Confesso: quando ouvi falar em TV 3.0 pela primeira vez, em 2023, descartei como mais um jargão de feira de tecnologia, daqueles que prometem revolução e entregam atualização de firmware. Errei. O que a Globo está prestes a estrear durante a Copa do Mundo de 2026 não é uma promessa de futuro distante — é uma mudança de paradigma que começa em 11 de junho, com bola rolando nos Estados Unidos, México e Canadá, e sinal novo chegando às antenas do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

O que a DTV+ entrega que a TV digital comum nunca conseguiu

A Digital Television Plus — batizada comercialmente de DTV+ — representa o terceiro salto geracional da televisão brasileira. A primeira geração foi analógica, em preto e branco. A segunda trouxe cor e, décadas depois, conectividade à internet. A terceira une radiodifusão com camadas digitais acessadas diretamente pelo controle remoto, sem depender de um aplicativo externo ou de uma assinatura de streaming. Imagem em 4K HDR, áudio imersivo, publicidade segmentada geograficamente e — o elemento que mais interessa ao torcedor — interatividade em tempo real durante as transmissões esportivas. Raymundo Barros, presidente do Fórum Sistema Brasileiro de TV Digital e diretor de tecnologia da Globo, define a tecnologia como a digitalização do modelo de relacionamento entre o telespectador e a TV aberta. A analogia que me ocorre é a do vinil ao CD: a música era a mesma, mas a forma de acessá-la mudou tudo.

O decreto presidencial que regulamentou a TV 3.0 estabeleceu um período de convivência de 10 a 15 anos entre o sinal digital atual e o novo padrão — o que significa que ninguém precisará trocar de televisor imediatamente. O ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, foi explícito ao anunciar a regulamentação:

"A implantação será gradual, com um período de convivência entre o sinal da TV digital e o da TV 3.0 por 10 a 15 anos, período que pode ser prorrogado. Será uma migração escalonada a partir das grandes capitais."
Para quem mora fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília, essa gradualidade é tanto uma garantia quanto uma limitação: a expansão para outras regiões não tem cronograma definido.

A Copa como laboratório e vitrine da nova televisão

Escolher a Copa do Mundo para o lançamento oficial da DTV+ não foi acidente. A Globo transmitirá todos os jogos da Seleção Brasileira, a final e metade das 104 partidas do torneio — e fará isso com uma operação de 1.000 horas ao vivo, mais de 500 profissionais envolvidos e 120 enviados especiais distribuídos entre os três países-sede. Transformou.

Para os usuários com equipamentos compatíveis nas três capitais contempladas, a experiência durante os jogos incluirá estatísticas ao vivo sobrepostas à transmissão, acesso a múltiplas câmeras por escolha do próprio telespectador e conteúdos complementares sobre seleções e jogadores — tudo sem sair da tela da TV. O diretor de Esportes da Globo, Renato Ribeiro, descreveu a proposta da cobertura com uma imagem que resume bem a ambição da emissora:

"Na Globo, temos a missão de vestir o Brasil de Copa e, para isso, construímos uma cobertura com várias Copas acontecendo ao mesmo tempo, com formatos e linguagens pensados para diferentes gerações e hábitos de consumo."
A DTV+ é, nesse contexto, a camada mais sofisticada dessa estratégia multiplataforma — que também envolve SporTV em 4K a 60 quadros por segundo, Globoplay com baixa latência e ge.globo com cortes em tempo real.

O que os números revelam sobre os desafios da adoção

O Conselho Diretor da Anatel aprovou mais de R$ 90 milhões em investimentos para impulsionar a TV 3.0 no Brasil — cifra que sinaliza o comprometimento institucional com a tecnologia, mas que também evidencia a escala do desafio. A fase experimental, instalada no Pico do Sumaré com licença temporária do Ministério das Comunicações, cobriu apenas a Zona Sul e a Barra da Tijuca no Rio de Janeiro. O acesso, nessa etapa, ficou restrito a profissionais do setor com protótipos de receptores.

Para o lançamento comercial durante a Copa, o torcedor que quiser acessar os recursos interativos precisará de um conversor e uma antena compatíveis com o novo padrão — equipamentos que a Globo apresentou publicamente no evento de lançamento da estação-piloto. Quem assistir pelo aparelho convencional verá o jogo normalmente, em sinal digital padrão, sem as camadas adicionais. A SportNavo acompanhou os anúncios da emissora e identificou que, ao menos neste primeiro momento, a experiência completa da DTV+ será privilégio de uma parcela pequena do público brasileiro — aquela que mora nas três capitais e já adquiriu os equipamentos certos.

Paulo Marinho, diretor-presidente da Globo, sintetizou a aposta da empresa com uma frase que o próprio Paulo Marinho escolheu para o evento de lançamento da estação-piloto:

"É a TV aberta cada vez mais forte, mantendo a sua relevância. É uma convergência entre o ambiente que conhecemos, da radiodifusão, com os meios digitais. Então a gente vai proporcionar uma televisão mais interativa, mais personalizada, com muito mais qualidade e com uma interatividade bem maior com o consumidor."
A Copa começa em 11 de junho. Os primeiros testes reais da DTV+ em ambiente de alta audiência — com torcedores reais, emoções reais e conexões instáveis — dirão se a promessa se sustenta quando o Brasil entrar em campo.