O gramado do Mineirão ainda tinha jogadores em campo quando o cronômetro marcava 51 minutos do segundo tempo. A bola estava parada, o árbitro Matheus Delgado Candançan tentava controlar o jogo, e então dois atletas se encontraram num canto do campo — e o que veio depois entrou para os livros de recordes do futebol brasileiro. O goleiro Éverson, do Atlético-MG, e o meia Christian, do Cruzeiro, iniciaram a maior briga generalizada da história do futebol nacional, resultando em 23 expulsões na final do Campeonato Mineiro 2026.
Hoje: o que já é fato
A súmula publicada pela FMF na madrugada desta segunda-feira (9) detalha com frieza cirúrgica o que aconteceu. Candançan registrou que Éverson "agiu com brutalidade após ser atingido", derrubando Christian com o joelho no rosto. O árbitro também anotou que Christian "atingiu com a canela a cabeça do adversário de número 22, com uso de força excessiva e intensidade alta, quando a bola já estava em posse do goleiro". Dois gatilhos, uma explosão.
A partir dali, a súmula se torna quase um relatório policial. Para os 21 jogadores seguintes, Candançan usou a mesma fórmula:
"Expulso por, durante a briga generalizada, após o término da partida, desferir e atingir com socos e pontapés seus adversários, não sendo possível apresentar o cartão vermelho devido ao tumulto."Doze expulsos pelo Cruzeiro — Cássio, Fagner, Fabrício Bruno, João Marcelo, Villalba, Kauã Prates, Christian, Lucas Romero, Matheus Henrique, Walace, Gerson e Kaio Jorge — e 11 pelo Atlético-MG — Éverson, Renan Lodi, Gabriel Delfim, Junior Alonso, Alan Franco, Hulk, Lyanco, Ruan Tressoldi, Alan Minda, Ángelo Preciado e Mateo Cassierra.
O Cruzeiro havia vencido a partida por 1 a 0, com gol de Kaio Jorge, e conquistado o título do Mineiro 2026. A vitória ficou ofuscada por cenas que lembraram menos uma final de campeonato estadual e mais a sequência de bar em Clube da Luta — aquela em que a violência começa com um único soco e rapidamente perde qualquer lógica ou controle.
Esta semana: o que se desdobra
O recorde estabelecido no Mineirão supera duas marcas que resistiam há décadas no futebol brasileiro. Em 1954, um jogo do Torneio Rio-São Paulo entre Portuguesa e Botafogo terminou com 22 expulsões. Em 1971, o amistoso entre Avaí e Figueirense — batizado de "Clássico da Vergonha" — também registrou 22 cartões vermelhos. O clássico mineiro desta temporada enterrou as duas marcas com 23 expulsões e 32 cartões no total, segundo a súmula oficial.

O levantamento do SportNavo mostra que a FMF terá de processar um volume disciplinar sem precedente na história do futebol mineiro. Com 23 atletas automaticamente suspensos por expulsão, mais a análise de conduta prevista pelo regulamento da competição, os departamentos jurídicos de Cruzeiro e Atlético-MG devem trabalhar ao longo desta semana para dimensionar os impactos nos elencos antes do início da sequência do Brasileirão. O Cruzeiro enfrenta o Flamengo em 11 de março; o Atlético recebe o Internacional na mesma data.
A questão financeira também entra no cálculo. Multas por comportamento antidesportivo em finais de campeonatos estaduais costumam ser fixadas pela entidade organizadora com base no regulamento vigente, e clubes com reincidência no histórico disciplinar podem receber penalidades agravadas. Ainda não há valor oficial divulgado pela FMF, mas fontes ligadas à federação indicam que o processo será concluído até o fim desta semana.
Próximas 4 semanas: o que vai mudar
A comparação com o recorde mundial ajuda a calibrar a dimensão do episódio. Segundo o Guinness World Records, a marca pertence ao duelo entre Club Atlético Claypole e Victoriano Arenas, disputado em 27 de fevereiro de 2011 pela Primeira D, quinta divisão argentina — 36 expulsões, incluindo todos os 22 titulares e os 14 reservas dos dois times, arbitrado por Damián Rubino. O Guinness registra, com certo humor, que "não havia histórico de rivalidade" entre as equipes. No caso do Mineirão, a rivalidade de décadas entre Cruzeiro e Atlético-MG está na raiz de tudo.

A análise exclusiva do SportNavo aponta que o impacto real das suspensões se estenderá além da primeira rodada do Brasileirão. Jogadores com histórico de expulsões anteriores na temporada podem ter os prazos de suspensão ampliados pelo STJD, que tem competência para reavaliar casos com indícios de violência grave — exatamente o que a súmula descreve com os termos "socos", "pontapés" e "brutalidade". Hulk, com 38 anos, e Cássio, com 37, figuram entre os veteranos que podem enfrentar processos disciplinares mais longos.
Para o Atlético-MG, perder Éverson, Hulk, Renan Lodi, Junior Alonso e Lyanco simultaneamente representa um déficit técnico considerável nas primeiras rodadas do Brasileirão 2026. O clube enfrenta Vitória fora de casa em 14 de março e recebe o São Paulo em 18 de março — dois jogos em que a ausência do bloco titular pode ser decisiva. O Cruzeiro, por sua vez, terá de administrar as ausências de Cássio, Fabrício Bruno, Walace e Gerson, pilares do esquema que conquistou o título estadual neste domingo.









