91 pontos — esse é o número que o Barcelona acumulou na La Liga 2025/26, 14 à frente do Real Madrid, com três rodadas ainda por jogar. Não é sorte nem ciclo favorável: é o retrato estatístico de um projeto que Hansi Flick construiu tijolo por tijolo desde que chegou ao Camp Nou. E foi exatamente esse número que convenceu Joan Laporta a sentar com o agente Pini Zahavi e fechar a renovação até junho de 2028 — com opção de prolongar até 2029.

O número 91 e o que ele esconde sobre o método Flick

Quando você olha 91 pontos, a primeira reação é 'boa campanha'. Mas o dado que realmente importa está nos bastidores táticos da temporada. O Barcelona de Flick opera com um PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva) consistentemente abaixo de 7,5 nas últimas 15 rodadas — o que, em linguagem direta, significa que a equipe sufoca o adversário com pressão alta, não deixando o oponente encadear mais de 7 passes antes de sofrer uma intervenção defensiva. Times com PPDA abaixo de 8 sustentado ao longo de uma temporada costumam dominar posse de forma agressiva, não passiva.

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O clássico do último domingo, 10, contra o Real Madrid foi a síntese perfeita desse modelo. Ferran Torres e Marcus Rashford marcaram nos 18 primeiros minutos, transformando o Camp Nou numa festa antecipada. O gol de Rashford saiu aos 9 minutos, em cobrança de falta, e o de Torres aos 18, num movimento que nasceu de pressão alta e transição rápida — exatamente o que Flick treina desde a pré-temporada.

Se você adicionar o xG (expected goals) gerado pelo Barça nessa partida — que analistas estimaram em torno de 2,8 contra menos de 0,6 do Madrid —, fica claro que o 2 a 0 foi até conservador. O domínio foi estrutural, não circunstancial.

Como Flick construiu esse Barcelona em dois títulos consecutivos

O contrato anterior de Flick terminaria em 2027, mas os resultados aceleraram a conversa. Dois La Ligas consecutivos é uma marca que nenhum técnico do clube havia conquistado desde o ciclo de Pep Guardiola. Mas o que diferencia o alemão de 61 anos não é só o placar — é a forma como ele remodelou o perfil de jogo da equipe usando progressive passes como métrica central de construção.

Times com alto volume de progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário) tendem a criar mais oportunidades de alta qualidade. O Barça de Flick está entre os três times com maior taxa de progressive passes por 90 minutos em toda a La Liga 2025/26. Isso não é coincidência: é escolha de elenco e instrução tática. Jogadores como Raphinha e os meias de transição foram orientados a priorizar a progressão vertical sobre a retenção horizontal.

  • PPDA do Barça na temporada: média de 7,3 — entre os 5 melhores da Europa
  • xG acumulado em La Liga: projeção acima de 85 gols esperados — contra 71 do Madrid
  • Progressive passes por 90 min: top 3 da competição espanhola

Quem não tem cão caça com gato — e por muito tempo o Barcelona não tinha um centroavante de referência dominante. Flick resolveu isso distribuindo responsabilidade ofensiva por todo o elenco: Rashford pela esquerda, Ferran Torres como opção de segunda linha, Raphinha pela direita. O resultado é um ataque coletivo que não depende de um único nome para funcionar.

O título mais pesado — e o que ele revela sobre Flick além dos dados

Os números explicam muito, mas não explicam tudo. Na madrugada de domingo, 10, horas antes do El Clásico, o pai de Hansi Flick faleceu. O técnico poderia ter passado o comando para a comissão técnica. Escolheu estar à beira do gramado.

"Nunca esquecerei este dia. Foi um dia difícil para mim, começando com a notícia de que meu pai faleceu, mas minha equipe é fantástica. É como uma família", disse Flick emocionado após o apito final no Camp Nou.

Esse depoimento não é detalhe emocional de rodapé — ele explica a coesão de um elenco que chegou a 91 pontos. Cultura de grupo e identidade tática andam juntas. Quando um técnico atravessa um dia assim à beira do campo e ainda entrega um 2 a 0 sobre o maior rival, o vestiário compra qualquer ideia que ele vender dali em diante.

Laporta entendeu o recado. A renovação até 2028, negociada com Pini Zahavi, não é só burocracia contratual — é um sinal ao mercado de que o projeto tem continuidade, o que diretamente impacta as negociações de reforços para a próxima janela. Jogadores de alto nível querem saber se o técnico fica antes de assinar.

Como Flick construiu esse Barcelona em dois títulos consecutivos 91 pontos e pai
Como Flick construiu esse Barcelona em dois títulos consecutivos 91 pontos e pai

Com três rodadas ainda por disputar, Flick declarou que a meta agora é chegar a 100 pontos na temporada — marca histórica que nenhum clube alcançou na era moderna da La Liga. O próximo compromisso do Barcelona é pela 36ª rodada, ainda sem data confirmada pelo calendário oficial da federação espanhola, mas com o título já no bolso e a renovação assinada. É o mesmo cenário que o Bayern de Munique viveu em 2020, quando Flick encerrou a temporada com tudo encaminhado antes do tempo — só que agora a aposta é diferente: desta vez, ele não vai embora.