— Cara, você lembra quando o Messi falou que ia se aposentar da seleção?
— Lembro. Achei que era o fim de tudo.
— Pois é. Um guri de 15 anos do River Plate não achou.

O calor de Dallas nesta segunda-feira (22) bate diferente. São mais de 38 graus na entrada do AT&T Stadium, e as filas de torcedores argentinos com camisas azul e branca se estendem por três quarteirões. Lá dentro, Lionel Messi vai entrar em campo contra a Áustria pela segunda rodada do Copa do Mundo, carregando no dorso o número 10 e, no placar histórico, 16 gols em Copas — o mesmo número de Miroslav Klose, recordista absoluto. Um gol. É só um gol que separa Messi da eternidade.

Mas antes de falar sobre o recorde, é preciso voltar dez anos. Até uma folha de papel escrita por um adolescente que, naquele momento, entendia mais de Argentina do que boa parte dos adultos ao redor.

A carta que ninguém esperava de um garoto do River

Era julho de 2016. A Argentina havia perdido a final da Copa América para o Chile nos pênaltis — a terceira final consecutiva sem título. Messi, destruído pelas críticas de torcedores e imprensa, anunciou que não vestiria mais a camisa da seleção. O país entrou em colapso emocional. Nas redes sociais, a divisão era brutal: metade pedia que ele ficasse, a outra metade aceitava a saída com amargura.

Foi nesse cenário que Enzo Fernández, então com 15 anos e ainda na base do River Plate, publicou uma carta aberta ao ídolo. O texto circulou pela internet argentina com uma velocidade que surpreendeu até os adultos. O garoto pedia, com uma sinceridade desarmante, que Messi reconsiderasse. Que a camisa alviceleste precisava dele. Que a Argentina não seria a mesma sem aquele número 10.

Ninguém deu muito crédito. Adolescente emotivo, disseram. Ingênuo, disseram. No futebol, como no ditado popular, quem não tem cão caça com gato — e a Argentina, sem Messi, teria que se virar com o que tinha. Só que o garoto do River não estava caçando com gato. Ele estava apostando no leão.

De carta aberta a companheiro de Copa do Mundo

Messi voltou atrás. Em agosto de 2016, reverteu a decisão e retornou à seleção. A Argentina classificou para a Copa de 2018, caiu nas oitavas de final para a França. Veio a Copa América de 2021, o primeiro título com a camisa albiceleste. E então, em dezembro de 2022, no Lusail Stadium, em Doha, aconteceu o que parecia impossível: Argentina campeã do mundo, com Messi levantando a taça que faltava na coleção.

No meio daquele time, de meia titular, estava Enzo Fernández — o mesmo garoto que havia escrito a carta seis anos antes. O meia, que em 2022 ganhou o prêmio de melhor jovem jogador do torneio, hoje é um dos pilares da seleção. E quando questionado sobre o que aprendeu ao lado de Messi, a resposta foi tão grande quanto a própria história que os une.

"Um livro não seria suficiente para escrever tudo que aprendi com ele", disse Enzo Fernández em entrevista publicada na véspera do jogo contra a Áustria.

Dez anos separam a carta da frase. No meio, uma Copa do Mundo, um Bola de Ouro, uma transferência milionária para o Chelsea e a consolidação de Enzo como um dos melhores meias do planeta. A profecia do adolescente virou realidade dentro de campo.

Rangnick elogia, mas avisa que Dallas pode ser palco de surpresa

Do outro lado desta segunda-feira está a Áustria de Ralf Rangnick, técnico alemão com passagem recente pelo Manchester United. A equipe europeia chegou à segunda rodada após vencer a Jordânia por 3 a 1 na estreia, e uma vitória hoje garante a classificação para as oitavas de final. Mesma situação da Argentina, que na estreia aplicou 3 a 0 na Argélia com hat-trick de Messi — os três gols que igualaram Klose no topo da lista histórica.

Rangnick não escondeu o respeito pelo adversário. Quando questionado sobre as fraquezas da Argentina, o treinador foi direto.

"Falamos dos pontos fracos primeiro porque não há nada. As fortalezas é que tem um dos melhores jogadores do mundo. O melhor jogador de todos os tempos. O elenco é muito bom. Isso significa que necessitamos ser fortes taticamente. Teremos que mostrar o melhor rendimento que já demonstramos", declarou o técnico austríaco.

Mas Rangnick também deixou claro que a Áustria não entrou no avião para Dallas de turista. "Amanhã vamos jogar e teremos todos contra, mas podemos surpreender. Tudo é possível", completou o treinador, lembrando que o futebol é um esporte coletivo onde a tática pode neutralizar até o maior jogador do mundo.

A tensão no vestiário argentino, segundo apurado em matéria do SportNavo, é temperada por um elemento extracampo: Messi lida com a situação de saúde delicada de seu pai, Jorge, que acompanha a Copa de longe. O peso emocional não é pequeno, mas quem conhece a história do camisa 10 sabe que ele transforma pressão em combustível.

O recorde que pode mudar a história desta tarde em Dallas

Os números falam por si. Messi tem 16 gols em Copas do Mundo — distribuídos ao longo de seis edições do torneio, de 2006 a 2026. Klose, o alemão que detinha o recorde isolado, marcou os mesmos 16 em quatro Copas. Um gol separa Messi da história absoluta, e a Áustria, que na estreia sofreu três gols da Jordânia antes de virar o placar, não parece o obstáculo mais intransponível que o argentino já enfrentou.

Enzo Fernández vai entrar em campo ao lado de Messi sabendo que é, de certa forma, parte dessa história desde antes de ser profissional. A carta de 2016 não foi um gesto ingênuo de adolescente. Foi o primeiro capítulo de uma parceria que rendeu uma Copa do Mundo e agora aponta para um recorde que vai durar décadas.

É o mesmo cenário que Ronaldo Fenômeno viveu em 2002 — um craque carregando o peso de uma nação inteira nas costas, com um jovem ao lado acreditando antes de todo mundo. Só que agora a aposta não é pela redenção de um ídolo. É pelo maior recorde individual da história das Copas do Mundo, e a bola começa a rolar às 14h (horário de Brasília) no AT&T Stadium, em Dallas.