Confesso: eu errei sobre Bortoleto em 2023. Quando ele levantou o troféu da Fórmula 3 com a Trident, achei que a proximidade com Max Verstappen era só o tipo de foto de paddock que pilotos jovens colecionam para o Instagram — uma cortesia do campeão para o novato promissor. Hoje, com o brasileiro largando pela Audi na temporada 2026 da Fórmula 1, vejo o porquê de ter subestimado o significado daquele primeiro contato.

Como Verstappen escolheu Bortoleto entre todos os jovens do paddock

A amizade entre Gabriel Bortoleto e Max Verstappen não nasceu de um programa de desenvolvimento de equipe nem de uma obrigação contratual. Ela começou em 2023, quando o paulistano de 20 anos conquistou o campeonato de Fórmula 3 — uma categoria que o tetracampeão da Red Bull acompanha com atenção genuína, não protocolar. Verstappen, que naquele mesmo ano emplacava seu terceiro título consecutivo na Fórmula 1, aproximou-se do brasileiro de forma espontânea, e o vínculo foi se consolidando ao longo dos dois anos seguintes, passando pela F2 e chegando até a estreia na elite.

O próprio Bortoleto descreveu Verstappen como uma espécie de mentor — uma palavra carregada num esporte em que veteranos raramente investem tempo em quem pode, um dia, disputar os mesmos pontos.

"Ele não me vê como ameaça", disse Bortoleto ao detalhar a relação com o holandês, numa declaração que resume tanto a confiança que Verstappen deposita nele quanto a maturidade com que o brasileiro lê o próprio momento na carreira.

O que significa ter Verstappen como referência dentro e fora da pista

No paddock da Fórmula 1, informação é moeda. Saber como um tetracampeão aborda uma qualificação molhada, como ele gerencia o desgaste de pneus em stint longo ou como lida com a pressão de uma equipe que exige resultados imediatos é o tipo de dado que não aparece em nenhuma telemetria oficial. Bortoleto tem acesso a isso de forma direta — e, segundo a avaliação do SportNavo, essa proximidade pode valer mais do que qualquer atualização de chassi nos primeiros meses de adaptação à categoria.

O histórico de pilotos jovens que tiveram mentores campeões na F1 é pequeno, mas ilustrativo. Nico Rosberg admitiu ter aprendido mais nos anos ao lado de Michael Schumacher na Mercedes do que em qualquer simulador. Fernando Alonso moldou parte de sua abordagem estratégica observando como Schumacher manipulava as regras de pit wall no início dos anos 2000. Bortoleto, aos 20 anos, tem acesso a uma versão ainda mais atual e agressiva desse conhecimento — Verstappen em plena hegemonia.

Hulkenberg e a lição do talento desperdiçado por circunstâncias

Se Verstappen representa o teto do que é possível alcançar na Fórmula 1, Nico Hulkenberg — companheiro de Bortoleto na Audi — funciona como um espelho mais complexo. O alemão acumula mais de 200 largadas na categoria sem jamais ter subido ao pódio, não por falta de velocidade, mas por uma sequência de projetos que nunca entregaram o carro que ele merecia.

"Hulkenberg é um dos pilotos mais talentosos da Fórmula 1, mas não teve o carro certo na carreira", afirmou Bortoleto, numa leitura que vai além da diplomacia de companheiro de equipe — é um diagnóstico técnico preciso sobre como a F1 penaliza pilotos rápidos presos em máquinas lentas.

Como diz o ditado: quem não tem cão caça com gato — e Hulkenberg passou anos caçando pontos com ferramentas que não eram para caçar vitórias. A Audi de 2026, ainda em processo de maturação, coloca os dois pilotos numa posição semelhante: talento disponível, carro em construção. A diferença é que Bortoleto entra nesse ciclo aos 20 anos, com margem para crescer junto com o projeto.

A temporada 2026 como ponto de partida, não de chegada

O calendário da Fórmula 1 de 2026 tem 24 etapas, e a Audi ainda busca sua primeira vitória como fabricante na categoria — a estreia oficial da marca alemã sob esse nome aconteceu nesta temporada, após a transição da antiga estrutura Sauber. Bortoleto, que completou a Fórmula 2 em 2024 como vice-campeão, chega com a bagagem técnica necessária, mas a curva de aprendizado de um rookie na F1 raramente é linear.

A relação com Verstappen serve como atalho nesse processo. O tetracampeão já navegou pelos regulamentos técnicos mais complexos da história recente da categoria — incluindo a transição de 2022 para os carros de efeito solo — e conhece como poucos os mecanismos de pressão que o paddock exerce sobre pilotos jovens. Ter esse canal aberto, sem a tensão de uma rivalidade direta, é uma vantagem estrutural que não aparece em nenhuma ficha técnica.

É o mesmo cenário que Kimi Räikkönen viveu em 2001, quando chegou à McLaren com Michael Schumacher como referência informal e adversário direto — só que agora a aposta é diferente: Bortoleto tem o mentor no mesmo paddock, disposto a conversar.