980 figurinhas. Esse é o número que define o álbum oficial da Copa do Mundo de 2026 — o maior já produzido em toda a história do torneio — e que também marca o início do fim de uma parceria de 56 anos entre a Panini e a Fifa. Lançado oficialmente no Brasil em 1º de maio, com envelopes a R$ 7 contendo sete cromos, o produto chega ao mercado num momento de transição histórica: a empresa italiana produzirá os álbuns até a edição de 2030 e, a partir de 2031, cederá o posto à Topps, marca pertencente à Fanatics.
O álbum mais caro e mais extenso que a Panini já fez
A expansão da Copa para 48 seleções — ante as 32 de 2022 — é a causa direta do salto no número de figurinhas. Com 112 páginas e 68 cromos especiais entre os 980, completar a coleção sem nenhuma repetida já custaria cerca de R$ 980. Como repetidas são inevitáveis no processo de compra aleatória de envelopes, especialistas ouvidos pelo Estadão estimam que o gasto total pode alcançar R$ 7 mil para quem não recorrer às trocas. A estimativa mais conservadora, citada pela distribuidora Vitrola, aponta pelo menos R$ 1.000 como piso realista.
O álbum básico em capa cartão sai por R$ 24,90; a versão capa dura, por R$ 74,90; e boxes premium no site da Panini ultrapassam R$ 300. Ramir Severiano, fundador da Vitrola Editora e Distribuidora, parceira nacional da Panini, projeta uma demanda expressiva:
"São 50 milhões de envelopes e 1 milhão e 600 mil de álbuns. É provável que dobre, passando para mais de 100 milhões de envelopes e 3 milhões de álbuns", afirmou. A Vitrola inaugurou um novo centro de distribuição em Nova Odessa (SP) para suportar o volume, atendendo 10 estados com foco no Sudeste, Centro-Oeste e Sul.
A Panini tenta seduzir a Geração Z antes de sair de cena
Consciente de que este é seu penúltimo álbum oficial da Copa — o de 2030 será o derradeiro —, a Panini montou uma estratégia de marketing direcionada aos jovens nascidos entre 1997 e 2012. O CEO da Panini Brasil, Raul Vallecillo, reconheceu o desafio de atrair um público nativo digital para o colecionismo analógico:
"Os novos tipos de consumidores, esses jovens que hoje estão mais conectados com um celular ou por meio das redes sociais, é o seu modo nativo de se inteirar sobre as transações e os produtos que não só a Panini, mas todo o comércio está lançando". A resposta da empresa foi ampliar presença em redes sociais e usar e-marketing como canais primários de comunicação.
A estratégia enfrenta, porém, um ruído operacional relevante. Compradores que adquiriram a edição capa dura na pré-venda relataram nas redes sociais atrasos sucessivos na entrega, com novas datas sendo empurradas para o fim de maio — enquanto o mesmo produto já estava disponível em livrarias físicas. A contradição logística gerou críticas públicas e chegou a coincidir, em timing, com o anúncio do fim da parceria com a Fifa, amplificando o desgaste de imagem da empresa italiana neste momento sensível.
A Topps herda a licença e promete uniformes de jogo em cards
A Fifa anunciou em 7 de maio de 2026 o acordo exclusivo com a Fanatics Collectibles, que operará sob a marca Topps — comprada pelo grupo Fanatics em 2022. O contrato entra em vigor integralmente em 2031 e inclui cards, figurinhas e jogos de cartas de todos os torneios da entidade. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, celebrou a mudança:
"Com o alcance global dos torneios da Fifa, isso amplia ainda mais o envolvimento dos fãs e gera novas receitas para o futebol".
Uma das inovações previstas é o modelo "Debut Patch", já comum em esportes americanos: pedaços de uniformes usados por atletas em partidas oficiais serão inseridos fisicamente nos cards. A Fanatics também se comprometeu a distribuir mais de US$ 150 milhões (cerca de R$ 793 milhões) em itens gratuitos ao longo da parceria, com foco em crianças e no fomento ao futebol de base. Michael Rubin, CEO da Fanatics, foi direto sobre a ambição:
"Nosso negócio de colecionáveis neste ano provavelmente é 85% nos EUA. Então, quando pensamos em como expandir globalmente, não há nada mais importante do que a Fifa".
Do ponto de vista histórico — e o SportNavo já documentou isso em análises anteriores sobre o mercado de licenciamentos esportivos — a Panini dominou o segmento de figurinhas da Copa desde a edição de 1970, no México, quando produziu seu primeiro álbum oficial. Cinquenta e seis anos, 14 edições do torneio e gerações inteiras de colecionadores formadas sobre aquelas capas coloridas. A Topps, por sua vez, tem longa tradição no beisebol americano, mas nunca operou em escala global no futebol. O desafio de replicar o vínculo emocional construído pela Panini com o público brasileiro e europeu será tão complexo quanto completar as 980 figurinhas deste álbum.
A Fanatics já assume as operações de varejo e merchandising da Copa de 2026 — incluindo lojas nos estádios — e as entrevistas coletivas às vésperas da final serão realizadas na Fanatics Fest, em Nova York. Se a Topps conseguir replicar nos álbuns de 2031 o mesmo apelo emocional que fez crianças de Caxias do Sul a Curitiba correrem às bancas nas décadas de 1970 e 1990, ou se o produto virará apenas mais um item de nicho para colecionadores americanos, é a pergunta que o mercado vai responder nos próximos cinco anos — mas você, que já colou sua primeira figurinha da Copa de 2026, acha que vai sentir a mesma emoção abrindo um envelope da Topps em 2031?












