Quantos zagueiros na Premier League terminam uma temporada com cinco assistências e ainda assim carregam uma pergunta em aberto sobre o próprio futuro no clube? Essa é a contradição que define Marcos Senesi neste momento — e ela merece mais do que uma linha de tabela para ser entendida.

A resposta não é simples. Senesi, nascido em Concordia, na Argentina, em 10 de maio de 1997, chegou à Inglaterra carregando uma dualidade que vai além do passaporte: filho de descendência italiana, ele poderia ter seguido o caminho de tantos sul-americanos que optaram pela Azzurra para acelerar a carreira europeia. Em junho de 2022, quando foi convocado simultaneamente pelas seleções da Itália e da Argentina para a Finalissima, a escolha revelou caráter. Senesi ficou com a Albiceleste — e estreou oficialmente pela seleção argentina dias depois, num amistoso contra a Estônia. É o tipo de decisão que define trajetórias, não apenas currículos.

SANTOS SE CLASSIFICA COM NEYMAR EM CAMPO; ROGER MACHADO DEMITIDO; MOURINHO PRÓXIMO DO REAL MADRID?

O que se vê no AFC Bournemouth de 2026 é um jogador de 185 cm, 80 kg, que usa a camisa 5 com a naturalidade de quem já resolveu a questão da identidade. O problema é que o futebol inglês exige mais do que identidade — exige consistência de nível máximo semana após semana, num ritmo que lembra o trânsito da Avenida Paulista às 18h: você pode ser competente, pode até ser bom, mas se parar por dez minutos, o congestionamento engole qualquer conquista anterior.

O que ele ainda não resolveu

A temporada 2025/2026 de Senesi é, numericamente, a mais completa de sua carreira em termos de participação ofensiva: 35 jogos e cinco assistências para um zagueiro representam uma contribuição que poucos defensores da liga conseguem igualar. Para contextualizar, pense nos laterais-zagueiros que a Bundesliga produziu nos anos 2000 — os Lahms e os Lucíos que redefiniam o papel do defensor como construtor de jogo. Senesi tem essa inclinação técnica, essa vontade de sair com a bola e criar. O problema está no que acontece quando ele precisa apenas destruir.

A temporada anterior, 2024/2025, foi um sinal de alerta: apenas 19 jogos disputados, sem gols e sem assistências. Comparada ao pico de 2023/2024 — 36 jogos, quatro gols e cinco assistências —, a queda de rendimento levanta dúvidas sobre a regularidade física e a capacidade de manter o nível sob pressão. No futebol inglês dos anos 90, quando o Arsenal de George Graham construiu duas defesas campeãs (1989 e 1991) com média de menos de 18 gols sofridos por temporada, o que se exigia de cada zagueiro era justamente isso: a capacidade de ser o mesmo jogador no jogo 38 que era no jogo 1. Senesi ainda não demonstrou essa constância ao longo de uma sequência longa de temporadas.

Onde está hoje em relação a esse buraco

A boa notícia é que a temporada 2025/2026 aponta para uma recuperação consistente. Os 35 jogos disputados são o segundo maior volume de sua carreira registrada — apenas a temporada 2023/2024, com 36 partidas, supera esse número. Isso indica que o problema físico ou de confiança técnica que limitou 2024/2025 foi, ao menos em parte, superado.

A vitória do Bournemouth sobre o Leeds por 1 a 0 em 22 de abril de 2026, com gol de Kroupi, é um exemplo do tipo de resultado que o clube construiu nesta temporada: pragmático, organizado, dependente de uma defesa que não sangra. Senesi faz parte dessa estrutura — e as cinco assistências sugerem que ele é mais do que um componente passivo do sistema. Ele participa da construção, inicia jogadas, conecta linhas. Isso é valioso. Mas no futebol inglês, a narrativa de um zagueiro se constrói também pelos momentos em que ele precisa ser muralha, não arquiteto.

Em termos de comparação com pares na posição, Senesi ocupa um espaço interessante: não é o zagueiro dominante fisicamente no estilo dos italianos dos anos 90 — um Cannavaro ou um Nesta —, nem é o construtor puro que a Espanha de Guardiola exigia de seus defensores. É um meio-termo que funciona bem no modelo de Andoni Iraola no Bournemouth, mas que precisaria de uma definição mais clara para se tornar inegociável.

O caminho técnico para tapá-lo

A lacuna de Senesi não é técnica no sentido estrito — ele tem os fundamentos. É uma lacuna de liderança defensiva, aquele peso de autoridade que os grandes zagueiros carregam e que transforma uma linha de quatro em algo mais do que a soma das partes. Na carreira acumulada disponível, são 91 jogos com quatro gols e nove assistências — números que revelam um defensor participativo, mas que não contam a história de alguém que domina espacialmente uma área de pênalti sob pressão máxima.

O caminho passa por consolidar exatamente o que a temporada atual começou a mostrar: presença constante, semana após semana, sem as oscilações que marcaram 2024/2025. Um zagueiro que joga 35 partidas numa temporada da Premier League já demonstra resistência. O passo seguinte é transformar essa resistência em referência — ser o jogador que os companheiros buscam quando a bola está no ar nos últimos minutos, quando o placar está apertado, quando o adversário empurra. É o que diferenciava um Baresi de um zagueiro competente nos anos 80 do Milan de Sacchi: não era só técnica, era presença gravitacional.

Para Senesi, isso significa também resolver a questão da seleção argentina: com a convocação e a estreia em 2022, ele abriu uma porta que permanece entreaberrada. Consolidar-se como titular indiscutível no Bournemouth é o argumento mais forte que ele pode apresentar ao técnico da Albiceleste.

O que isso destrava na carreira

Se Senesi conseguir manter o volume de 2025/2026 — 35 jogos ou mais — e acrescentar a isso a solidez defensiva que ainda falta, o perfil que emerge é o de um zagueiro com mercado real nos clubes do meio da tabela europeia que sonham em dar o próximo passo. Pense no que o Villarreal fez com Pau Torres antes da venda ao Aston Villa, ou no que o próprio Bournemouth fez com Lloyd Kelly antes de perdê-lo. O clube das Cherries tem histórico de valorizar defensores que combinam construção e solidez.

A dualidade argentina-italiana que definiu sua escolha em 2022 é, também, um ativo de mercado: jogadores elegíveis para a Serie A têm um corredor de acesso natural ao futebol italiano, que nesta temporada 2025/2026 voltou a valorizar zagueiros com perfil de jogo posicional. Um Senesi que resolva a questão da regularidade torna-se um nome plausível para clubes como Atalanta ou Fiorentina — times que precisam de defensores que pensam o jogo, não apenas o interrompem.

Mas tudo isso é condicional. Em 10 de maio de 2027, quando Senesi completar 30 anos, saberemos se esta temporada foi o ponto de inflexão definitivo ou apenas mais um ciclo de boas intenções que o futebol inglês não soube — ou não pôde — converter em algo permanente.