Quando Otto Glória pisou no gramado de Goodison Park, em Liverpool, no dia 19 de julho de 1966, mais do que comandar Portugal contra o Brasil pelas quartas de final da Copa do Mundo, o técnico carioca inaugurava uma era. Pela primeira vez na história, um brasileiro dirigia uma seleção estrangeira no Mundial. Sessenta anos depois, essa influência brasileira nos bancos de reserva pelo mundo chega ao fim: 2026 marcará o primeiro Mundial sem nenhum técnico brasileiro em seleções estrangeiras.

O pioneiro que derrotou Pelé

Otto Glória não apenas abriu caminho, como estabeleceu o padrão mais alto possível. Sua seleção portuguesa conquistou o terceiro lugar na Copa de 1966, até hoje a melhor campanha de um país comandado por técnico brasileiro. O feito ganhou contornos dramáticos quando Portugal enfrentou o Brasil na primeira fase. Glória conhecia bem as limitações da seleção canarinho e não poupou críticas:

"O Brasil tem o melhor futebol do mundo, mas essa é uma das piores seleções", afirmou Otto Glória antes de enfrentar seu país natal.

A estratégia portuguesa foi brutal: marcar Pelé na base da violência. O Rei do Futebol se machucou logo no início da partida e, sem substituições permitidas na época, precisou continuar em campo mancando. Portugal venceu por 3 a 1, com Eusébio superando seu ídolo brasileiro. Era o primeiro de muitos capítulos desta saga.

Parreira e a globalização do futebol brasileiro

Nenhum técnico brasileiro teve presença mais marcante em Copas do Mundo do que Carlos Alberto Parreira. Foram quatro participações comandando seleções estrangeiras: Kuwait (1982), Emirados Árabes Unidos (1990), Arábia Saudita (1998) e África do Sul (2010). Sua trajetória ilustra perfeitamente como os profissionais brasileiros se tornaram sinônimo de competência técnica no mercado internacional.

O ápice dessa influência aconteceu entre 1998 e 2006, quando cinco brasileiros comandaram seleções simultaneamente em um só Mundial. Paulo César Carpegiani (Paraguai), Renê Simões (Jamaica) e o próprio Parreira (Arábia Saudita) dividiram os holofotes em 1998. Oito anos depois, Alexandre Guimarães (Costa Rica), Marcos Paquetá (Arábia Saudita), Zico (Japão) e Luiz Felipe Scolari (Portugal) mantiveram a tradição.

Felipão e o sonho português

Entre todos os casos, talvez nenhum tenha gerado tanta expectativa quanto a chegada de Luiz Felipe Scolari a Portugal. Campeão mundial com o Brasil em 2002, Felipão assumiu a seleção lusa em 2003 com a missão de quebrar um jejum de 40 anos sem títulos importantes. A Copa de 2006 representava a grande oportunidade.

Portugal chegou às semifinais, superando Holanda (1 a 0) e Inglaterra (3 a 1 nos pênaltis) antes de cair diante da França, de Zinedine Zidane. Segundo apuração do SportNavo, Scolari implementou conceitos táticos que revolucionaram o futebol português, especialmente o uso de laterais ofensivos e a marcação por zona no campo defensivo.

O pioneiro que derrotou Pelé A diáspora brasileira que mudou o futebo
O pioneiro que derrotou Pelé A diáspora brasileira que mudou o futebo

O técnico gaúcho também comandou Cristiano Ronaldo em seus primeiros passos rumo à genialidade. O jovem atacante de 21 anos era apenas uma promessa do Manchester United, mas sob orientação de Felipão começou a desenvolver o jogo aéreo e a finalização que o tornariam lenda.

O legado além dos resultados

Mais do que conquistas pontuais, esses 12 técnicos brasileiros exportaram conceitos fundamentais do futebol nacional. Zico levou ao Japão a valorização do toque de bola e da construção desde a defesa. Alexandre Guimarães transformou a Costa Rica numa seleção fisicamente forte, mas tecnicamente refinada. Tim, no Peru de 1982, introduziu conceitos de preparação física que eram revolucionários na América do Sul.

Parreira e a globalização do futebol brasileiro A diáspora brasileira que mudou
Parreira e a globalização do futebol brasileiro A diáspora brasileira que mudou

A influência transcendeu os gramados. José Faria, que comandou Marrocos em 1986, foi pioneiro na preparação psicológica de atletas africanos para competições mundiais. Evaristo de Macedo, no Iraque do mesmo ano, desenvolveu metodologias de adaptação climática que se tornaram referência no futebol asiático.

Agora, com Carlo Ancelotti assumindo a seleção brasileira e nenhum compatriota nosso dirigindo equipes estrangeiras, encerra-se um ciclo histórico. A Copa de 2026 marcará não apenas a primeira vez que o Brasil será comandado por estrangeiro, mas também o fim de seis décadas de presença brasileira nos bancos de reserva mundiais. O futebol global perdeu seus mestres brasileiros, mas mantém para sempre as lições que eles ensinaram.