Dois jogos, uma mesma noite, o mesmo padrão criminoso. Em 28 de abril, torcedores de equipes argentinas protagonizaram episódios de racismo contra brasileiros em dois jogos simultâneos das competições sul-americanas: um em Belo Horizonte, na partida entre Cruzeiro e Boca Juniors pela Copa Libertadores, e outro em Buenos Aires, no confronto entre San Lorenzo e Santos pela Copa Sul-Americana. A recorrência não é coincidência — é omissão estrutural da Conmebol.

Um padrão que se repete com impunidade

Quem defende a Conmebol costuma argumentar que a entidade já aprovou regulamentos antirracismo e que a responsabilidade recai sobre os clubes, não sobre a confederação. O argumento tem base parcial, mas ignora um dado devastador: desde 2021, ao menos seis episódios de racismo envolvendo torcedores argentinos em competições continentais foram registrados e amplamente documentados, com imagens e denúncias formais. Nenhum clube argentino foi eliminado de competição por conduta racista de sua torcida até hoje.

O regulamento da Libertadores prevê, em tese, desde jogos com portões fechados até a exclusão do torneio para clubes cujos torcedores pratiquem discriminação racial. No entanto, a penalidade máxima aplicada pelo órgão a clubes argentinos nesse período foi uma multa inferior a 30 mil dólares — valor irrisório para entidades que movimentam centenas de milhões anuais em direitos de transmissão. A mensagem que fica é clara: o custo do racismo é barato demais para servir como deterrente.

O silêncio da entidade diante das evidências

Após os dois casos de 28 de abril, a Conmebol emitiu nota genérica reiterando sua política de «tolerância zero» — a mesma frase usada nas últimas quatro oportunidades similares, segundo levantamento do SportNavo. A expressão «tolerância zero», repetida sem punições concretas, tornou-se a piada mais trágica do futebol sul-americano. O Santos, que jogou em Buenos Aires naquela mesma noite, sequer recebeu comunicado oficial da confederação sobre abertura de procedimento disciplinar relacionado ao jogo contra o San Lorenzo até o fechamento desta coluna.

"Não é de hoje que a gente sabe o que pode acontecer quando joga na Argentina. Mas saber não significa aceitar", declarou fonte próxima à delegação do Santos, conforme apuração de portais esportivos brasileiros após o episódio de 28 de abril.

O Cruzeiro, que recebeu o Boca em Belo Horizonte, registrou formalmente a ocorrência junto à delegação de partida. O clube mineiro aguarda retorno da Conmebol, mas o histórico indica que processos disciplinares abertos pela entidade demoram em média 45 dias para ter uma primeira decisão — tempo suficiente para que o clube infrator já tenha disputado mais quatro ou cinco rodadas da competição sem qualquer restrição.

Um padrão que se repete com impunidade A Conmebol pune torcidas argentinas ou s
Um padrão que se repete com impunidade A Conmebol pune torcidas argentinas ou s

Por que a Conmebol protege o status quo argentino

A resposta está no mapa de poder da confederação. A Argentina possui a maior delegação de votos no Conselho da Conmebol entre os países membros, com representação histórica em cargos-chave da entidade. River Plate, Boca Juniors e outros grandes clubes argentinos respondem por uma fatia significativa da audiência televisiva que sustenta os contratos com Fox Sports, ESPN e DAZN na região. Punir severamente esses clubes significa, na lógica financeira da entidade, arriscar audiência e receita — uma equação que o futebol sul-americano nunca esteve disposto a enfrentar.

"A Conmebol age quando a pressão internacional é grande o suficiente para ameaçar sua imagem perante patrocinadores. Enquanto o racismo ficar restrito ao noticiário regional, não haverá mudança real", avaliou o pesquisador de direito desportivo Renato Meirelles, em entrevista ao portal Goal Brasil publicada em fevereiro deste ano.

O que precisa mudar para sair do papel

A análise exclusiva do SportNavo sobre os regulamentos vigentes da Libertadores e da Sul-Americana aponta três lacunas objetivas que permitem a perpetuação do problema. Primeiro, a ausência de monitoramento obrigatório com câmeras de reconhecimento facial nos setores de torcida visitante — tecnologia já adotada na Premier League desde 2019 e que permite identificar e banir agressores individualmente. Segundo, a inexistência de uma escala progressiva de punições com prazo definido: sem calendário claro de julgamento, clubes reincidentes não sofrem consequências reais antes do encerramento dos torneios. Terceiro, a falta de um fundo de reparação gerido pela própria Conmebol, financiado por multas e destinado a programas de combate ao racismo nos países-membros.

A UEFA, para fins de comparação, aplicou punições a 14 federações nacionais por comportamento discriminatório de torcedores entre 2018 e 2023, incluindo jogos com portões fechados e deduções de pontos em fases de grupos. O modelo europeu está longe de ser perfeito, mas a distância em relação ao que a Conmebol pratica é abissal. Cruzeiro e Santos voltam a campo pelas mesmas competições nas próximas semanas — Boca e San Lorenzo também. Sem punição exemplar antes dessas datas, a Conmebol estará enviando, mais uma vez, o mesmo recado de sempre.