— Você viu que o Corinthians pagou R$ 676 mil pra uma empresa que nem autorização da Polícia Federal tinha?
— Que empresa? Nunca ouvi falar.
— Exatamente esse o problema.

A troca de três linhas resume o que a diretoria do Corinthians preferia que ficasse nos bastidores. A Mega Assessoria Operacional Ltda foi constituída em 3 de julho de 2025 por Fernando José da Silva, então gerente operacional do clube social — e hoje gerente operacional do CT alvinegro. Em menos de quatro meses de existência, a empresa emitiu três notas fiscais que somaram R$ 676 mil, sem qualquer contrato assinado com o clube, baseada apenas em orientações verbais da diretoria administrativa.

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Três notas fiscais e nenhum contrato assinado com a Mega Assessoria

Os documentos obtidos pelo portal Sports Insider mostram os valores com precisão cirúrgica: R$ 244.627,66 em 11 de setembro de 2025; R$ 208.350,00 em 23 de setembro; e R$ 223.650,00 em 21 de outubro. O detalhe que chama atenção nos registros é a variação na descrição dos serviços — ora "assessoria de qualquer natureza", ora "consultoria econômica", ora "vigilância" — o que indica ausência de padronização contratual e dificulta qualquer auditoria posterior.

Fernando José da Silva, em sua primeira versão, afirmou que a abertura da empresa foi determinada por Fábio Soares, diretor administrativo do clube. Depois, mudou o relato e atribuiu a ordem diretamente ao presidente interino Osmar Stabile.

"Foi uma solicitação do presidente. Tinha duas empresas lá que o presidente tirou, que estavam envolvidas com o crime organizado e, para proteção do clube, ele pediu para emergencialmente serem contratados policiais militares aposentados para fazer a segurança. A Mega Assessoria foi feita para poder fazer o pagamento dessas pessoas. Foi uma questão emergencial, não tinha como"
, declarou Fernando à reportagem do Sports Insider.

A necessidade de substituição teria surgido após a invasão à sede do clube em 31 de maio de 2025 — evento que ocorreu logo depois do afastamento cautelar de Augusto Melo e da posse de Stabile. O Corinthians, em nota oficial, confirmou a contratação emergencial, negou conflito de interesses e informou que o modelo foi encerrado após nova licitação. O que o clube não explicou foi por que uma empresa criada por funcionário próprio, sem CNPJ compatível com segurança patrimonial e sem registro na Polícia Federal, foi a solução escolhida para uma crise de segurança.

O padrão irregular que antecede a Mega Assessoria no clube

A Mega Assessoria não foi a primeira empresa irregular a operar a segurança do Parque São Jorge. Relatórios da Comissão de Justiça e do Conselho de Orientação (Cori) do clube já apontavam que a Workserv Serviços Terceirizados, contratada anteriormente, também não tinha autorização da PF e apresentava CNAE incompatível com atividades de segurança. A Workserv cobrava mais de R$ 340 mil mensais — um salto de aproximadamente 125% em relação à Verssat Segurança, empresa anterior que prestava os mesmos serviços por cerca de R$ 150 mil. A Polícia Federal esteve no Parque São Jorge em 26 de junho de 2025 para questionar o departamento jurídico sobre essa contratação. No dia seguinte, a Workserv foi substituída.

O SportNavo apurou que esse padrão de contratações sem licitação, com empresas sem habilitação legal, atravessa pelo menos duas gestões distintas do clube — o que torna a tese da "emergência pontual" cada vez menos sustentável perante os investigadores.

O MP e os R$ 3,4 milhões em dinheiro vivo que ampliam o escopo da investigação

Enquanto a questão da Mega Assessoria ainda tramita nos conselhos internos, o Ministério Público abriu frente mais grave: a apuração de R$ 3,4 milhões em dinheiro vivo repassados a João Odair de Souza, o "Caveira", que chefiou o setor de segurança do clube entre 2018 e 2023, nas gestões de Andrés Sanchez e Duilio Monteiro Alves. Grande parte dos valores não tem comprovação formal — sem notas fiscais, sem recibos. Após o clube encaminhar planilhas com os registros das retiradas, o promotor corrigiu os valores pela inflação: a cifra atualizada ultrapassa R$ 7,3 milhões. Para ter dimensão do tamanho disso, esse montante equivale a mais do que o dobro do que o clube gastou com toda a folha salarial das categorias de base em um ano típico de gestão austera.

Caveira admitiu em entrevista que operava pagamentos em espécie para contratar seguranças autônomos — frequentemente policiais em horário de folga — e cobrir despesas operacionais menores.

"Muitos profissionais atuavam como freelancers e, em vários casos, eram policiais em horário de folga. Por esse motivo não havia emissão de nota fiscal"
, explicou. Ele afirmou ainda que apresentava relatórios ao departamento financeiro e nunca foi questionado pelo Conselho Fiscal durante os cinco anos em que ocupou o cargo.

A investigação do MP se estende a outros ex-funcionários do período, entre eles Denilson Grillo, ex-motorista ligado à gestão Duilio. A Promotoria tenta agora rastrear a destinação exata dos recursos e definir se houve irregularidade administrativa ou conduta criminal. O prazo para o clube responder formalmente às intimações encerra nas próximas semanas — vale acompanhar os desdobramentos, porque a resposta do Corinthians ao MP vai definir se o caso permanece em esfera administrativa ou migra para ação penal.