A última vez que o Brasil ficou 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo, o remédio foi Carlos Alberto Parreira, um treinador nacional, um centroavante chamado Romário e uma final disputada nos Estados Unidos em 1994. Agora, com exatamente a mesma lacuna temporal acumulada desde 2002, a CBF tomou uma decisão sem precedente na história centenária da Seleção: entregou o comando a Carlo Ancelotti, o primeiro técnico estrangeiro a dirigir o Brasil. E, segundo informações publicadas por The Athletic e referenciadas pelo SportNavo, as conversas para estender o contrato do italiano até 2030 já estão em curso.

O peso histórico de uma decisão inédita

Carlo Ancelotti foi apresentado em maio de 2025 diante de mais de 250 jornalistas, numa cerimônia que reuniu Luiz Felipe Scolari — o técnico do pentacampeonato de 2002 —, o meia Júnior, das Copas de 1982 e 1986, e o campeão do mundo Denílson. A simbologia era clara: o novo ciclo nasceu com a bênção dos guardiões do passado. Ancelotti chegou com um currículo que inclui cinco títulos da Champions League, mas nunca havia vivido a experiência do futebol internacional — jamais dirigira uma seleção nacional antes dos 66 anos.

A conexão do italiano com o Brasil, porém, não é nova. "Minha ligação com o Brasil começou nos anos 80, com Falcão e Cerezo. Depois com Ronaldo, Rivaldo, Kaká, Marcelo, Cafu e agora com Vini, Rodrygo, Militão e Endrick", disse Ancelotti em sua apresentação. Ao longo de 25 anos de carreira como técnico, ele trabalhou com ao menos 43 jogadores brasileiros — um número que rivaliza com o de qualquer comissão técnica da própria Seleção no mesmo período.

O compromisso com o idioma também chamou atenção. Ancelotti contratou um professor de português e passou a ter quatro aulas por semana. Seu tutor, Roberto Piantino, revelou que o treinador chegou a pedir aulas em sábados às 9h da manhã, horário de Vancouver, onde mora com a esposa. "Isso me mostrou o quanto ele levava a sério", disse Piantino à BBC Sport.

O que muda se o contrato for até 2030

O contrato original de Ancelotti — firmado para durar até o fim da Copa do Mundo de 2026 — já representava uma ruptura cultural. Estendê-lo até 2030 seria outra coisa inteiramente. Seria a primeira vez na história que o Brasil comprometeria quatro anos de planejamento com um único técnico estrangeiro, atravessando dois ciclos de qualificação sul-americana e, possivelmente, uma Copa América.

O peso histórico de uma decisão inédita A CBF nunca havia contratado um técnico
O peso histórico de uma decisão inédita A CBF nunca havia contratado um técnico

O presidente da CBF, Samir Xaud, confirmou publicamente em novembro que as conversas eram vistas com otimismo pela federação. "Vejo essa conversa com uma luz positiva. Sempre acredito em construir uma relação de trabalho", afirmou Xaud, acrescentando que as condições estão dadas para uma parceria mais longa. Trata-se de uma postura incomum para uma entidade que, desde 2012, não teve um presidente eleito capaz de completar o próprio mandato.

A comparação quantitativa que melhor ilustra o que está em jogo: nos últimos 24 anos — o exato período de jejum da Seleção —, o Brasil teve 11 técnicos diferentes, uma média de um a cada 26 meses. Um projeto até 2030 significaria a maior continuidade numa função de comando desde os anos de Zagallo, que dirigiu a Seleção em dois períodos e somou mais de uma década à beira do campo.

Alisson, Neymar e os primeiros sinais do novo ambiente

A classificação para a Copa, obtida após uma campanha de qualificação turbulenta — o Brasil terminou em quinto lugar nas eliminatórias, com seis derrotas, mais do que qualquer outra seleção sul-americana que se classificou —, não escondeu as contradições do projeto. Ancelotti optou por convocar Neymar, 34 anos, ausente da Seleção desde 2023, e deixou de fora João Pedro, do Chelsea. A decisão dividiu opiniões, mas o goleiro Alisson, do Liverpool, defendeu o ambiente construído pelo técnico.

"Desde a chegada de Ancelotti, o ambiente foi transformado. Ele carrega uma presença forte e nos dá a tranquilidade de um ambiente focado no trabalho, sem controvérsias. Ele é multicampeão. Ganhou tudo no futebol e está aqui com alegria e entusiasmo. Sua posição talvez tenha mais pressão do que ser presidente do país", disse o goleiro do Liverpool.

A goleada de 6 a 2 sobre o Panamá — no penúltimo amistoso antes do início da Copa — deu sinais concretos de que o elenco responde ao trabalho. Vinícius Júnior, Casemiro, Lucas Paquetá e Danilo marcaram, assim como Rayan, do Bournemouth, que fez seu primeiro gol pela Seleção, e Igor Thiago, do Brentford. Ancelotti, portanto, não depende apenas das estrelas consagradas — há uma renovação em andamento.

"É uma honra liderar a melhor seleção do mundo. Tenho uma grande missão, para que o Brasil possa ser campeão novamente", declarou Ancelotti em sua apresentação, sem esconder a dimensão do desafio.

O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 diante de Marrocos — a primeira seleção africana a chegar às semifinais de um Mundial, feito alcançado no Catar em 2022. Se Ancelotti superar essa fase inicial e conduzir o Brasil além das quartas de final — barreira que a Seleção só transpôs uma vez desde o título de 2002 —, a extensão contratual até 2030 deverá ser anunciada formalmente. A CBF já comunicou que a decisão depende do alinhamento de ambas as partes, mas a vontade da federação está declarada.