Se a Copa do Mundo começasse amanhã com as regras de 2024, pelo menos três situações emblemáticas do futebol recente teriam desfechos diferentes: um escanteio mal marcado que originou gol não seria revisto, um jogador que sussurrou algo à orelha do árbitro ficaria impune, e uma substituição arrastada por quarenta segundos não custaria nada à equipe. Esses três cenários, precisamente, estão no centro das nove mudanças aprovadas pelo International Football Association Board (IFAB) para a Copa do Mundo de 2026 — e para as principais ligas do planeta a partir desta temporada.

O pacote de alterações foi construído ao longo de dois anos de testes e consultas, e representa a intervenção regulatória mais ampla do IFAB desde a introdução do próprio VAR em 2018. Não há tragédia aqui: há contabilidade. O organismo que zela pelas Leis do Jogo identificou lacunas operacionais, condutas que escapavam às regras vigentes e rituais de tempo perdido que corroíam a qualidade do espetáculo — e decidiu fechar essas brechas antes que 48 seleções entrassem em campo nos Estados Unidos, México e Canadá.

O VAR ganha quatro novas jurisdições antes do apito inicial 9 regras novas mudam
O VAR ganha quatro novas jurisdições antes do apito inicial 9 regras novas mudam

O VAR ganha quatro novas jurisdições antes do apito inicial

A ampliação do escopo do VAR é, quantitativamente, a mudança mais densa do pacote. Quatro situações que antes ficavam fora do alcance da tecnologia agora podem ser revisadas. A primeira, e talvez a mais aguardada pela análise tática, é a revisão de escanteios marcados incorretamente — com a condição expressa de que a intervenção não atrase o reinício da partida. A ressalva é relevante: o IFAB sinalizou que a fluidez do jogo não pode ser sacrificada em nome da perfeição geométrica.

A segunda ampliação diz respeito a faltas de ataque cometidas antes de um reinício. Anteriormente, o VAR só intervinha depois que a bola estava em jogo; agora, se um reinício resultar em gol, pênalti, escanteio ou falta, o árbitro de vídeo pode sugerir ação disciplinar por infrações que ocorreram no momento anterior ao toque. A terceira mudança trata de cartões vermelhos resultantes de um segundo amarelo que sejam claramente incorretos — uma distinção que o próprio regulamento grifa com esse advérbio, indicando que a barra é alta para a revisão. A quarta cobre identificação errada: quando um jogador é punido por falta cometida por outro, o VAR pode corrigir o equívoco antes que a injustiça se torne estatística oficial.

"O VAR foi concebido para eliminar erros claros e óbvios. Estamos apenas expandindo as categorias onde esse princípio se aplica", declarou o presidente do IFAB, Lukas Brud, ao anunciar as mudanças em março de 2026.

A regra que nasceu de um incidente entre Vinicius Jr e Prestianni

A medida de maior impacto simbólico é a que pune com cartão vermelho qualquer jogador que cubra a boca com a mão, o braço ou a camisa durante um confronto com um adversário. A origem é documentada: o incidente na Champions League envolvendo o ponta do Benfica, Gianluca Prestianni, e Vinicius Jr., do Real Madrid, expôs uma vulnerabilidade estrutural — possíveis comentários racistas podiam ser proferidos sem que câmeras ou árbitros tivessem qualquer recurso para identificá-los.

A regra opera por contexto. Se dois jogadores trocam palavras amigáveis e um deles cobre a boca por discrição, não há infração. O gatilho é o confronto — e a avaliação desse elemento cabe ao árbitro de campo, o que inevitavelmente introduz subjetividade. Árbitros de diferentes culturas e com diferentes limiares de tolerância aplicarão essa norma de maneiras distintas ao longo das oito semanas do torneio. Decidiu.

"Nenhuma regra elimina o racismo sozinha. Mas uma regra que torna o racismo mais custoso do que o silêncio é um passo na direção correta", afirmou Mariela Bonfim, pesquisadora de políticas esportivas da Universidade de São Paulo, em entrevista ao portal Globo Esporte em abril de 2026.

Dez segundos para sair, cinco para cobrar — a engenharia do tempo perdido

Duas das nove mudanças atacam diretamente o problema crônico do tempo perdido, que pesquisas da empresa de dados esportivos Opta identificaram como responsável por 12 a 18 minutos de jogo efetivo desperdiçado por partida em grandes torneios. A primeira estabelece que o jogador substituído tem 10 segundos para deixar o campo pelo ponto de saída mais próximo. Se não o fizer, o substituto que aguarda na linha lateral fica impedido de entrar até a próxima interrupção — que deve ocorrer pelo menos um minuto depois. Durante esse intervalo, a equipe joga com dez jogadores. A penalidade é, portanto, imediata e funcional: atrasar a saída custa mais do que qualquer vantagem tática que a demora possa gerar.

A segunda medida de gestão de tempo é a contagem regressiva de cinco segundos para laterais e tiros de meta. Se o árbitro identificar que um jogador está deliberadamente procrastinando, levantará a mão para sinalizar o início da contagem. Esgotado o prazo sem que a bola entre em jogo, a posse é revertida: lateral vira lateral para o adversário; tiro de meta vira escanteio. A simetria da penalidade — a equipe perde exatamente o que tentava ganhar — tem uma elegância regulatória que os legisladores do futebol raramente alcançam.

O que os outros cinco itens do pacote estabelecem para o Mundial

As quatro mudanças descritas acima concentram a maior parte do debate público, mas o pacote aprovado pelo IFAB contempla ainda cinco outros ajustes que afetarão a dinâmica do torneio. Entre eles, destaca-se a revisão dos critérios para cartão amarelo acumulado entre fases — uma medida que altera o cálculo estratégico de técnicos como Ancelotti, que precisam decidir se poupam jogadores advertidos ou os arriscam em busca de classificação.

O conjunto das nove mudanças forma um sistema coerente: ampliar a capacidade de correção do VAR, reduzir o tempo morto, punir condutas que escapavam às regras vigentes e tornar as penalidades proporcionais às infrações. O impacto econômico não é trivial — cada minuto adicional de jogo efetivo representa, segundo estimativas da consultoria Deloitte Sports Business Group, entre 0,3% e 0,7% de aumento no valor de mercado dos direitos de transmissão de um torneio do porte da Copa do Mundo. Com contratos de broadcasting que somam mais de US$ 4 bilhões para o Mundial de 2026, a matemática do tempo perdido tem consequências que vão muito além do placar.

A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, com a partida inaugural no MetLife Stadium, em Nova York. Árbitros de todas as confederações passarão por treinamento específico nas novas regras até o final de maio, segundo cronograma divulgado pela FIFA. As mudanças já estão em vigor nas principais ligas europeias desde o início da temporada 2025/2026 — o que significa que, ao contrário do que ocorreu com a introdução do VAR em 2018, os jogadores que chegarem ao Mundial já terão convivido com elas por meses.