Confesso: quando a EFL começou a circular a ideia de expandir os play-offs da Premier League — ou melhor, da Championship — de quatro para seis times, minha reação imediata foi cética. Pensei em mais um daqueles projetos de modernização que morrem na gaveta após dois comunicados e uma reunião de diretores. Mas ao olhar os números e o contexto mais de perto, percebi que subestimei a seriedade da proposta. E o timing não poderia ser mais revelador: a Inglaterra pode ter até 11 clubes em competições europeias na temporada 2026/2027, o que torna a discussão sobre quem sobe para a Premier League mais estratégica do que nunca.

A lógica da expansão e o que ela representa para a Championship

Hoje, o formato dos play-offs da Championship é simples e já consagrado: os clubes que terminam do 3º ao 6º lugar disputam semifinais de ida e volta, e os dois vencedores se enfrentam na grande final de Wembley, decidindo a terceira vaga de acesso à Premier League. A proposta da EFL, revelada pelo The Athletic, insere uma rodada extra: os times classificados entre o 5º e o 8º lugar jogariam uma fase eliminatória prévia, com os vencedores avançando para enfrentar o 3º e o 4º colocados nas semifinais tradicionais. O modelo já existe nas divisões inferiores do futebol inglês — League One e League Two operam exatamente assim há anos.

Quando se olha para a história dos play-offs europeus, o paralelo mais próximo é o da Bundesliga alemã, que mantém um sistema de barreira entre o 16º colocado da primeira divisão e o 3º da segunda. A diferença é que o modelo inglês proposto vai além: amplia a base de competidores, não apenas cria uma ponte entre divisões. Nos anos 90, quando a Premier League foi fundada em 1992, o debate sobre acesso e rebaixamento era igualmente intenso — e a solução encontrada então foi reduzir o número de clubes de 22 para 20, priorizando qualidade sobre quantidade. A EFL agora aposta na direção oposta: mais disputa, mais receita, mais audiência.

A Premier League rejeita a ideia — e tem razões para isso

A oposição da Premier League à proposta não é apenas corporativa. O argumento central da liga é que ampliar o leque de candidatos ao acesso pode diluir a qualidade da primeira divisão, abrindo portas para clubes que terminaram em 7º ou 8º na Championship — posições que, historicamente, indicam times ainda em construção. A liga que fatura mais de 3 bilhões de libras por temporada em direitos televisivos tem motivos financeiros concretos para zelar pelo padrão dos recém-promovidos.

A lógica da expansão e o que ela representa para a Championship A Championship q
A lógica da expansão e o que ela representa para a Championship A Championship q
"Qualquer mudança exigirá a aprovação da Associação de Futebol (FA), que não possui inclinação divulgada até o momento", conforme reportou o Lance!.

Quando se examina o histórico recente, o argumento da Premier League ganha peso. O Burnley, por exemplo, foi rebaixado na temporada 2023/2024 após retornar como campeão da Championship — e o custo financeiro desse rebaixamento foi estimado em mais de R$ 600 milhões em receitas perdidas. Times que sobem com menos preparo estrutural tendem a cair mais rápido, gerando instabilidade que prejudica o produto como um todo. A Premier League não está errada ao levantar essa bandeira.

Quando se analisa o calendário, o entrave é igualmente real. A temporada inglesa já é uma das mais congestionadas da Europa, com Premier League, FA Cup, Copa da Liga e competições europeias disputando espaço. Inserir uma fase extra nos play-offs da Championship exigiria compressão de datas em maio e junho — justamente o período em que os clubes promovidos precisam de tempo para planejar o mercado de transferências.

A síntese que ninguém está dizendo em voz alta

Há uma tensão estrutural no futebol inglês que essa discussão expõe com clareza: a Championship é, hoje, uma das ligas mais competitivas e lucrativas do mundo fora das cinco grandes, com receitas médias por clube que superam as de muitas primeiras divisões europeias. Clubes como Leeds United, que disputam a semifinal da Copa da Inglaterra nesta temporada de 2026, e Nottingham Forest, que chegou às quartas de final da Liga Europa, provam que a segunda divisão inglesa produz times com capacidade real de competir em alto nível. O Forest, aliás, ocupa hoje o 16º lugar da Premier League — o que por si só ilustra como a linha entre as duas divisões é tênue.

"A proposta já conquistou amplo apoio entre os clubes", segundo o The Athletic, citado pelo Lance!.

A síntese mais honesta é a seguinte: a EFL tem razão ao buscar mais competitividade e receita para a Championship, mas a Premier League tem razão ao exigir critérios mais rigorosos de acesso. O caminho do meio — que nenhuma das partes mencionou publicamente ainda — seria vincular a expansão dos play-offs a exigências de infraestrutura e capacidade financeira mínima para os clubes participantes, como a UEFA faz com o licenciamento para competições europeias. Isso preservaria a qualidade da primeira divisão sem fechar a porta para times menores com projetos sólidos.

O processo de aprovação passa obrigatoriamente pela FA, e a entidade ainda não se pronunciou. A votação entre os clubes da Championship, onde a proposta já tem maioria, deve ocorrer antes do fim da temporada 2025/2026 — o que significa que a decisão pode chegar antes de julho. Se aprovada, a nova fase dos play-offs entraria em vigor já na temporada 2026/2027, mudando o mapa do acesso inglês pela primeira vez em décadas.

Se o Leeds subir pela Copa da Inglaterra e a EFL aprovar os play-offs expandidos, a Championship de 2026/2027 terá até oito clubes brigando pela terceira vaga na Premier League — você acha que isso tornaria o torneio mais justo ou apenas mais longo?