— Você viu o zagueiro do Barracas ontem? Marcou de novo.
— Zagueiro marcou? Que zagueiro marca?
— Exatamente. Esse aí.
Gastón Campi não é o tipo de jogador que aparece na capa das revistas. Nunca foi. Mas em 2026, com 35 anos completos desde abril e a camisa 37 do Barracas Central no peito, ele está fazendo algo que poucos zagueiros da Copa Sudamericana conseguem: ser insubstituível sem precisar gritar por isso.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Trinta e quatro jogos. É esse o número que define a temporada 2026 de Gastón Campi — e é justamente esse o dado que a maioria dos analistas ignora quando falam de zagueiros. Em uma era em que a gestão de minutos domina as pranchetas dos técnicos, um defensor de 35 anos estar presente em 34 partidas numa única temporada não é detalhe. É declaração. É o técnico dizendo, semana após semana, que não existe plano B para aquela posição.
O número tem peso específico no contexto do Barracas Central, clube que convive com elenco enxuto e pressão de resultados na competição continental. Cada jogo é uma decisão, e Campi foi a resposta em 34 delas.
Como ele chega a esse número
A história começa no Racing Club, em 2013. Campi foi indicado à diretoria pelo coordenador Fernando Bazán — uma dessas histórias de bastidor que raramente aparecem nas fichas técnicas. Sua estreia profissional aconteceu contra o Olimpo, na vitória que abriu o Torneio Inicial de 2013. Ainda novo, ainda aprendendo o ritmo do futebol argentino de primeira divisão.
A virada de chave veio rápido. Em 2 de novembro de 2013, na sua segunda partida pelo Racing, Campi marcou seu primeiro gol profissional — contra o Gimnasia La Plata, vitória por 2–0. O técnico Reinaldo "Mostaza" Merlo passou a confiar nele. Esse é o tipo de gol que fica guardado: não pelo placar, mas pelo que abre.
O caminho, porém, nunca foi em linha reta. Em 2014, a chegada do técnico Diego Cocca e de novos zagueiros ao elenco empurrou Campi para a reserva. Sua única aparição sob o comando de Cocca foi contra o San Lorenzo — uma entrada no segundo tempo, quase um recado de despedida. A hierarquia do futebol é assim: você pode ser o favorito do treinador que saiu e o último da lista do que chegou.
O capítulo mais curioso dessa trajetória veio em julho de 2016, quando Campi fez testes no Reading, clube da Championship inglesa, durante a pré-temporada nos Países Baixos. O clube optou por não contratá-lo. Esses são os momentos que definem carreiras — não as contratações que acontecem, mas as que não acontecem. Campi seguiu, adaptou, virou o zagueiro experiente que o Barracas Central confia num torneio continental.
Os outros números que falam o mesmo idioma
Três gols. Duas assistências. Esses satélites em torno dos 34 jogos contam uma história adicional sobre Campi. Para ter parâmetro: nos anos 1990, zagueiros como Fernando Hierro acumulavam temporadas inteiras com participações ofensivas similares — o espanhol terminou a carreira com mais de 100 gols, sendo a maioria de falta e pênalti, mas sua média por temporada em La Liga raramente superava quatro gols. Campi, com 3 gols e 2 assistências numa competição continental de mata-mata como a Copa Sudamericana, está operando num registro parecido: o do zagueiro que não apenas defende, mas participa.
Com 193 cm e 88 kg, o físico de Campi é o de um zagueiro construído para dominar a área — tanto a própria quanto a adversária em bolas paradas. Os gols desta temporada não são acidente. São produto de um jogador que, aos 35 anos, conhece exatamente quando e onde aparecer.
Na comparação com pares na mesma posição dentro da competição, o volume de jogos de Campi o coloca num grupo seleto. Zagueiros com 34 jogos em Copa Sudamericana, nesta fase da carreira, são exceção — não regra. A maioria dos clubes que chegam às fases decisivas do torneio já rotacionaram seus defensores ao menos uma vez. O Barracas Central, aparentemente, não sentiu essa necessidade.

O risco de confiar só nesse dado
Há, claro, um lado de sombra nessa narrativa. Trinta e quatro jogos numa única temporada, aos 35 anos, é também uma carga física considerável. O futebol sul-americano, com seus calendários comprimidos, viagens longas e gramados irregulares, cobra tributo de qualquer atleta — e de zagueiros veteranos em especial.
A ausência de informações sobre conquistas coletivas ao longo da carreira de Campi também levanta uma questão honesta: o que significa chegar à Copa Sudamericana sem um troféu relevante registrado? Pode significar que ele sempre esteve perto sem concluir. Pode significar que 2026 é a janela — a última ou a mais importante. As duas leituras existem ao mesmo tempo.
E existe ainda o risco narrativo de supervalorizar o volume. Trinta e quatro jogos dizem que ele jogou. Não dizem, sozinhos, se o Barracas Central está avançando ou sobrevivendo na competição. O dado central precisa dos satélites — e os satélites precisam de contexto.
Nos próximos 12 meses, Campi chegará aos 36 anos em abril de 2027. A questão não é se ele ainda tem condição física — os números desta temporada respondem isso. A questão é se o clube vai renovar a aposta num jogador que, na próxima janela, estará na faixa etária em que contratos se tornam curtos e propostas escassas. Há um cenário em que ele encerra 2026 com um título continental e abre 2027 com mais poder de barganha do que qualquer momento recente da carreira. Há outro em que o desgaste fala mais alto que a estatística.
É o mesmo cenário que o Estudiantes de La Plata viveu em 2009, quando apostou em Demichelis e outros veteranos para disputar a Libertadores — uma equipe construída em torno da experiência, não da juventude — e levantou o troféu. Só que agora a aposta é diferente: é um zagueiro de 35 anos numa camisa 37 num clube que nem todo brasileiro saberia localizar no mapa, tentando escrever um final que o futebol raramente permite.









