Diz-se que o VAR resolveu, de uma vez por todas, as polêmicas de linha no futebol moderno. Na verdade, não resolveu — e o gol de Ao Tanaka para o Japão contra a Espanha, na fase de grupos da Copa do Mundo, é a prova mais eloquente disso. Após cinco minutos de revisão, o árbitro português Victor Gomes validou o lance que decretou a virada por 2 a 1 — e, por extensão, eliminou a Alemanha da competição. O que parecia uma decisão técnica e fria de tecnologia revelou-se, na verdade, um exercício de humildade epistemológica: há situações em que a câmera simplesmente não sabe.

O que a Regra 9 diz — e o que ela não consegue medir

A Regra 9 do Laws of the Game da IFAB é admirável em sua precisão conceitual e frustrante em sua aplicação prática. O texto é claro: a bola está fora de jogo quando ultrapassa completamente a linha de fundo ou lateral, seja no chão ou no ar. A palavra-chave é "completamente". Enquanto qualquer milímetro da circunferência da bola estiver sobre a linha — não necessariamente tocando-a, mas projetado sobre ela —, a bola permanece em jogo. Como sintetizou o ex-árbitro Carlos Eugênio Simon, que apitou três Copas do Mundo:

"Vi por vários ângulos e, em um deles, a bola não saiu totalmente. Mesmo estando 0,001% [dentro], pela regra, está em jogo, sendo assim, gol legal."
O problema começa quando se tenta aplicar essa definição matemática a um objeto esférico em movimento, filmado por câmeras posicionadas a metros de distância, com ângulos oblíquos e resolução finita.

O fenômeno que confundiu milhões de torcedores ao redor do mundo tem nome técnico: paralaxe. A comentarista de arbitragem Renata Ruel, da ESPN, foi uma das primeiras a nomear o efeito com precisão.

"As imagens que temos geram paralaxe: deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação. A bola parece estar fora por um ângulo, mas a circunferência dela está na linha."
Em termos concretos, uma câmera posicionada mesmo que poucos graus acima ou abaixo da linha de fundo projeta a bola em posições distintas — e nenhuma delas é necessariamente a verdadeira.

Os 2 centímetros que definem o limite da tecnologia

Há um número que resume a fragilidade estrutural do sistema: 2 centímetros. Em 2022, um estudo sobre as linhas de impedimento semiautomáticas utilizadas pela FIFA revelou que a margem de erro das câmeras de rastreamento chega a aproximadamente 2 cm — uma distância que, no futebol de alta velocidade, pode significar a diferença entre gol e escanteio, entre classificação e eliminação. No caso do cruzamento de Kaoru Mitoma, as imagens aéreas mostraram que a bola poderia estar, por questão de milímetros, ainda sobre a linha de fundo. Não havia certeza. Havia probabilidade.

O ex-árbitro Alfredo Loebeling esclareceu a interpretação técnica adotada pela arbitragem:

"A impressão que dá é que a bola saiu, mas aí o VAR vai olhar o gol e pode interferir. Como a regra fala que parte da bola tem que estar sobre a linha e ela é uma esfera, não precisa tocar na linha."
Guilherme Ceretta, também ex-árbitro, acrescentou uma camada procedimental importante: quando as imagens disponíveis não são conclusivas, a decisão de campo prevalece. Ou seja, o ônus da prova cabe ao VAR — e, sem prova irrefutável de que a bola cruzou completamente a linha, o gol se mantém.

  • Margem de erro das câmeras de rastreamento: aproximadamente 2 cm (estudo de 2022)
  • Tempo de revisão no VAR: 5 minutos para o lance de Mitoma
  • Resultado do jogo: Japão 2 x 1 Espanha, com o Japão avançando como líder do Grupo E
  • Consequência indireta: eliminação da Alemanha na fase de grupos

Uma história longa de milímetros e polêmicas em Copas

A polêmica do gol de Tanaka não nasce do nada — ela se insere numa tradição quase centenária de lances que desafiaram os limites da arbitragem humana e tecnológica. O mais famoso precursor é o gol de Geoff Hurst na final de 1966, em Wembley, quando a bola bateu no travessão, quicou na linha e a defesa alemã cortou. O árbitro soviético Tofiq Bahramov validou o gol sem qualquer recurso tecnológico. Décadas depois, simulações computadorizadas ainda divergem sobre se a bola cruzou completamente a linha. Não há tragédia nisso: há contabilidade. A Inglaterra ganhou 4 a 2, e o mundo seguiu em frente.

Em 1962, no Chile, o lateral Nilton Santos cometeu pênalti na área contra a Espanha, mas o árbitro Sergio Bustamante interpretou que a falta ocorreu fora da área — dois passos além da linha. O Brasil virou para 3 a 1 e seguiu para o bicampeonato. A tecnologia de então era zero; o erro, imenso. O que une esses episódios ao lance de Mitoma não é a má-fé nem a incompetência, mas uma realidade estrutural: o futebol é jogado em três dimensões, registrado em duas, e julgado por regras que exigem certezas onde a física só oferece aproximações.

O que a Regra 9 diz — e o que ela não consegue medir A bola saiu ou não no gol d
O que a Regra 9 diz — e o que ela não consegue medir A bola saiu ou não no gol d

Em matéria do SportNavo, a questão central não é se o Japão merecia avançar ou se a Espanha foi lesada — o placar refletiu 90 minutos de futebol disputado. A questão é que, enquanto a FIFA não implementar sensores na bola com leitura de posição em tempo real para todos os lances de linha de fundo — tecnologia que já existe, mas ainda não é universal —, haverá sempre um intervalo entre o que a regra determina e o que a câmera consegue provar. O próximo confronto do Japão nas oitavas foi disputado contra a Croácia, mas o debate sobre Mitoma e a Regra 9 permanece como pauta aberta para a FIFA antes da próxima edição do torneio, em 2030.