Qual foi a última vez que a CBF garantiu o futuro de um técnico antes de ele disputar uma Copa do Mundo? A resposta não está nos anos 2000, não está nos anos 90. A resposta, honesta, é: nunca. A entidade sempre operou no curtíssimo prazo, trocando treinadores no primeiro sinal de turbulência, vivendo de ciclo em ciclo como quem nunca acredita no próprio projeto.

Pois bem. Nesta quinta-feira, 14 de maio, a CBF fez algo historicamente incomum: anunciou a renovação de Carlo Ancelotti por mais quatro anos, até a Copa do Mundo de 2030, com salário mantido em 10 milhões de euros anuais — o equivalente a R$ 5 milhões por mês. O anúncio veio antes mesmo do Brasil embarcar para o Mundial de 2026, disputado nos Estados Unidos, México e Canadá. Antes do primeiro jogo. Antes do primeiro gol.

A assinatura que levou meses para secar no papel

As bases do acordo estavam costuradas desde dezembro de 2025, mas o contrato só ganhou a tinta de Ancelotti agora. Segundo pessoas ouvidas pela ESPN, o corpo de advogados espanhóis do treinador devolveu as minutas pelo menos duas vezes pedindo revisões pontuais — nada que comprometesse o negócio, mas suficiente para arrastar a formalização por semanas. O atraso final, já em abril, foi causado pela correria em torno da pré-lista para a Copa.

Junto com Ancelotti, renovaram toda a comissão técnica estrangeira: os auxiliares Paul Clement e Francesco Mauri, o preparador físico Mino Fulco e o analista de desempenho Simone Montanaro. Os quatro chegaram ao Brasil ao lado do italiano em maio de 2025 e, ao contrário do chefe, tiveram reajuste salarial no novo vínculo.

"Há um ano cheguei ao Brasil. Desde o primeiro minuto, entendi o que o futebol significa para este país. Há um ano, estamos trabalhando para levar a Seleção Brasileira de volta ao topo do mundo. Mas a CBF e eu queremos mais. Mais vitórias, mais tempo, mais trabalho. Estamos muito felizes em anunciar que continuaremos juntos por mais quatro anos. Vamos juntos até a Copa do Mundo de 2030. Quero agradecer a CBF pela confiança. Obrigado, Brasil, pela calorosa recepção e por todo o carinho." — Carlo Ancelotti, em comunicado oficial da CBF

O italiano de 66 anos chegou ao cargo em maio de 2025, substituindo Dorival Júnior, após anos de negociações frustradas que remontam à gestão de Ednaldo Rodrigues. Em dez jogos à frente da Seleção, o balanço é de cinco vitórias, dois empates e três derrotas, com 18 gols marcados e oito sofridos.

O que muda agora, antes do primeiro apito do Mundial

A Copa de 2026 começa com o Brasil no Grupo D, ao lado de Marrocos, Haiti e Escócia. A convocação final será divulgada na próxima segunda-feira, dia 18. Ancelotti, portanto, chega ao anúncio da lista com o contrato já renovado — uma blindagem institucional que a CBF jamais ofereceu a nenhum de seus técnicos no período pré-Copa.

Para ter um parâmetro histórico: em julho de 1994, quando o Brasil ergueu a taça nos Estados Unidos, Carlos Alberto Parreira tinha um vínculo que terminava exatamente com o torneio. A CBF não construiu nenhum projeto além daquele título. O que veio depois foi a desorganização que todos conhecem — troca de treinadores, crises internas, ausência de identidade de jogo. A renovação de Ancelotti é a antítese direta desse padrão.

O SportNavo apurou junto a fontes do meio esportivo que a decisão de renovar antes da Copa reflete uma mudança de postura da atual diretoria da CBF: proteger o projeto independentemente do resultado em junho e julho. Ou seja, mesmo que o Brasil seja eliminado nas oitavas de final, Ancelotti segue no cargo e o trabalho continua.

O horizonte de 2030 e o que Ancelotti precisa entregar

A Copa do Mundo de 2030 terá uma edição histórica: o centenário do torneio, com jogos espalhados por múltiplos países. Para o Brasil, a janela de quatro anos representa tempo suficiente para construir uma geração — algo que a Seleção não teve de forma contínua desde a era Tite, encerrada na derrota por 1 a 0 para a Croácia nas quartas de 2022 no Qatar.

Com 10 milhões de euros por ano garantidos até 2030, Ancelotti se torna, de longe, o técnico de seleção mais bem pago do planeta por um período extenso. O contrato cobre dois ciclos de Eliminatórias Sul-Americanas e dois Mundiais — 2026, que começa agora, e 2030, que será a meta final do projeto.

A convocação de segunda-feira, dia 18, será o primeiro teste público desse novo Ancelotti institucionalmente blindado. O técnico terá de fechar a lista com nomes que ele mesmo selecionou, dentro de um projeto que agora tem data de validade clara: 2030. Não há mais espaço para improviso de gestão — só para futebol.