Voltou. Vinte e oito anos depois de Saint-Denis, a Escócia está de volta à Copa do Mundo — e desta vez com um elenco que mistura veteranos de alto nível europeu com jovens que nunca viram seu país disputar o torneio. Steve Clarke anunciou nesta terça-feira, 19 de maio, os 26 convocados que representarão os escoceses no Grupo C, ao lado de Brasil, Marrocos e Haiti. O confronto com o Brasil está marcado para 24 de junho, no Hard Rock Stadium, em Miami.
O que os bastidores da convocação escocesa revelam sobre o projeto de Clarke
A escolha de Ross Stewart, do Southampton, é o dado mais revelador da lista. O atacante passou quatro anos fora da seleção — período marcado por lesões recorrentes que chegaram a colocar em dúvida sua carreira no nível mais alto — e retorna após uma sequência de cinco gols em dez jogos pelo clube inglês nesta temporada. Clarke não convoca por nostalgia: Stewart, quando está em forma, é um centroavante físico, de referência, que faz o jogo aéreo da Escócia funcionar de verdade.
O outro nome que domina a conversa nos bastidores é Craig Gordon, goleiro do Hearts com 43 anos. Segundo a comissão técnica escocesa, Gordon foi convocado por seu domínio de área e liderança no vestiário — qualidades que nenhum dos outros goleiros da lista, Angus Gunn (Nottingham Forest) e Liam Kelly (Rangers), ainda demonstrou no mesmo nível. Se Gordon entrar em campo na Copa, estará entre os jogadores mais velhos a atuar em uma edição do torneio na história.
A convocação também traz Findlay Curtis, meia-atacante de 19 anos que passou pelo Kilmarnock e representa a aposta geracional de Clarke. Ao lado de Billy Gilmour e Scott McTominay — ambos no Napoli de Antonio Conte nesta temporada — Curtis forma uma linha de meio-campo com capacidade técnica acima da média histórica escocesa.
O estilo de jogo da Escócia e os paralelos com gerações que também voltaram sem passar da fase
A Escócia de 1998 — a última a disputar uma Copa — chegou à França com Craig Burley, Colin Hendry e um certo Kevin Gallacher, saiu na fase de grupos com uma derrota para o Brasil por 2 a 1 e uma eliminação dolorosa diante da Noruega. Naquele time, o padrão era o mesmo que persiste até hoje: organização defensiva sólida, transição rápida e dependência excessiva de um centroavante de área para criar perigo. Em 26 edições de Copa do Mundo, a Escócia nunca passou da fase de grupos — oito participações, zero avanços.
O que mudou em 2026 é a qualidade individual no meio-campo. McTominay terminou a temporada 2025/2026 pelo Napoli como um dos meias mais completos da Serie A — box-to-box, com capacidade de chegada e de desarme. John McGinn, pelo Aston Villa, acumula mais de 60 partidas pela seleção e é o motor criativo que conecta defesa e ataque. Andy Robertson, lateral do Liverpool com mais de 70 internacionalizações, segue sendo o melhor jogador escocês em atividade e o principal responsável pela saída de bola. A espinha dorsal existe e é europeia de alto nível.
"Temos qualidade para competir com qualquer seleção nesta Copa", afirmou Steve Clarke ao anunciar a lista, segundo comunicado oficial da Federação Escocesa de Futebol.
O problema estrutural da Escócia — e o SportNavo identificou isso ao cruzar os dados das Eliminatórias Europeias — é a dependência do sistema 4-2-3-1 com bloqueio médio. Quando o adversário tem velocidade nas costas da linha defensiva, a Escócia sangra. Grant Hanley e Jack Hendry formam uma dupla central competente, mas não veloz. Dom Hyam, do Wrexham, foi convocado como opção de cobertura, o que diz muito sobre a profundidade defensiva disponível.
Onde o Brasil pode e deve castigar a Escócia em Miami
A chave tática para o Brasil é simples de enunciar e difícil de executar mal: velocidade nas costas. A linha defensiva escocesa defende em bloco, sobe junto e deixa espaço entre a última linha e o goleiro quando é pressionada a recuar rapidamente. Nos anos 90, a Holanda de Bergkamp e Clarence Seedorf fez isso contra a Escócia nas eliminatórias da Euro 96, vencendo por 3 a 0 em Glasgow — exatamente porque usou bolas em profundidade para atacantes que corriam atrás da linha.
Robertson é o maior perigo escocês no ataque e, ao mesmo tempo, o maior risco defensivo. O lateral do Liverpool avança com frequência e deixa o flanco esquerdo exposto em transições. Qualquer ponta direita brasileira com velocidade — e o Brasil tem mais de uma opção nesse perfil — pode explorar esse corredor de forma sistemática.
"Robertson é o nosso melhor jogador, mas quando ele sobe, precisamos de cobertura", reconheceu o próprio Clarke em entrevista coletiva antes de anunciar a lista, indicando que o técnico já tem consciência da vulnerabilidade.
Ross Stewart é o pivô que a Escócia vai usar para ganhar disputas aéreas e segurar a bola no terço ofensivo. Com 1,88 m e cinco gols em dez jogos pelo Southampton nesta temporada, ele é fisicamente capaz de incomodar qualquer zagueiro. O Brasil precisará de um zagueiro que jogue bem no ar e que não se assuste com o jogo direto — uma característica que a Escócia vai explorar desde os primeiros minutos.
A jornada escocesa na Copa começa antes do confronto com o Brasil: no dia 13 de junho, eles enfrentam o Haiti no Gillette Stadium, e em 19 de junho medem forças com Marrocos, também no Gillette. O desempenho nesses dois jogos vai definir com que pressão — ou com que leveza — a Escócia chega ao Hard Rock Stadium em 24 de junho. Uma Escócia classificada joga diferente de uma Escócia eliminada, e o Brasil precisará estar atento a esse contexto quando escalar sua equipe para o confronto.










