca houve.
Segundo apuração do G1, há ministros do STJ sendo investigados no âmbito conexo ao caso — o que explica por que Zanin manteve a competência do STF. A lógica do foro por prerrogativa de função funciona como um sprawl defensivo: enquanto houver autoridades com foro no perímetro das investigações, o STF não solta o controle do processo.
A distância temporal entre o início do esquema (2019) e a denúncia formal (maio de 2026) é de aproximadamente sete anos — um intervalo que, se fosse percorrido em linha reta pelo território brasileiro, cobriria a distância entre Manaus e Salvador, passando por dois fusos horários e realidades jurídicas completamente distintas. Sete anos em que decisões judiciais do STJ podem ter sido contaminadas por propina sem que o sistema de controle interno detectasse o vazamento.
Os próximos passos processuais e o que está em jogo para o Judiciário
O rito agora segue uma sequência definida. Os nove denunciados têm 15 dias para apresentar resposta prévia à acusação — o equivalente processual de uma defesa técnica antes do juiz decidir se há base suficiente para abrir o julgamento. Depois dessas manifestações, a Primeira Turma do STF vota o recebimento ou rejeição da denúncia.
Se a Turma receber, o caso vira ação penal. Os investigados passam formalmente à condição de réus. As medidas cautelares já impostas — incluindo monitoramento eletrônico — foram mantidas por Zanin exatamente para garantir a integridade dessa instrução criminal. A continuidade das investigações por mais 60 dias, também autorizada na decisão de quinta-feira, indica que o perímetro do esquema ainda não está completamente mapeado.
"O oferecimento da denúncia pela PGR reforça os indícios de autoria e materialidade", registrou Zanin na decisão, justificando a manutenção das cautelares.
Para o STJ enquanto instituição, o custo reputacional é imediato e mensurável: esta é a primeira acusação formal decorrente de um esquema que operou por quatro anos dentro de seus gabinetes. O ground and pound processual da PGR — denúncia formal, prazo aberto, sigilo derrubado — coloca o tribunal sob escrutínio público num momento em que a credibilidade das cortes superiores já estava pressionada por outros flancos.
O prazo de 15 dias começa a correr a partir da notificação dos denunciados. Quando ele vencer, a Primeira Turma do STF terá em mãos o dossiê completo — acusação da PGR e defesas dos nove — para decidir se o Brasil vai a julgamento.
Numa sala de audiência silenciosa no STF, nove nomes aguardam o próximo movimento. Do outro lado da mesa, o dossiê que começou no celular de um advogado morto.










