"Eu nunca vi um time tão bom desaparecer tão rápido assim." A frase não saiu da boca de um torcedor do Liverpool comemorando na arquibancada — veio de um analista tático inglês acompanhando o Manchester City há mais de dez anos. E depois de assistir ao que aconteceu no Villa Park neste sábado, fica difícil discordar.
O que os números do City revelam sobre a profundidade da crise
Nove derrotas. O cheiro de derrota pesa no ar de Manchester. Em apenas 12 jogos disputados desde 30 de outubro, o City acumulou nove reveses, dois empates e uma única vitória — uma sequência que nenhum torcedor do Etihad Stadium imaginaria possível há seis meses. A derrota por 2 a 1 para o Aston Villa, pela 17ª rodada da Premier League, empurrou o atual campeão para o 6º lugar, com 27 pontos — nove a menos que o Liverpool, que ainda tem um jogo a menos.
Em Birmingham, o Villa Park fervia. A torcida local sentiu o sangue no ar desde o apito inicial. Logo no primeiro minuto, Durán e Pau Torres desperdiçaram chances claras, mas o goleiro Ortega — titular porque Ederson sequer foi relacionado — segurou o impacto inicial. A tranquilidade durou pouco: aos 16 minutos, Rogers avançou pela esquerda, tocou para Durán sem marcação dentro da área, e o atacante colombiano converteu no contrapé. Aos 18 do segundo tempo, o próprio Rogers fechou o placar em 2 a 0. Phil Foden descontou nos acréscimos, numa jogada individual de Savinho que terminou com o inglês livre na área, mas o resultado já estava decidido.
A estatística que mais dói não é a posição na tabela. O City tem dois jogos a mais que o Liverpool e ainda assim está nove pontos atrás. Matematicamente, o título da temporada 2025/26 já parece território de outro clube.
Haaland apagado e o colapso tático que Guardiola ainda não resolveu
O silêncio de Erling Haaland ressoa mais alto que qualquer gol que ele poderia marcar.
O norueguês foi mais uma vez o símbolo da impotência ofensiva do City. Isolado na frente, sem receber passes em condições, Haaland passou praticamente em branco no Villa Park — uma cena que se repete com frequência alarmante nesta sequência negativa. As lesões que o tiraram de campo em períodos anteriores da temporada afetaram seu ritmo, mas o problema vai além da forma física: o sistema ao redor dele simplesmente parou de funcionar.
Bernardo Silva sumiu em campo. Grealish foi o jogador mais lúcido do City durante a maior parte do jogo, o que por si só já diz muito sobre o estado atual do elenco. A equipe aposta em chuveirinhos na área como principal recurso ofensivo — um sinal claro de que a fluidez característica do futebol de Pep Guardiola evaporou. O Aston Villa de Unai Emery leu o City com facilidade: fechou os espaços entre as linhas, bloqueou as trocas de passe curtas perto da área e esperou os contra-ataques com Tielemans como motor.
Na avaliação do SportNavo, o problema central é estrutural: sem Kevin De Bruyne em sua melhor versão e com Haaland dependente de um sistema que não está entregando bolas em condições ideais, o City perdeu o mecanismo que transformava posse de bola em gols. Guardiola precisa encontrar uma solução para 2026/27 — e ela provavelmente passa por repensar o perfil de contratações no meio-campo.
O que Guardiola precisa mudar antes que a temporada vire ruína completa
A janela de janeiro pode ser a última chance de salvar algo desta temporada.
Com 27 pontos e o 6º lugar, o City ainda pode matematicamente brigar por um lugar na Champions League da próxima temporada — mas o título inglês, hoje, pertence a outro universo. O Liverpool lidera com 36 pontos e tem um jogo a menos. A pergunta que Guardiola precisa responder não é mais "como vencer o título", mas "como reconstruir uma identidade".
"O City precisa de um meio-campo com mais presença física e capacidade de pressionar alto. O modelo atual está desatualizado para o que os adversários da Premier League estão fazendo contra eles", disse um ex-jogador inglês em entrevista à emissora Sky Sports nos últimos dias.
Três pontos de atenção para a reconstrução são evidentes: primeiro, a dependência excessiva de Haaland como único referencial ofensivo precisa ser quebrada com um segundo atacante ou um meia que chegue com frequência à área. Segundo, a linha defensiva — que operou sem Ederson neste sábado — precisa de reforços de qualidade. Terceiro, e talvez o mais urgente, o vestiário precisa de liderança. Em momentos de crise, times campeões têm vozes que carregam o grupo. Quem grita por dentro do City hoje?
O próximo teste chega já na quinta-feira (26), quando o City recebe o Everton no Etihad Stadium, às 9h30 (horário de Brasília). Uma derrota em casa, diante de um adversário que luta contra o rebaixamento, aprofundaria ainda mais o abismo entre o clube e qualquer objetivo realista nesta temporada. "Eu nunca vi um time tão bom sumir tão rápido assim" — e agora a pergunta é quando, e se, esse time volta a aparecer.










