É um tabuleiro de xadrez com peças faltando. A declaração do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de que a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência é "viável e irreversível" circulou como sentença definitiva na semana de 17 de janeiro de 2026 — mas os números e as articulações internas contam uma história bem diferente. E o setor esportivo, que movimenta mais de R$ 72 bilhões por ano na economia brasileira segundo o Ministério do Esporte, está atento a cada movimento desse tabuleiro.

A pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 14 de janeiro com margem de erro de dois pontos percentuais, mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 45% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio, que marcou 38%. Um levantamento posterior da Atlas/Bloomberg, divulgado em 19 de janeiro, trouxe dado ainda mais incômodo para o PL: as intenções de voto de Flávio caíram 6 pontos percentuais após as revelações sobre sua proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, com Lula vencendo por 48,9% a 41,8%.

A narrativa do candidato esportista que os números desmentem

Reparemos no detalhe que a cobertura política costuma ignorar: Flávio Bolsonaro não construiu uma trajetória legislativa robusta em torno do esporte — ao contrário de seu pai, que assinou o Decreto nº 10.977/2022 regulamentando a Lei Geral do Esporte, ou do governo atual, que expandiu o orçamento da Secretaria Nacional do Esporte para R$ 1,3 bilhão em 2025. A narrativa de que uma eventual presidência de Flávio representaria um projeto claro para o setor ainda carece de evidência concreta no seu plano de governo — que, segundo o coordenador-geral da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), foi deliberadamente adiado ao máximo para não tirar o foco das críticas ao governo Lula.

Essa estratégia de "jogar parado", como circulava em conversas reservadas dentro da campanha, começa a ser revista. Aliados do senador pressionam por mudanças na equipe de comunicação e pelo anúncio gradual de integrantes de uma eventual equipe econômica de perfil liberal. Para o mercado esportivo — que depende de estabilidade regulatória para fechar contratos de patrocínio de médio prazo —, a indefinição programática é o pior cenário possível.

"A verdade é simples: o que veremos nos próximos dias será o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e o fortalecimento de sua imagem junto à população", afirmou Valdemar Costa Neto em nota, após negar ter estipulado prazo de 15 dias para reavaliar a candidatura.

O que as leis de incentivo ao esporte têm a perder ou ganhar com Flávio

A Lei de Incentivo ao Esporte (Lei nº 11.438/2006) é o principal instrumento de financiamento privado do esporte de alto rendimento no Brasil, permitindo dedução de até 1% do Imposto de Renda devido por pessoas jurídicas. Em 2024, o mecanismo captou aproximadamente R$ 900 milhões, segundo dados da Receita Federal. Qualquer alteração tributária promovida por um novo governo impacta diretamente esse fluxo — e é exatamente aqui que o setor esportivo observa a disputa eleitoral com interesse calculado.

Um governo de perfil liberal, como sinaliza a campanha de Flávio ao mencionar uma equipe econômica com esse viés, tenderia a manter ou ampliar deduções tributárias para o setor privado — o que poderia beneficiar clubes e federações que dependem de patrocínio corporativo. Contudo, a resistência do Centrão ao nome de Flávio — com partidos avaliando impactos regionais e mantendo espaço para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como alternativa — sinaliza que qualquer coalizão governista precisaria de concessões que raramente favorecem pautas específicas do esporte.

"Todos nós que queremos um Brasil melhor temos que ter muita sabedoria e união para vencer o partido das trevas. A gente precisa praticar aquilo que prega: como vamos unir o Brasil se não conseguimos unir a direita antes?", disse Flávio Bolsonaro em evento público no dia 17 de janeiro.

Patrocínios corporativos e o termômetro político que as marcas já usam

O mercado de patrocínio esportivo brasileiro movimentou cerca de R$ 4,2 bilhões em 2025, com crescimento de 11% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da consultoria Scoreplan. Empresas que figuram entre os maiores patrocinadores de clubes e seleções — bancos, seguradoras, marcas de consumo — monitoram o ciclo eleitoral com a mesma atenção que monitoram câmbio e Selic. Instabilidade política eleva o custo de capital, reduz o horizonte de planejamento e, historicamente, retrai contratos de patrocínio de longo prazo.

A narrativa do candidato esportista que os números desmentem A candidatura de Fl
A narrativa do candidato esportista que os números desmentem A candidatura de Fl

O giro de Flávio pela Faria Lima em 20 de janeiro — buscando tranquilizar empresários e operadores do mercado financeiro — foi lido por gestores do setor esportivo como sinal de que a campanha reconhece a dependência do ambiente de negócios para sustentar o ecossistema de patrocínios. A questão é se a turbulência interna do PL, somada às pesquisas desfavoráveis, não vai afugentar justamente os investidores que o senador precisa convencer.

O próprio engajamento digital da candidatura já reflete a volatilidade: após o episódio Vorcaro, menções negativas ao nome de Flávio em plataformas como X e Instagram superaram as positivas em proporção de 3 para 1 durante a semana de 13 a 19 de janeiro, segundo monitoramento da Stilingue. Para marcas que medem retorno sobre investimento em patrocínio pelo sentimento de marca do associado, esse dado importa tanto quanto qualquer pesquisa eleitoral.

As próximas semanas serão decisivas para calibrar o cenário: a campanha promete divulgar "pílulas" do plano de governo ao longo de fevereiro, e as pesquisas de fevereiro e março vão indicar se o desgaste provocado pelo caso Vorcaro foi passageiro ou estrutural. Para quem trabalha com planejamento de patrocínio no esporte brasileiro, vale acompanhar de perto o que esses números vão revelar — eles vão pautar reuniões de orçamento em toda a cadeia esportiva antes do segundo semestre de 2026.