Não, a estreia de Neymar na Copa do Mundo 2026 não foi uma declaração de que ele está de volta ao nível de protagonismo que a camisa 10 exige. Foi, acima de tudo, um retorno simbólico — e os dados de campo confirmam essa leitura com frieza. Entrou aos 30 minutos do segundo tempo contra a Escócia, com o Brasil já vencendo por 3 a 0 e a classificação matematicamente garantida. Foram pouco mais de 15 minutos de bola rolando. Nenhum chute ao gol, nenhuma assistência, nenhum drible que desorganizasse a defesa adversária. A pergunta que fica não é se Neymar merece estar na Copa — ele está lá, convocado, em campo. A pergunta é outra, mais dura: o que Ancelotti faz com ele a partir de agora?
O retorno de 981 dias e o peso de um jogo sem pressão
O número 981 é preciso. Foi exatamente o intervalo, em dias, entre a última partida de Neymar com a Seleção Brasileira — ainda no ciclo da Copa do Mundo de 2022 — e sua entrada contra a Escócia, em 24 de junho de 2026, no estádio em Miami. Nesse período, o atacante enfrentou uma ruptura no ligamento do joelho esquerdo em outubro de 2023, passou por cirurgia, atravessou meses de reabilitação e retornou ao Santos com uma série de limitações físicas. O próprio jogador reconheceu o peso desse processo ao falar após a partida:
"É um momento de gratidão. Agradecer a Deus por viver isso novamente. Foram longos dias longe da Seleção Brasileira. Estou muito feliz por ter conseguido voltar a jogar uma Copa do Mundo e a defender a Seleção Brasileira depois de tantos anos", disse Neymar, visivelmente emocionado.
A emoção é legítima. O contexto esportivo, porém, impõe uma análise separada do sentimento. O jogo contra a Escócia foi o cenário mais favorável possível para uma reestreia: adversário já eliminado da disputa, placar amplo, zero pressão. Mesmo assim, o camisa 10 caminhou em ritmo abaixo dos companheiros, perdeu ao menos duas disputas de bola que em 2022 seriam facilmente ganhas e não produziu nenhuma jogada de qualidade técnica visível. A comparação com a despedida de Ronaldo Fenômeno da Seleção, num amistoso festivo no Pacaembu em 2011, foi feita por mais de um analista — e não é gratuita.
Vini Jr marca dois, Paquetá organiza e o Brasil joga sem o camisa 10
Reparemos no detalhe que o placar de 3 a 0 contra a Escócia revela sobre a estrutura atual da Seleção: os três gols saíram sem a participação de Neymar, que ainda nem havia entrado em campo. Lucas Paquetá, do Flamengo, foi um dos organizadores da trama do terceiro gol — numa combinação com Danilo e Casemiro que resultou no tento do camisa 9. Vinicius Jr., por sua vez, marcou dois gols e foi eleito o principal nome da partida pela imprensa nacional e europeia. O jornal espanhol AS foi direto: "O Real Real Madrid não pode deixar escapar este Vini". Já o Marca afirmou que o brasileiro "se senta à mesa dos craques". São quatro gols de Vini Jr em três partidas na Copa do Mundo 2026 — números que colocam o atacante entre os artilheiros do torneio.
Paquetá, após a classificação na liderança do Grupo C, foi criterioso ao avaliar a fase de grupos:
"A gente tem melhorado a cada jogo. É um objetivo nosso seguir crescendo jogo a jogo. Fizemos um jogo consistente. Construímos mais uma vez um resultado bom. Alcançamos o objetivo que era classificar em primeiro. Agora é descansar e pensar no mata-mata", disse o meia do Flamengo.
Essa frase de Paquetá aponta exatamente para onde o debate sobre Neymar se concentra. O mata-mata começa em 29 de junho, às 14h (horário de Brasília), no Estádio de Houston, contra o segundo colocado do Grupo F — posição que, dependendo dos resultados da última rodada, pode ser do Japão, da Suécia ou da Holanda. Adversários de outro patamar técnico e físico em relação à Escócia.
O que o mata-mata exige e o que Neymar mostrou que ainda não tem
Numa fase eliminatória, cada jogo é uma tempestade sem aviso prévio — o tipo de confronto em que você não controla o ritmo por 90 minutos, em que a intensidade defensiva do adversário é máxima desde o apito inicial e em que qualquer desaceleração individual compromete o coletivo. O que se viu de Neymar contra a Escócia foi o oposto disso: deslocamentos lentos, explosão de arrancada inexistente e participações que ficaram muito aquém do que a posição de camisa 10 demanda numa Copa do Mundo.
O histórico de Neymar em Copas é inegavelmente expressivo — 8 gols em 14 jogos disputados entre 2014 e 2022, com participações decisivas em momentos de alta pressão. Mas esses dados pertencem a versões anteriores do jogador, construídas em ciclos de regularidade que hoje ele simplesmente não tem. Desde o retorno ao Santos, Neymar acumulou mais partidas perdidas por lesão ou gestão física do que jogos completos. Esse déficit de minutos jogados em alta intensidade é o fator mais concreto para avaliar o que Ancelotti pode ou não esperar dele no mata-mata.
O técnico italiano terá 72 horas de preparação antes do jogo de 29 de junho. A lógica de desempenho aponta para um Neymar de reserva, utilizado em situações de jogo controlado — exatamente como aconteceu contra a Escócia. Uma escalação como titular exigiria uma evolução física que os 15 minutos em Miami não sustentam. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da fase de grupos, o Brasil chegou ao mata-mata com Vini Jr como protagonista absoluto, Paquetá como organizador e Matheus Cunha como referência de movimentação. Neymar, por ora, é o quarto nome numa hierarquia que o jogo construiu sem ele.

O Brasil enfrenta o segundo colocado do Grupo F na segunda-feira, 29 de junho, às 14h no Estádio de Houston. Vini Jr chega ao jogo com quatro gols em três partidas e status de principal atacante da Seleção. Neymar chega com 981 dias de ausência, 15 minutos de reestreia e a necessidade de mostrar, nos treinos desta semana, que tem condições físicas de contribuir além do simbolismo do retorno.










