O São Paulo consegue voltar a ser o time que sofreu menos gols do Brasil em 2023? A pergunta não é retórica por capricho — ela tem uma resposta técnica, e ela passa diretamente pelo retorno de Dorival Júnior, confirmado na manhã desta sexta-feira (15) após reunião entre o treinador e a diretoria tricolor.

O contrato é curto, válido apenas até o fim da temporada 2026. O contexto é pesado: Roger Machado foi demitido na noite de quarta-feira (13), minutos depois da eliminação para o Juventude — clube da Série B — na quinta fase da Copa do Brasil. A derrota escancarou uma fragilidade defensiva que os números já vinham denunciando há semanas.

O que os dados revelam sobre a fragilidade defensiva de 2026

Sob Roger Machado, o São Paulo sofreu gols em 8 dos últimos 10 jogos. Não se trata de uma fase ruim pontual — é uma tendência estrutural. A linha defensiva tricolor operou sem compactação entre os setores, com o bloco médio frequentemente desconectado da linha de quatro defensores. O resultado foi espaço excessivo entre as linhas, explorado por equipes de nível médio e até inferior ao do Tricolor.

O contraste com 2023 é cirúrgico. Na segunda passagem de Dorival, o São Paulo terminou o Brasileirão com uma das três melhores defesas da competição, com média inferior a 1 gol sofrido por jogo ao longo de todo o torneio. O time operava em bloco baixo nas transições defensivas, com linha de pressão ativada entre 35 e 40 metros do próprio gol — uma referência de posicionamento raramente vista com tanta disciplina no futebol brasileiro naquele período.

Como Dorival construiu solidez defensiva e por que isso é replicável

A identidade defensiva de Dorival não é baseada em marcação por zona pura nem em pressing alto constante. Ele trabalha com um modelo híbrido: pressão orientada por setor, com gatilhos definidos para o avanço da linha e recuo rápido quando a bola passa pela primeira linha de pressão. Em 2023, Lucas Moura e Rodrigo Nestor foram peças-chave nesse sistema — o primeiro como referência de pressão no corredor direito, o segundo como pivô de contenção no meio-campo.

Segundo apuração do SportNavo, retornam com Dorival os auxiliares Lucas Silvestre — seu filho — e Pedro Sotero, além dos analistas Guilherme Lyra e João Marcos Soares. A comissão técnica conhece o ambiente do Morumbi e, principalmente, o perfil do elenco atual. Esse fator reduz o tempo de adaptação tática, que em contratos curtos é determinante.

Há um paralelo histórico que ilumina a situação. Em 1992, o São Paulo de Telê Santana também retornou ao clube após uma saída polêmica — e reconstruiu um sistema defensivo que rendeu dois títulos mundiais consecutivos, em 1992 e 1993, com média de 0,6 gols sofridos por jogo nas edições do Mundial de Clubes. A base daquele sistema era idêntica na filosofia: bloco compacto, transição rápida e papéis defensivos claramente atribuídos a jogadores de meio-campo. Dorival não é Telê, mas o princípio é o mesmo.

O que os dados revelam sobre a fragilidade defensiva de 2026 A defesa do São Pau
O que os dados revelam sobre a fragilidade defensiva de 2026 A defesa do São Pau
"Dorival busca dar consistência a um clube que passa por momentos turbulentos dentro e fora de campo", conforme descreveu a cobertura do UOL Esporte ao anunciar o acerto.

O que ainda precisa ser resolvido para o sistema funcionar

O maior problema técnico do São Paulo atual não está na zaga — está na linha de pressão do meio-campo. Sem um pivô de contenção com capacidade de cobrir espaço lateral e proteger os zagueiros centrais, qualquer sistema defensivo se torna permeável. Dorival precisará identificar, nos primeiros treinos, quem ocupa essa função no elenco de 2026.

O contexto institucional também pesa. O impeachment do ex-presidente Julio Casares no ano passado e os conflitos entre Harry Massis e Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo, criaram um ambiente de instabilidade que inevitavelmente afeta o vestiário. Dorival, no entanto, já demonstrou capacidade de blindar grupos em situações adversas — fez isso no Corinthians, onde conquistou a Copa do Brasil de 2025 e a Supercopa do Brasil de 2026 antes de ser demitido em abril após tropeços no Brasileirão.

"O salário de Dorival ficará perto dos R$ 2 milhões mensais", informou o Estadão — valor abaixo dos R$ 3 milhões que recebia no Corinthians, mas acima dos R$ 1,5 milhão pagos a Hernán Crespo, o técnico demitido em março quando o São Paulo liderava o Brasileirão.

O aproveitamento histórico de Dorival no São Paulo é de 53,6% em 92 jogos — 42 vitórias, 22 empates e 28 derrotas. O número é mediano, mas o contexto das conquistas (Copa do Brasil de 2023, superando o Flamengo na decisão) eleva o peso político do retorno. Com o Brasileirão 2026 em andamento e o clube precisando reagir rapidamente na tabela, o primeiro teste real do novo sistema defensivo deve ocorrer já na próxima rodada.