Não, a Bélgica de 2026 não é uma seleção em declínio. A narrativa que circula — a de que os Diabos Vermelhos chegam ao Mundial americano como sombra desbotada de uma geração gloriosa — ignora um dado estrutural que qualquer análise séria precisa confrontar: a Bélgica nunca venceu uma Copa do Mundo. O que existiu entre 2014 e 2022 foi um ciclo de alto rendimento sem conquista. Não há legado a defender. Há, ao contrário, uma conta aberta com a história.
O que os números da geração de ouro realmente dizem
A chamada "geração de ouro" belga produziu resultados expressivos, mas também acumulou eliminações precoces que o romantismo tende a suavizar. Na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, a Bélgica caiu nas quartas de final para a Argentina de Messi por 1 a 0, gol de Gonzalo Higuaín. Em 2018, na Rússia, chegou ao terceiro lugar — o melhor resultado da história do país — após eliminar Brasil (2 a 1, com gols de Fernandinho contra e De Bruyne) e perder para a França de Mbappé na semifinal por 1 a 0. Em 2022, no Catar, a decepção foi maior: eliminação na fase de grupos, com apenas quatro pontos em três jogos, derrota para Marrocos (2 a 0) e empate sem gols contra a Croácia. Terceiro lugar em 2018 é um fato. Mas a sequência completa revela uma seleção que nunca converteu talento individual em troféu coletivo.
Kevin De Bruyne, que soma quatro Copas do Mundo entre 2014 e 2026, nunca marcou um gol sequer na fase eliminatória de um Mundial. Romelu Lukaku, com 14 gols em 116 jogos pela seleção até maio de 2026, tem histórico de gols anulados e chances desperdiçadas em momentos decisivos — o mais emblemático foi o hat-trick desperdiçado contra a Croácia no Catar, com três bolas na trave ou fora. Thibaut Courtois, eleito melhor goleiro do mundo pela FIFA em 2018, foi titular na eliminação de 2022. Os números individuais são respeitáveis. O conjunto, até aqui, não produziu título.
Rudi Garcia e a convocação que mistura experiência com urgência jovem
O técnico francês Rudi Garcia, que assumiu o comando belga após a saída de Roberto Martínez em 2022, divulgou em 15 de maio de 2026 a lista dos 26 convocados para o Mundial. A composição é reveladora: ao lado de Courtois, De Bruyne e Lukaku — os três pilares remanescentes da geração anterior —, Garcia incluiu Jérémy Doku, do Manchester City, e Charles De Ketelaere, da Atalanta, como representantes mais visíveis da renovação. Leandro Trossard, do Arsenal, completa o grupo de meio-campo com experiência de Premier League.
Segundo a Federação Belga de Futebol, a lista foi construída para equilibrar a experiência dos veteranos com a velocidade e a criatividade dos jovens — uma filosofia que Garcia vem aplicando desde que assumiu o cargo.
Doku, 22 anos em 2026, foi titular no Manchester City de Pep Guardiola na temporada 2025/2026 e acumulou números relevantes na Premier League: 11 assistências e 7 gols até abril, com destaque para sua capacidade de driblar em velocidade pela esquerda. De Ketelaere, 23 anos, viveu sua melhor temporada na Atalanta de Gian Piero Gasperini, com 14 gols na Serie A 2025/2026, consolidando-se como um dos meias mais completos da Europa. A ausência notável, Lois Openda, do RB Leipzig, gerou debate — mas Garcia optou por Lukaku como referência central, apostando na experiência do atacante do Roma.

O Grupo G e a leitura mais precisa sobre as chances belgas
A Bélgica integra o Grupo G ao lado de Egito, Irã e Nova Zelândia — uma chave que, no papel, oferece passagem relativamente confortável para as oitavas de final. O Egito chega com Mohamed Salah, do Liverpool, como estrela máxima, mas com uma seleção que não disputa uma Copa do Mundo desde 1990, quando foi eliminada na fase de grupos. O Irã participou dos Mundiais de 2018 e 2022, chegando às oitavas no Catar antes de ser eliminado pelos Estados Unidos. A Nova Zelândia, com Chris Wood como referência ofensiva, é a seleção mais limitada do grupo em termos de elenco.
A Bélgica é apontada como favorita para liderar o grupo, projeção que os números históricos sustentam com reservas. Em 2022, os belgas também eram favoritos no Grupo F — e foram eliminados. A diferença estrutural em 2026 é a composição do adversário: nenhum dos três rivais do Grupo G tem o nível técnico de Croácia ou Marrocos. Isso não elimina o risco, mas reduz a margem para os erros de concentração que custaram a vaga no Catar.
Nas palavras do próprio Rudi Garcia, em entrevista à imprensa belga após o anúncio dos convocados, "esta seleção tem fome diferente — os jovens não carregam o peso das edições anteriores, e isso é uma vantagem real".
A leitura mais precisa sobre a Bélgica de 2026 não é a do declínio nem a do renascimento épico. É a de uma seleção em transição administrada, com veteranos ainda competitivos — De Bruyne completou 35 anos em junho de 2026, Lukaku tem 33 — e jovens que já provaram qualidade em clubes de alto nível. Garcia tem um elenco capaz de avançar às quartas de final sem depender de milagres táticos. O que acontece depois depende do sorteio e da consistência defensiva, área em que Courtois, mesmo com 34 anos, ainda figura entre os três melhores goleiros do mundo.
A Bélgica estreia na Copa do Mundo de 2026 contra a Nova Zelândia, em data a ser confirmada pela FIFA dentro da fase de grupos, com o torneio previsto para começar em junho nos Estados Unidos, México e Canadá. Se passar da fase inicial — e tudo indica que passará —, enfrentará nas oitavas um adversário de outro grupo, onde o nível sobe consideravelmente. É ali que a conta da geração de ouro, ainda em aberto, vai exigir pagamento.
A Bélgica chega sem hype. Chegou com hype três vezes e voltou sem troféu.










