1h59min30s. Pela primeira vez na história de uma prova oficial, um ser humano completou os 42,195 km de uma maratona abaixo da barreira dos dois minutos. O queniano Sebastian Sawe cruzou a linha de chegada na Maratona de Londres no último domingo (26) e entrou para o atletismo junto com uma peça de equipamento que pesa menos do que dois ovos: o Adidas Adizero Adios Pro Evo 3, com seus 97 gramas. O problema — e a questão mais honesta que se pode fazer — é a seguinte: o recorde é do atleta ou do tênis?

O que tem dentro desse calçado de 97 gramas

A Adidas levou três anos desenvolvendo o Adizero Adios Pro Evo 3. O modelo usa a espuma Lightstrike Pro Evo, que a marca afirma ser quase 50% mais leve que versões anteriores, com entressola de 39 mm no calcanhar para amortecimento e retorno de energia. O drop — diferença entre calcanhar e ponta — é de apenas 3 mm, deixando o corredor mais próximo do solo. O cabedal foi fabricado com o mesmo material usado em velas de kitesurf. A sola leva borracha Continental, marca conhecida por pneus de alta performance.

Os dados declarados pela fabricante são objetivos: 11% mais retorno de energia na parte anterior do pé em relação ao modelo anterior, melhora de 1,6% na economia de corrida e peso 30% menor que o Evo 2. A tecnologia Energyrim, um sistema integrado ao carbono que sustenta o máximo volume de espuma sob o pé, é apresentada como o diferencial de rigidez e propulsão. Nenhum tênis da Adidas tinha chegado abaixo dos 100 gramas antes deste modelo.

Os três do pódio calçavam o mesmo modelo — e isso importa

Sawe venceu em 1h59min30s. O etíope Yomif Kejelcha terminou em segundo, apenas 11 segundos atrás, em sua estreia na distância. No feminino, Tigst Assefa quebrou seu próprio recorde mundial com 2h15min41s. Os três usavam o Adizero Adios Pro Evo 3. Essa coincidência não é aleatória — todos são patrocinados pela Adidas. Mas a concentração de desempenho em torno de um único modelo alimenta uma pergunta legítima sobre o limite entre tecnologia e "doping mecânico".

O próprio Sawe respondeu diretamente à polêmica quando questionado após a prova.

"Absolutamente não, porque o tênis foi aprovado. E acho que não havia dúvidas sobre isso. O tênis é muito bom, muito leve, confortável e com muito apoio, e está avançando."

A resposta é pragmática, mas não resolve o debate técnico. Especialistas em biomecânica da corrida apontam que uma melhora de 1,6% na economia de corrida, número declarado pela própria Adidas, representa algo entre 1 minuto e 1min30s numa prova de maratona de elite. A margem entre o recorde anterior — 2h00min35s, estabelecido pelo falecido Kelvin Kiptum em 2023 — e o novo é de 1min05s. A correlação é incômoda.

Tecnologia versus atletismo — onde está o limite

A análise do SportNavo mostra que a discussão não é nova. A Nike iniciou esse ciclo com o Vaporfly em 2016 e forçou a World Athletics a regulamentar a espessura máxima de entressola em 40 mm para provas de pista. Para estrada, o limite é 40 mm — o Evo 3 usa exatamente 39 mm no calcanhar, dentro da margem regulatória, mas sem espaço algum para questionamento técnico de irregularidade. A Adidas jogou dentro das regras. Isso não encerra o debate ético, mas encerra o debate legal.

O que tem dentro desse calçado de 97 gramas 97 gramas e um recorde histórico — o
O que tem dentro desse calçado de 97 gramas 97 gramas e um recorde histórico — o

Patrick Nava, gerente geral da Adidas Running, tratou o feito como resultado da combinação entre tecnologia e preparo físico.

"A família Adidas está incrivelmente orgulhosa das conquistas históricas de Sabastian e Tigist. Isso é um testemunho dos anos de trabalho duro e dedicação deles, junto com nossa equipe de inovação, que construiu um supertênis que abre novos caminhos com o Adizero Adios Pro Evo 3."

A narrativa corporativa é previsível, mas o argumento tem substância. Sawe não é um corredor mediano que chegou ao pódio pelo calçado. Ele é o campeão em exercício de uma das maratonas mais competitivas do mundo. A questão real não é se o tênis ajudou — ajudou, os dados dizem isso — mas se o recorde seria impossível sem ele. A resposta honesta é que não sabemos. E a World Athletics terá que decidir em breve se esse nível de intervenção tecnológica segue aceitável.

R$ 4.999 e uma lição sobre o mercado de corrida

O Adizero Adios Pro Evo 3 chega ao Brasil em agosto, com preço sugerido de R$ 4.999 — venda exclusiva pelo site oficial da Adidas, em quantidades limitadas. Nos Estados Unidos, o modelo será comercializado por US$ 500. O modelo anterior, o Evo 2, custava R$ 3.999 na plataforma da marca no Brasil. A valorização de 25% entre gerações reflete o investimento em pesquisa, mas também a equação de marketing: o tênis do primeiro sub-2 horas oficial da história não poderia custar barato.

Os três do pódio calçavam o mesmo modelo — e isso importa 97 gramas e um recorde
Os três do pódio calçavam o mesmo modelo — e isso importa 97 gramas e um recorde

A linha Adizero Adios Pro Evo acumula, desde 2023, três recordes mundiais, 30 vitórias em grandes corridas de rua, seis maratonas e sete recordes nacionais com atletas patrocinados pela marca. A Adidas não apenas ganhou a corrida nas pistas — as ações da empresa dispararam na bolsa já na segunda-feira (27), no rescaldo da prova. O Evo 3 é, simultaneamente, um produto esportivo e o melhor lançamento de marketing do ano no setor de corrida. Quem quiser calçar o mesmo tênis de Sawe vai precisar esperar agosto e reservar R$ 5.000.