O que acontece com uma tradição de 60 anos quando ela troca de mãos? A pergunta não é retórica no sentido decorativo — ela é o centro de uma decisão anunciada pela Copa do Mundo nesta quinta-feira, 7 de maio de 2026, quando a Fifa comunicou oficialmente o encerramento de sua parceria com a Panini e a assinatura de um acordo de licenciamento exclusivo com a Fanatics para a produção de álbuns de figurinhas, cards colecionáveis e jogos de cartas.

A resposta não vem em linha reta. A Panini não é apenas uma empresa italiana de impressão gráfica; ela é, para pelo menos três gerações de brasileiros, o cheiro de cola, o envelope aberto com cuidado e a figurinha repetida trocada na porta da escola. Esse capital simbólico não transfere contrato.

A Fanatics, por sua vez, é uma corporação americana avaliada em cerca de 31 bilhões de dólares, especializada em merchandise esportivo digital e físico, com presença consolidada na NFL, NBA e MLB. Seu modelo de negócio é orientado por dados de consumo, personalização em escala e integração com plataformas digitais — uma lógica radicalmente distinta da que construiu o álbum da Copa como objeto afetivo de massa.

Seis décadas de Panini e o que os números revelam sobre esse mercado

A Panini produziu seu primeiro álbum oficial de Copa do Mundo em 1970, para o torneio do México. Desde então, a empresa italiana esteve presente em todas as 14 edições seguintes, incluindo a Copa de 2022 no Catar, que gerou um dos maiores volumes de pedidos da história da empresa — estimativas do setor apontam para mais de 500 milhões de pacotes de figurinhas vendidos globalmente naquela edição.

No Brasil, o mercado de colecionáveis da Copa movimenta centenas de milhões de reais por ciclo. Um levantamento da Associação Brasileira de Licenciamento (Abral) indicou que produtos licenciados da Copa de 2022 superaram R$ 1,2 bilhão em vendas no país, com os álbuns de figurinhas respondendo por parcela significativa desse total. A Panini detinha, até agora, posição praticamente monopolista nesse segmento.

A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, será a primeira edição com 48 seleções — o que amplia o volume de figurinhas necessárias para completar um álbum e, consequentemente, o custo médio para o consumidor. Segundo apuração do SportNavo, fontes do setor estimam que a transição para a Fanatics poderá alterar tanto a política de preços quanto os canais de distribuição, especialmente em mercados emergentes como o Brasil, onde a capilaridade das bancas e papelarias foi historicamente o principal vetor de acesso ao produto.

O que a Fanatics representa além da troca de logotipo

A Fanatics não é uma recém-chegada ao universo dos colecionáveis esportivos. Em 2021, a empresa adquiriu a Topps — tradicional fabricante americana de cards de beisebol e futebol — por aproximadamente 500 milhões de dólares, consolidando sua posição no segmento. A compra da licença Fifa segue essa estratégia de verticalização: controlar o licenciamento, a produção e a distribuição digital de colecionáveis em escala global.

O modelo da Fanatics privilegia a experiência digital integrada. Cards físicos com QR codes, plataformas de troca online, edições limitadas com autenticação blockchain e leilões virtuais são ferramentas já utilizadas pela empresa em outros esportes. Para o colecionismo de figurinhas de Copa, isso representa uma ruptura com a gramática analógica que definiu o produto por décadas.

"A Fanatics tem a infraestrutura tecnológica para transformar o colecionismo em experiência conectada, mas a pergunta é se o consumidor brasileiro — acostumado a comprar figurinhas na banca por dois reais — vai embarcar nessa jornada digital", avaliou um executivo do setor de licenciamento esportivo, em conversa reservada com esta colunista.

A questão da distribuição em países com alta informalidade comercial, como o Brasil, é um nó estrutural. A Panini construiu ao longo de décadas uma rede de distribuidoras regionais que alcança municípios do interior com poucos milhares de habitantes. Replicar essa capilaridade exige investimento logístico que vai além da competência digital da Fanatics.

O que a troca significa para quem coleciona e para quem vende sonhos de papel

Há uma dimensão sociológica nessa transição que merece atenção. O álbum de figurinhas da Copa cumpre, em sociedades de média e baixa renda, uma função que vai além do entretenimento: ele é um dos raros produtos de consumo popular associados a um megaevento global ao qual a maioria das pessoas jamais terá acesso presencial. Completar o álbum é uma forma de participação simbólica na Copa.

Pesquisa do Instituto DataFolha realizada durante a Copa de 2022 mostrou que 34% dos brasileiros adultos compraram ao menos um pacote de figurinhas durante o período do torneio — um índice que supera a audiência de muitos esportes nacionais. Entre crianças de 6 a 14 anos, o percentual chegou a 61%. Esses números revelam um produto com penetração social raramente alcançada por qualquer item de merchandising esportivo.

"Quando você muda quem faz a figurinha, você não está apenas trocando de fornecedor. Você está potencialmente redefinindo quem pode participar desse ritual coletivo", disse a pesquisadora de consumo cultural Vera Menezes, da Fundação Getulio Vargas, em entrevista concedida em março de 2026 sobre tendências do mercado de licenciamento esportivo.

O risco concreto é a elitização do produto. Se a Fanatics optar por um modelo centrado em colecionáveis premium — edições limitadas, cards numerados, experiências digitais pagas —, o álbum tradicional pode perder espaço de prateleira ou ter seu preço unitário elevado de forma incompatível com o poder de compra da maioria dos consumidores brasileiros. A Copa de 2026 começa em junho do mesmo ano; a Fanatics terá pouco tempo para provar que consegue manter a escala popular que a Panini construiu.

Numa banca de jornal em Taguatinga, no Distrito Federal, uma criança de oito anos abre o último pacote que comprou com moedas juntadas durante a semana. A figurinha que sai é repetida. Ela suspira, dobra o papel com cuidado e guarda no bolso — porque repetida ainda pode virar troca. Essa cena existe há 60 anos. Se vai existir daqui a quatro, sob o selo da Fanatics, é a pergunta que o mercado ainda não sabe responder.