É um relógio suíço com pavio curto.

A Coreia do Sul de 2026 funciona com precisão nas eliminatórias — 11 vitórias, 5 empates, zero derrotas em 16 jogos, único representante asiático a se classificar invicto —, mas carrega uma tensão interna que pode explodir no momento decisivo. O técnico Hong Myung-bo, lenda viva do futebol coreano e capitão da histórica geração de 2002, chegou a ser vaiado em amistoso na última Data FIFA de 2025. Essa contradição define o que a seleção é hoje: talentosa, consistente na fase classificatória e frágil na hora em que mais importa.

Um elenco com profundidade real, não apenas brilho individual

A convocação divulgada para a Copa do Mundo reúne o que há de mais maduro no futebol sul-coreano. Kim Min-jae, zagueiro do Bayern de Munique, consolida a melhor dupla de defesa central da história recente do país. Ao lado dele, um elenco com experiência europeia distribuída por várias posições: Jeong Woo-yeong, Lee Jae-sung, Hwang In-beom e o atacante Hwang Hee-chan, do Wolverhampton. Son Heung-min, com 33 anos, lidera a convocação como artilheiro máximo da seleção em Copas — 3 gols, igualando Ahn Jung-hwan — e como capitão incontestável. Kang-in Lee, de apenas 25 anos, representa o futuro imediato.

Um elenco com profundidade real, não apenas brilho individual A Coreia do Sul te
Um elenco com profundidade real, não apenas brilho individual A Coreia do Sul te

Os amistosos recentes revelam a fragilidade do grupo: derrota por 4 a 0 para a Costa do Marfim em março de 2026, em Milton Keynes, e por 1 a 0 para a Áustria no mesmo período. São resultados que contrastam com as vitórias sobre Gana (1 a 0), Bolívia (2 a 0) e Paraguai (2 a 0) em novembro de 2025. O padrão é claro — a seleção domina adversários de nível médio e vacila diante de equipes mais físicas e táticas.

O peso histórico de 24 anos sem repetir 2002

A Coreia do Sul disputa sua 12ª Copa do Mundo em 2026, com histórico de 38 jogos, 7 vitórias, 10 empates e 21 derrotas — 39 gols marcados contra 78 sofridos. O quarto lugar de 2002, conquistado como co-sede ao lado do Japão, permanece como pico isolado. Desde então, o país alcançou o mata-mata apenas duas vezes: em 2010, eliminado pelo Uruguai nas oitavas, e em 2022, eliminado pelo Brasil com uma goleada de 4 a 1 no estádio Cidade da Educação, em 5 de dezembro. Em 2014 e 2018, caiu na fase de grupos. O recordista de partidas pela seleção é Hong Myung-bo, o atual técnico — 16 jogos em 4 Copas —, o que torna a pressão sobre ele ainda mais simbólica.

Galego, atacante brasileiro que atua no Bucheon FC e vive o futebol coreano por dentro, descreveu o ambiente ao Flashscore com precisão:

"Aqui a expectativa é muito alta. A Coreia do Sul é um país que vem crescendo no futebol e tem grandes jogadores que já se destacaram na Europa. O que o torcedor espera é que a seleção chegue à fase do mata-mata. Eles acreditam muito nessa seleção."

O Grupo A exige mais do que eficiência classificatória

A Coreia do Sul estreia em 11 de junho contra a Tchéquia, no Estádio Akron, em Guadalajara, às 23h (horário de Brasília). A segunda rodada, em 18 de junho, coloca os sul-coreanos diante do México, no mesmo estádio — o adversário mais perigoso do grupo e com enorme apoio da torcida local. O encerramento da fase de grupos ocorre em 24 de junho, contra a África do Sul, no Estádio BBVA, em Monterrey. O confronto contra o México será o termômetro real: uma equipe que pressiona, tem velocidade nas transições e joga com a arquibancada do seu lado.

Hong Myung-bo tem variado o esquema tático de acordo com o adversário — linha de quatro contra equipes inferiores, três zagueiros quando a pressão aumenta. Essa flexibilidade pode ser virtude ou indecisão, a depender de como o grupo responder ao primeiro adversário de nível.

O peso histórico de 24 anos sem repetir 2002 A Coreia do Sul tem elenco para ir
O peso histórico de 24 anos sem repetir 2002 A Coreia do Sul tem elenco para ir

O que precisa acontecer para os Tigres irem além das oitavas

A Coreia do Sul tem os ingredientes técnicos: um dos melhores zagueiros do mundo, um capitão com 100 gols pelo Tottenham na carreira de clube, e uma geração de meias com passagem pelas principais ligas europeias. O que falta é consistência tática contra adversários que não se intimidam com a intensidade coreana. Desde 2006, foram apenas 9 derrotas em 90 jogos das eliminatórias — domínio continental absoluto que não se replica no palco mundial.

Se a seleção passar pelo Grupo A — o que é factível, dado o nível dos adversários —, enfrentará no mata-mata uma equipe de outra prateleira. A pergunta que Seul inteira vai fazer em julho é: Son Heung-min, aos 33 anos, na que provavelmente é sua última Copa, vai marcar o gol que leva a Coreia do Sul a um quarto de final pela primeira vez desde 2002?