Diz-se que o Criciúma tem um dos ataques mais consistentes da Série B 2026. Na prática, não tem — e o que aconteceu no Estádio Dr. Jorge Ismael de Biasi, na noite desta terça-feira, em Novo Horizonte, é a prova mais recente disso. O empate sem gols contra o Novorizontino, pela 19ª rodada do Brasileirão Série B, não foi um acidente de percurso: foi o retrato de uma equipe que carrega ambição na prancheta mas não consegue traduzi-la em volume de finalizações com perigo real.

O herói da partida

Num jogo sem gols e com poucas emoções claras, o protagonismo pertenceu a quem conseguiu, ao menos, manter o equilíbrio sob pressão crescente. Luís Oyama, volante do Novorizontino, foi o jogador que mais tocou na bola no setor central durante os 90 minutos, organizando as saídas do time da casa e travando os contra-ataques do Criciúma antes que ganhassem velocidade. Seu trabalho não aparece na tabela de gols, mas aparece no PPDA — métrica que mede a pressão defensiva de um time pela quantidade de passes que o adversário precisa para sofrer uma pressão organizada. Quanto menor o PPDA do Novorizontino, maior a compressão exercida sobre o Criciúma: no segundo tempo, o índice da equipe paulista ficou abaixo de 8, o que, em linguagem simples, significa que o time sufocava o adversário a cada oito passes tentados.

Ironicamente, foi Oyama quem recebeu o segundo cartão amarelo da partida, aos 56 minutos, em falta que interrompeu uma das raras arrancadas do Criciúma pelo lado esquerdo. O lance revelou a contradição do jogador na noite: eficiente o suficiente para travar o jogo, agressivo o suficiente para arriscar a própria permanência em campo.

O que ele fez em campo

A leitura tática de Oyama no primeiro tempo foi precisa. Ele percebeu cedo que o Criciúma tentaria construir pelo centro, usando a movimentação dos meias para atrair a marcação e abrir espaço nas laterais. A resposta foi posicional: o volante ficou mais colado ao pivô adversário, cortando as linhas de passe antes que chegassem ao último terço. O resultado direto foi um Criciúma que passou boa parte dos primeiros 45 minutos tentando jogar pelo lado — sem sucesso consistente.

Antes do intervalo, aos 45 minutos, foi a vez de Luciano Castán levar o amarelo, numa falta dura que encerrou uma jogada de velocidade do time visitante. O cartão revelou que o Novorizontino, mesmo em casa, precisou recorrer à dureza para manter a estrutura defensiva intacta. Era o sinal de que o Criciúma havia encontrado, ao menos momentaneamente, uma brecha para explorar.

Como o time se ergueu (ou caiu) com ele

O técnico do Criciúma apostou na entrada de Fellipe Mateus logo no início do segundo tempo, aos 46 minutos, no lugar de Cauê. A substituição tinha lógica clara: Fellipe Mateus é um jogador de desequilíbrio individual, capaz de criar situações de gol a partir do nada. Quem acompanha a Série B em matéria do SportNavo sabe que ele já decidiu partidas com esse perfil nesta temporada. Mas desta vez, o contexto foi diferente.

O Novorizontino estava preparado. Após o cartão de Oyama, o time da casa reorganizou o bloco defensivo com linhas mais compactas, reduzindo os espaços que Fellipe Mateus precisaria para atuar. O meia-atacante tentou duas jogadas de penetração pela direita, mas foi travado antes de concluir. A ausência de uma referência móvel na área — alguém que prendesse a atenção dos zagueiros — deixou as investidas do Criciúma previsíveis demais.

O Novorizontino, por sua vez, teve suas próprias limitações. Sem Oyama com liberdade total após o amarelo, as transições ofensivas perderam velocidade. O time da casa pareceu satisfeito com o empate cedo demais, recuando o bloco e abrindo mão de uma pressão que poderia ter rendido o gol da vitória nos minutos finais. É um padrão que tem custado pontos ao clube ao longo da Série B 2026: a gestão do resultado antes de ele existir.

Do ponto de vista das métricas avançadas, o xG — sigla para Expected Goals, ou seja, a probabilidade acumulada de gol com base na qualidade das chances criadas — ficou abaixo de 0,5 para cada lado. Para o leigo: os dois times criaram tão pouco que, estatisticamente, um empate sem gols era o resultado mais provável desde o primeiro apito. Nenhum dos dois merecia mais do que um ponto.

E agora, o que esperar

O empate mantém os dois clubes em situação de alerta na tabela da Série B. O Criciúma desperdiça uma oportunidade de se aproximar do G-4, grupo que garante acesso direto à Série A 2027. O Novorizontino, jogando em casa, perde dois pontos que poderiam ter consolidado uma sequência positiva no segundo turno da competição.

A questão financeira também importa. Clubes que dependem de patrocinadores regionais — como ambos — têm nos resultados o principal argumento para renovação de cotas de patrocínio. Um empate em casa, sem gols, é o tipo de desempenho que não aquece negociação nenhuma. O Novorizontino tem janela de renovação com seu patrocinador master prevista para agosto; o Criciúma negocia a extensão de dois contratos de naming rights para a temporada seguinte. Ficar fora do G-4 enfraquece os dois lados da mesa.

Na 20ª rodada, os dois times terão oportunidades de correção de rota. O desempenho desta terça-feira foi suficiente para não perder — insuficiente para convencer — o jogo está aberto — a classificação ainda não.