O melhor jogador do Brasil em uma Copa do Mundo pode ser o que ainda não jogou. Neymar completa 34 anos carregando esse paradoxo: ausente nas duas primeiras partidas da fase de grupos, ele é, ao mesmo tempo, o nome mais aguardado do torneio. A resolução desse enigma pode chegar na quarta-feira, 24 de junho, no Hard Rock Stadium, em Miami, diante da Escócia.
Uma história que o Brasil já conhece de cor
Há exatos 28 anos, em julho de 1998, o Brasil chegou à final da Copa da França com Ronaldo Nazário em estado fantasmagórico — convulsionado horas antes da decisão, escalado mesmo assim, incapaz de repetir o que havia feito durante toda a competição. O paralelo não é perfeito, mas o roteiro de um camisa 10 brasileiro sendo aguardado como solução para uma Seleção que já avançou sem ele tem precedentes dolorosos na memória coletiva do torcedor.
Neymar jogou pela última vez com a amarelinha em outubro de 2023, quando rompeu o ligamento cruzado do joelho esquerdo numa derrota por 2 a 0 para o Uruguai, em Montevidéu, pelas Eliminatórias. Foram mais de 650 dias afastado — um período que incluiu cirurgia, recuperação no Al-Hilal, passagem pelo Santos em 2025 e uma nova lesão na panturrilha que o tirou das estreias do Brasil contra Marrocos (vitória por 2 a 1) e Haiti (3 a 0).
Esta segunda-feira, 22 de junho, marcou seu primeiro treino tático e coletivo sob o comando de Carlo Ancelotti nesta Copa. O sinal foi claro o suficiente para que o próprio elenco começasse a tratar o retorno como questão de horas, não de dias.
"Ele está jogando em um nível muito alto e dava para perceber a intensidade no treino de hoje. Dava para ver o quanto ele está ansioso para estar conosco, e a qualidade dele é inquestionável", disse Gabriel Martinelli em coletiva nesta segunda-feira.
O Brasil que funcionou sem ele e o que precisa mudar
Sem Neymar, Ancelotti optou por um 4-2-3-1 com Rodrygo centralizado atrás do centroavante. O esquema funcionou razoavelmente bem — 5 gols marcados em dois jogos, nenhum sofrido —, mas o segundo tempo contra o Haiti expôs limitações na criação ofensiva que a fase eliminatória não vai perdoar.
Rodrygo operou como meia-atacante, com liberdade para flutuar entre as linhas. Com Neymar disponível, esse espaço passa a ser ocupado pelo camisa 10, e o ex-Real Madrid precisa recuar uma posição ou migrar para o lado direito. Ancelotti já testou os dois cenários no CT de Basking Ridge, em Nova Jersey, segundo apurado por SportNavo.
Em 15 partidas disputadas em 2026, antes da Copa, Neymar marcou 6 gols e deu 4 assistências pelo Santos — números modestos para um jogador do seu histórico, mas consistentes para alguém que nunca jogou mais de quatro partidas consecutivas desde a cirurgia de fevereiro. O volume reduzido de minutos é o dado que mais preocupa Ancelotti: ritmo de jogo não se recupera no treino.
O que Neymar ainda representa taticamente
Quando Neymar está em forma — e há versões muito distintas dele ao longo da última década —, ele oferece algo que nenhum outro jogador do atual elenco entrega com a mesma naturalidade: a capacidade de atrair dois marcadores e ainda assim criar superioridade numérica. Nas Copas de 2014 e 2018, ele foi responsável por 7 dos 16 gols do Brasil nas duas campanhas somadas, além de 5 assistências diretas.

A Escócia, que estreou na Copa com uma derrota por 1 a 0 para a Alemanha, tende a se fechar em bloco médio-baixo contra o Brasil. Contra equipes assim, a presença de Neymar como referência de tabelas curtas e lançamentos em profundidade é o tipo de recurso que Ancelotti não tem em nenhum outro nome da lista de convocados.
Martinelli, que jogou os dois primeiros jogos pelo lado esquerdo, pode recuar para o setor mais recuado da ala ou deslocar-se para a direita. Vinicius Jr., ausente por suspensão na estreia contra Marrocos, voltou contra o Haiti e foi o jogador mais ativo em termos de dribles — 7 tentativas, 4 concluídas. A convivência dos três no mesmo setor ofensivo é tecnicamente possível, mas exige equilíbrio defensivo que o 4-2-3-1 precisa garantir.
A Escócia na quarta-feira e o peso de cada minuto
O Brasil já está classificado para as oitavas de final com 6 pontos em dois jogos. A partida contra a Escócia, às 21h do horário de Brasília, é a última da fase de grupos — e o resultado define a posição no mata-mata, potencialmente alterando o caminho até a semifinal.
Para Neymar, o contexto é mais pessoal. Uma Copa do Mundo em 2030 estaria fora de cogitação — ele teria 38 anos. Este torneio, nos Estados Unidos, México e Canadá, é provavelmente sua última chance de conquistar o único título que falta em sua carreira. Ele chegou a 77 gols pela Seleção Brasileira, a dois de superar o recorde de Pelé de 77 — marca que já empatou em 2023 antes da lesão.
"Se ele vai jogar ou não é uma decisão do técnico, mas acho que ele está pronto", completou Martinelli, sem deixar dúvida sobre o que o vestiário pensa.
Ancelotti tem 48 horas para confirmar a escalação. O jogo começa às 21h de quarta-feira. Neymar tem 34 anos e, possivelmente, 90 minutos para provar que ainda pertence a este nível.








