É um relógio suíço com pavio curto.
Essa imagem define com precisão o mandato que Kassio Nunes Marques iniciou em 10 de maio de 2026 à frente do Tribunal Superior Eleitoral. O mecanismo funciona, os ponteiros giram com elegância, mas o temporizador está correndo — e o primeiro turno das eleições gerais chega em outubro, a menos de cinco meses de distância. A posse foi celebrada, os sambas foram cantados, os charutos foram acesos. Agora vem a parte difícil.
A narrativa da festa e o que ela esconde sobre o momento
A imagem que circulou na madrugada de quarta-feira, 13 de maio, foi a de um ministro recém-empossado cantando "Vou Festejar" ao lado de Jorge Aragão, Dudu Nobre e Ivo Meirelles, em uma casa de festas à beira do Lago Paranoá, em Brasília. Os ingressos custavam R$ 800, o uísque era Johnnie Walker Gold Label e a lista de convidados incluía ministros do STF, advogados de prestígio, o cantor Gusttavo Lima e o ex-técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo. Cerca de mil pessoas estiveram presentes. Nunes Marques ainda entoou "É Hoje", clássico da União da Ilha do carnaval de 1982.

A festa virou o assunto do dia. E, ao virar o assunto do dia, acabou funcionando como cortina para a discussão que realmente importa: o que a nova gestão do TSE tem de concreto para enfrentar o ambiente eleitoral mais tecnologicamente hostil da história brasileira.
Não há tragédia: há contabilidade. O tempo entre a posse e o primeiro turno é de aproximadamente 150 dias. É pouco para qualquer presidente de tribunal. É especialmente pouco para quem herda uma pauta de desinformação que a gestão anterior deixou estruturada, mas não encerrada.
O que Nunes Marques herda de Cármen Lúcia e o que ainda falta regulamentar
A ministra Cármen Lúcia antecipou a saída da presidência do TSE justamente para dar tempo hábil à transição — ela própria afirmou que uma mudança de comando muito próxima ao pleito "compromete a tranquilidade administrativa" do período eleitoral. Foi a primeira mulher a presidir a Corte eleitoral por dois ciclos consecutivos. Com sua saída, o TSE só voltará a ser comandado por uma mulher daqui a pelo menos 18 anos, dependendo de como for preenchida a vaga em aberto no STF.
"Discrição, imparcialidade e fundamentação de decisões." — André Mendonça, vice-presidente do TSE e futuro sucessor de Nunes Marques na presidência da Corte.
Essa frase do ministro André Mendonça, também indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, resume o tom que a nova dupla quer imprimir. O mandato de Marques vai até 2028, quando Mendonça assume. Pela primeira vez em décadas, o TSE será presidido por ministros de um mesmo perfil ideológico por dois ciclos eleitorais seguidos.
O desafio técnico, contudo, não tem viés: deepfakes, vídeos sintéticos gerados por inteligência artificial, áudios clonados e perfis automatizados de desinformação já foram regulamentados pela Corte em ciclos anteriores, mas a tecnologia avança mais rápido do que qualquer resolução. O TSE aprovou normas para uso de IA nas campanhas, mas a aplicação dessas regras em tempo real — monitorar, identificar, derrubar e punir em horas, não em semanas — ainda é um gargalo operacional. Segundo apuração do SportNavo, especialistas em segurança eleitoral apontam que o volume de conteúdo sintético esperado para outubro de 2026 é pelo menos três vezes maior do que o registrado nas eleições de 2022.
O que muda de fato na segurança eleitoral sob o novo comando
Decidiu.
A escolha de Nunes Marques por uma postura de menor exposição pública pode ser, ao mesmo tempo, um ativo e um risco. Gestões discretas tendem a gerar menos ruído político, o que é útil em um ano eleitoral em que qualquer declaração do presidente do TSE vira munição para algum campo. Mas a luta contra desinformação exige comunicação ativa, rápida e direta com o eleitorado — algo que demanda exatamente o perfil oposto ao da "discrição".
O TSE tem hoje uma estrutura de monitoramento que inclui parcerias com plataformas digitais, um canal de denúncias e um sistema de checagem integrado com agências de fact-checking credenciadas. O que falta é velocidade. Em 2022, o tempo médio entre a identificação de um deepfake eleitoral e sua remoção das principais plataformas foi de 72 horas — tempo suficiente para que um vídeo falso alcance dezenas de milhões de visualizações.
"O processo de transição na chefia da Corte, quando muito próximo da data do pleito, compromete a tranquilidade administrativa que deve haver durante o período eleitoral." — Cármen Lúcia, ex-presidente do TSE, ao anunciar a antecipação de sua saída.
A presença de Flávio Bolsonaro entre os convidados da festa de posse de Nunes Marques — filho do ex-presidente que indicou o próprio ministro ao STF — alimentou leituras políticas imediatas. A oposição e setores do campo progressista já sinalizam que acompanharão com lupa cada decisão da Corte sobre candidaturas, propaganda eleitoral e julgamentos de inelegibilidade ao longo de 2026. O TSE vive, portanto, sob escrutínio duplo: técnico e político.
A próxima etapa concreta do calendário eleitoral é a janela partidária, que se abre em abril de 2026 e define os movimentos de filiação antes do prazo de registro de candidaturas em agosto. Nunes Marques terá que conduzir as sessões do TSE sobre esses temas em meio a um ambiente de polarização que não dá sinais de arrefecer. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro de 2026, e o segundo para 25 de outubro. A festa acabou.








