"Eu não vim para o Atlético ganhar dinheiro. Vim para ser campeão." A frase foi dita por Hulk em 2020, quando assinou com o Galo por um salário estimado em R$ 1,2 milhão mensais — bem abaixo do que clubes do Oriente Médio e da China ofereciam na época. Seis anos depois, a Arena MRV parou para provar que ele cumpriu o que prometeu.
O que os títulos de Hulk no Atlético escondem sobre o tamanho do feito
A narrativa mais repetida sobre Hulk no Galo é simples: chegou veterano, entregou títulos, foi embora. Mas essa leitura apaga a complexidade do que aconteceu entre 2020 e 2026. Quando o atacante aterrizou em Belo Horizonte, o Atlético carregava uma dívida bruta superior a R$ 800 milhões e vivia sob intervenção de credores. O projeto esportivo dependia de um nome capaz de atrair patrocinadores e vender o novo estádio — a Arena MRV, inaugurada em 2023 — para o mercado.
Hulk foi esse nome. O contrato inicial, válido por dois anos com opção de renovação, foi estendido três vezes. A última renovação, assinada em dezembro de 2024, garantiu ao atacante vínculo até junho de 2026 com salário reajustado para R$ 1,5 milhão mensais, mais bônus por metas coletivas. A cláusula de rescisão era de R$ 12 milhões — valor que o Fluminense não precisou pagar integralmente, graças a uma negociação direta entre os clubes que incluiu facilidades de parcelamento, segundo apuração do SportNavo.
Os números falam por si. Em seis temporadas com a camisa alvinegra, Hulk marcou 146 gols e distribuiu 53 assistências em 270 partidas oficiais. Conquistou o Campeonato Brasileiro de 2021, a Copa do Brasil de 2021, o Campeonato Mineiro em quatro edições (2021, 2022, 2023 e 2024) e a Copa Libertadores de 2024 — o título mais aguardado da história do clube, conquistado 50 anos após o único Brasileirão do Galo, em 1971.
A cerimônia que a H2Bet financiou e o Galo precisava fazer
A despedida oficial aconteceu no domingo, antes da partida contra o Botafogo pela 15ª rodada do Brasileirão 2026. Cerca de 16 mil torcedores já tinham confirmado presença até quinta-feira — número que cresceu ao longo do fim de semana, com ingressos vendidos a partir de R$ 29,90 para sócios do programa Galo Na Veia na modalidade gratuita GNV da Massa.
A cerimônia foi co-produzida pelo clube e pela patrocinadora máster H2Bet. Nos telões da Arena MRV, foram exibidos gols, lances e momentos marcantes — incluindo o hat-trick contra o Palmeiras no Brasileirão 2021 e o gol decisivo na final da Libertadores 2024. No gramado, o clube entregou uma placa comemorativa e uma camisa numerada com os 146 gols. A H2Bet distribuiu faixas personalizadas e exibiu um mosaico 3D nas arquibancadas, além de ativações na esplanada do estádio antes do jogo.
"Esse clube me deu o que o futebol europeu nunca deu: a sensação de que eu era necessário, não apenas contratado", disse Hulk em seu discurso de despedida para a torcida atleticana na Arena MRV.
O discurso durou sete minutos. Hulk chorou duas vezes. A torcida cantou seu nome por mais de três minutos ininterruptos — cena registrada e transmitida ao vivo pelo canal oficial do clube no YouTube, que acumulou mais de 400 mil visualizações nas primeiras horas.
A contra-leitura que o Fluminense vai explorar — e o que ela ignora
Há quem argumente que a saída de Hulk aos 39 anos para o Fluminense representa, na prática, o fim natural de um ciclo — e que o Atlético saiu bem da negociação ao se desfazer de um salário de R$ 1,5 milhão mensais sem pagar rescisão integral. Essa leitura tem fundamento contábil. O clube mineiro já identificou três candidatos para ocupar a camisa 7: o colombiano Jhon Durán, do Aston Villa, avaliado em 60 milhões de euros; o brasileiro Paulinho, do Atlético-MG sub-23, com contrato até 2028; e um nome do futebol árabe ainda em fase de sondagem.

O problema com essa análise é que ela reduz Hulk a uma linha de balanço. O atacante não foi apenas o artilheiro do clube no século XXI — foi o jogador que vendeu 40 mil planos de sócio em 2021, o ano do bicampeonato, e que apareceu em todas as campanhas publicitárias que ajudaram o Atlético a captar R$ 200 milhões em patrocínios entre 2022 e 2025. Nenhum substituto técnico chega com esse capital simbólico pronto.
A síntese honesta é esta: o Atlético fez o que qualquer clube bem gerido deveria fazer — aproveitou ao máximo um jogador excepcional, negociou sua saída no momento certo e já trabalha na reposição. Hulk, por sua vez, parte para o Fluminense com contrato de um ano e salário de R$ 900 mil mensais, segundo informações que circulam nos bastidores do mercado. Uma redução de 40% em relação ao que recebia no Galo — o que diz muito sobre a motivação do jogador de se despedir em campo, não no banco.
"Eu ainda tenho fome. Quem acha que vim ao Fluminense para passear vai se surpreender", afirmou Hulk na coletiva de apresentação no Rio de Janeiro, na última terça-feira.
O Atlético volta a campo na quarta-feira, dia 13 de maio, diante do Cruzeiro, no Mineirão, pela 16ª rodada do Brasileirão 2026 — primeiro jogo oficial da era pós-Hulk. O clássico mineiro será o primeiro teste real para medir o tamanho do vazio deixado pelo homem que, durante seis anos, foi o argumento mais sólido do clube dentro e fora das quatro linhas. Como uma partitura que perde seu instrumento solista: a orquestra continua, mas o silêncio onde havia melodia é imediato e inconfundível.









