É uma locomotiva parada num trilho sem saída. A imagem serve para a proposta que a Copa do Mundo de 2030 quase carregou: ampliar o torneio de 48 para 64 seleções, multiplicar jogos na América do Sul e transformar o centenário do maior evento esportivo do planeta num espetáculo de proporções inéditas. A locomotiva tinha combustível, tinha passageiros animados — e não tinha para onde ir.

A ideia nasceu de uma lógica geográfica legítima. A edição de 2030 será disputada em seis países: Argentina, Uruguai e Paraguai receberão partidas na fase inicial, antes de o torneio migrar para Espanha, Portugal e Marrocos. Com três nações sul-americanas como anfitriãs, a Conmebol enxergou uma oportunidade histórica — e começou a pressionar para que cada uma delas sediasse um grupo completo de quatro seleções, em vez de apenas uma partida simbólica. O resultado aritmético dessa ambição era uma Copa com 64 participantes, 16 a mais do que o formato aprovado para 2026.

A reunião de Nova York e o sonho que não emplacou

O projeto ganhou forma pública em setembro de 2025, numa reunião em Nova York entre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e dirigentes das federações do Uruguai e do Paraguai, além do presidente da Conmebol, Alejandro Dominguez. A Argentina, curiosamente, não enviou representante ao encontro — ausência que já sinalizava que o bloco sul-americano não era monolítico. A proposta era sedutora no papel: cada país anfitrião na América do Sul receberia um grupo inteiro, o que garantiria ao menos seis partidas por sede, volume suficiente para justificar investimento em infraestrutura e mobilizar torcidas locais.

"A ideia encontrou resistência não apenas fora da Conmebol, mas também dentro dela", confirmaram pessoas ligadas às confederações ouvidas pela imprensa especializada.

A frase resume o problema central. Quando uma proposta não consegue nem sequer convencer seus próprios defensores, o caminho até a aprovação numa entidade tão plural quanto a Fifa torna-se virtualmente intransponível. A Conmebol, que reúne dez federações sul-americanas com interesses frequentemente divergentes, não apresentou unanimidade — e a Fifa leu esse sinal com clareza.

A coalizão silenciosa que enterrou o projeto

Enquanto a Conmebol articulava sua proposta nos bastidores, três blocos poderosos se moviam na direção contrária. A Uefa, a Concacaf e a Confederação Asiática de Futebol manifestaram internamente sua oposição às mudanças — e o fizeram de maneira coordenada o suficiente para esvaziar qualquer margem de manobra. A resistência europeia era previsível: a Uefa já havia digerido com dificuldade a expansão de 32 para 48 seleções aprovada para 2026, e uma nova ampliação implicaria calendário ainda mais sobrecarregado para clubes que disputam competições continentais densas.

A oposição asiática carregava outro argumento. A Confederação Asiática de Futebol, que representa mais de 47 federações, já garantiu vagas adicionais no formato de 48 seleções — e uma nova rodada de negociação sobre distribuição de vagas poderia tanto beneficiá-la quanto prejudicá-la, dependendo dos critérios adotados. Diante da incerteza, a posição conservadora prevaleceu. A Concacaf, por sua vez, tem na Copa de 2026 — sediada em Estados Unidos, Canadá e México — o grande palco de sua geração, e qualquer alteração de formato para 2030 poderia criar precedentes incômodos para futuras edições.

Como apurou o SportNavo junto a fontes ligadas ao processo, a Fifa não chegou a levar a proposta a uma votação formal. O descarte foi feito nos bastidores, sem comunicado oficial, numa lógica que o futebol sul-americano conhece bem — como o trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira: o movimento existe, mas não avança.

O que fica para a Copa de 2030 com 48 seleções

Com a rejeição consolidada, a Copa de 2030 mantém o formato de 48 seleções que estreia em 2026. Isso significa que Argentina, Uruguai e Paraguai receberão, cada uma, apenas uma partida da fase de grupos — provavelmente jogos de alto valor simbólico, mas longe do volume que a Conmebol imaginava. O torneio seguirá então para Espanha, Portugal e Marrocos, onde a maior parte dos jogos será disputada.

A decisão tem implicações práticas imediatas. O Uruguai, país de menos de 3,5 milhões de habitantes que sedia a edição comemorativa do centenário — a primeira Copa foi disputada em Montevidéu, em 1930 —, receberá uma única partida num torneio que celebra sua própria história. A Argentina, que não enviou representante à reunião de Nova York, parece ter calculado que a batalha não valia o desgaste político. O Paraguai, que havia demonstrado maior entusiasmo pela ampliação, sai da negociação com o mesmo resultado simbólico.

"A competição terá jogos na Argentina, Uruguai e Paraguai antes de a disputa prosseguir na Espanha, Portugal e Marrocos", confirmou a Fifa em nota sobre o formato do torneio.

A narrativa que circulou nos últimos meses — de que a Conmebol tinha força política suficiente para dobrar a Fifa em nome do centenário — não resistiu ao escrutínio dos fatos. Infantino, que construiu sua gestão sobre a promessa de expansão e inclusão, desta vez optou pelo conservadorismo: alterar o formato de um torneio que ainda está sendo planejado, com seis países anfitriões e logística de três continentes, representava um risco operacional que nenhuma confederação de peso estava disposta a assumir.

A Copa de 2030 começa oficialmente em 8 de junho daquele ano, com a partida inaugural prevista para o Estádio Centenário de Montevidéu — o mesmo palco onde, 100 anos antes, o Uruguai ergueu o primeiro troféu da história. Uma partida. Apenas uma. Gianni Infantino estará na tribuna de honra. Alejandro Dominguez, provavelmente, também.