Não foi descuido pontual nem azar isolado. O que a Copa do Brasil revelou na semana de 13 de maio foi algo mais incômodo: a arquitetura de controle da arbitragem brasileira ainda possui buracos estruturais capazes de alterar resultados concretos, eliminar equipes e expor a CBF a um constrangimento público que nenhuma nota oficial consegue desfazer com facilidade. Dois episódios, em competições distintas, com falhas de natureza oposta, somaram-se para pintar um quadro que a entidade precisará encarar além do expediente punitivo de praxe.
O gol que entrou por fora e o gol que saiu sete minutos depois
Na tarde de quarta-feira, 13 de maio, no estádio Pedro Benedetti, em Mauá (SP), a árbitra Vanessa de Souza Guijansque validou um gol do Mauaense-SP sobre o Itacoatiara-AM pela Copa do Brasil Feminina. O problema estava visível nas imagens que circularam horas depois: a bola passou por fora da rede antes de entrar no gol. O clube amazonense não apenas contestou o lance como divulgou fotografias mostrando a rede rasgada — evidência física que tornava o argumento visual ainda mais difícil de ignorar. Sem VAR na fase, sem tecnologia de linha de gol, a decisão ficou na percepção da equipe de campo, que errou.
Na terça-feira anterior, 12 de maio, em Goiânia, o árbitro Leo Simão Holanda, do Ceará, validou um gol de Hugo Cabral para a Ponte Preta aos 44 minutos do segundo tempo diante da Aparecidense — gol em posição de impedimento claro. A arbitragem reconheceu o gol, a Ponte celebrou, mas sete minutos depois, em meio a uma pressão intensa dos jogadores goianos e a uma confusão que tomou o campo, a decisão foi revertida. A Ponte foi eliminada. O clube campineiro anunciou que recorrerá ao STJD pedindo a anulação da partida, alegando interferência externa na mudança de decisão.
A suspensão do trio e o limite da autoridade da CBF
A resposta institucional veio rápida, ao menos em parte. O Coronel Marcos Marinho, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, confirmou a suspensão de Leo Simão Holanda e dos auxiliares Samuel Oliveira Costa e Eleutério Felipe Marques Júnior, todos do Ceará. A justificativa foi dupla: erro técnico, pela validação do impedimento, e erro de procedimento, pela demora na correção.
"Vimos um equívoco da arbitragem em um primeiro momento e que depois foi corrigido. Avaliamos que houve erro técnico e também erro de procedimento da equipe. O procedimento demorou muito, indo contra a nossa orientação de ser quase imediata. Então, sempre tem uma consequência por não ter seguido as orientações da Comissão", declarou o Coronel Marinho.
Mas a suspensão encontrou um limite revelador: o delegado da partida, Adalberto Grecco, principal alvo das reclamações da Ponte Preta e apontado como possível agente da pressão sobre os árbitros, ficou fora do alcance da Comissão. Marinho foi direto ao admitir que não tem autoridade para puni-lo — a decisão cabe à federação local que o escalou. A distância entre a responsabilidade de escalar e a responsabilidade de punir, nesse caso, é tão grande quanto a que separa Manaus de Salvador: geograficamente é um abismo, administrativamente deveria ser um corredor curto e fiscalizável.
"Conversamos, e eles alegaram que não houve interferência externa. A Ponte está no direito de entrar com ação no STJD, e aí o STJD vai apurar", completou o presidente da Comissão.
O peso das eliminações e o que ficou sem resposta
A Ponte Preta, clube com história de quatro décadas no futebol brasileiro e que chegou a disputar a Libertadores em 1977, foi eliminada na primeira fase de uma Copa do Brasil em que, tecnicamente, pode ter marcado o gol que a classificaria. A equipe de Campinas terminou o jogo em desvantagem numérica na narrativa oficial, mas com a sensação de que o placar foi escrito fora do campo. Já o Itacoatiara-AM, time do interior do Amazonas que viajou mais de 2.500 quilômetros para disputar o torneio, saiu de Mauá derrotado por um gol que as imagens sugerem não ter cruzado a linha de forma legal.
A apuração do SportNavo identificou que, nos dois casos, a ausência de tecnologia adequada foi determinante. No masculino, o VAR existe na Copa do Brasil, mas a janela de sete minutos para a reversão da decisão expõe que o protocolo de comunicação entre árbitro de campo e sala do VAR ainda carece de disciplina operacional. No feminino, a competição segue sem qualquer recurso tecnológico nas fases iniciais, tornando o gol irregular juridicamente contestável, mas operacionalmente irreversível.
O presidente João Carlos Dias Campos, do Itacoatiara, foi além das reclamações protocolares. Segundo a súmula registrada pela árbitra Vanessa Guijansque, o dirigente foi ao centro do campo após o apito final, reiterou acusações de favorecimento e declarou que a atuação da arbitragem seria "uma vergonha". As consequências disciplinares para o dirigente serão apuradas pelo TJD local — mais uma instância que ficou fora do guarda-chuva direto da CBF.
O que a CBF prometeu e o prazo que o calendário impõe
A Comissão de Arbitragem sinalizou revisão de protocolos, e o comentarista Leonardo Gaciba chegou a sugerir publicamente a gravação do áudio dos árbitros durante as partidas como medida de transparência — proposta que Marinho recebeu sem rejeitar, mas também sem comprometer prazo. A Copa do Brasil retoma sua segunda fase em maio, com clubes da Série A e da Série B entrando na disputa, o que significa que o escrutínio sobre a arbitragem só tende a aumentar nas próximas semanas. A Ponte Preta tem até o fim de maio para protocolizar sua ação no STJD.
Numa tarde qualquer em Mauá, uma jogadora do Itacoatiara ficou parada no centro do campo olhando para a rede rasgada — a mesma rede que a bola havia contornado, não atravessado. O gol estava no placar. A rede estava intacta por dentro.










