O silêncio que antecede uma lista de convocados tem um peso particular quando uma geração está, literalmente, sendo trocada diante dos olhos do torcedor. Nesta segunda-feira, 18 de maio, a Copa do Mundo ganhou mais uma peça: a Croácia de Zlatko Dalić publicou seus 26 nomes para o torneio que começa em junho nos Estados Unidos, México e Canadá. A sétima participação croata como nação independente — a primeira foi em 1998, na França, com o terceiro lugar histórico de Davor Šuker — chega marcada por uma tensão produtiva entre o que foi e o que está sendo construído.
Modrić no Milan e a herança que ninguém pediu para carregar
Luka Modrić tem 40 anos e joga no Milan. A frase, dita assim, soa quase absurda — mas é factual. O camisa 10 que conduziu a Croácia à final de 2018 na Rússia, onde a equipe perdeu por 4 a 2 para a França, e ao terceiro lugar em 2022 no Catar, com vitória de 2 a 1 sobre Marrocos, segue convocado por Dalić para mais uma Copa. Ao seu lado no meio-campo, Mateo Kovačić, do Manchester City, e Mario Pašalić, da Atalanta, formam uma linha que equilibra experiência e vigor físico. O problema — ou o desafio, dependendo da leitura — é que Modrić não pode ser o motor eterno de uma equipe que precisa aprender a correr sozinha.
A interpretação dominante sobre esta Croácia é a de uma seleção em declínio geracional, vivendo dos reflexos de uma era de ouro que teve em 2018 seu pico absoluto. Há evidências para isso: Ivan Perišić, convocado pelo PSV Eindhoven, tem 36 anos; Andrej Kramarić, do Hoffenheim, faz sua quarta Copa. A média de idade da lista é elevada nos setores de criação e ataque. Quem olha para o papel e vê apenas veteranos não está errado — mas está incompleto.
A contra-leitura que os números das eliminatórias sustentam
A Croácia chegou à Copa de 2026 com campanha invicta nas Eliminatórias Europeias: sete vitórias e um empate em oito partidas, 22 pontos conquistados no Grupo L europeu, à frente de República Tcheca, Montenegro, Ilhas Faroé e Gibraltar. Campanhas assim não se fazem apenas com a memória muscular de veteranos. Joško Gvardiol, 22 anos e titular no Manchester City de Pep Guardiola, é hoje um dos defensores mais completos da Europa. Josip Stanišić, do Bayern de Munique, e Josip Šutalo, do Ajax, compõem uma zaga jovem e tecnicamente sofisticada.
No meio-campo, Martin Baturina, do Como, e Petar Sučić, da Inter de Milão, representam a safra de 22 e 21 anos que Dalić começou a incorporar ao grupo principal. Luka Sučić, da Real Sociedad, tem 23 anos e já acumula experiência em LaLiga. Igor Matanović, atacante do Freiburg, foi convocado pela primeira vez para uma Copa. São nomes que não carregam o peso de 2018, mas que tampouco precisam dele — têm os próprios currículos para apresentar.
O grupo L da Copa — com Copa do Mundo sendo disputada em território americano — reúne Inglaterra, Gana, Panamá e Croácia. A estreia, marcada para 17 de junho no AT&T Stadium em Dallas, coloca croatas e ingleses frente a frente numa revanche simbólica: foi justamente a Croácia que eliminou a Inglaterra na semifinal de 2018, em Moscou, com gol de Modrić e Mandžukić. A seleção inglesa, hoje sob pressão de uma geração de talentos que ainda não entregou um título, chega como favorita no papel — mas os croatas sabem, melhor do que ninguém, o que esse papel vale dentro de campo.
O grupo L e a síntese de uma seleção que se reinventa sem abandonar suas raízes
A síntese honesta sobre esta Croácia é a de uma equipe que não está em transição — está em sobreposição. Modrić e Perišić convivem com Gvardiol e Baturina não por nostalgia do treinador, mas porque Dalić identificou que a ponte entre gerações ainda sustenta peso. A campanha nas eliminatórias europeias, com apenas um ponto perdido em oito jogos, é o argumento mais concreto contra o diagnóstico de decadência.
O goleiro Dominik Livaković, do Dínamo Zagreb, foi herói no Catar ao defender três pênaltis contra o Brasil nas quartas de final. Ante Budimir, do Osasuna, é o centroavante de referência com 14 gols na temporada 2025/2026 pela LaLiga. Petar Musa, do FC Dallas — clube da cidade onde a Croácia estreia —, conhece o gramado do AT&T Stadium melhor do que qualquer adversário no grupo. São detalhes que, somados, constroem algo menos óbvio do que o rótulo de "geração em fim de ciclo" sugere.
Depois de Inglaterra em 17 de junho, a Croácia enfrenta o Panamá em 23 de junho, no BMO Field, e fecha a fase de grupos contra Gana em 27 de junho, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia. Três jogos, três adversários com perfis distintos, e uma seleção que carrega sete Copas de história numa mochila que, ao contrário do que parece, ainda não está pesada demais para correr.
O silêncio que antecede uma lista de convocados tem um peso particular quando uma geração está, definitivamente, sendo construída diante dos olhos do torcedor.










