A última vez que um modelo estatístico de grande repercussão acertou o desfecho de um jogo de Copa do Mundo sem acertar o resultado mais provável foi na edição de 2018, quando algoritmos de institutos europeus previram vitória da Alemanha sobre a Coreia do Sul e o empate — segunda ou terceira opção nas simulações — teria salvado os alemães do vexame histórico. Não salvou, mas a lógica matemática ficou registrada: o segundo cenário mais provável é frequentemente o que o futebol escolhe para humilhar os favoritos. Na noite de quinta-feira, 25 de junho de 2026, no Levi's Stadium, em Santa Clara, o esporte repetiu essa lição com elegância quase didática.
O confronto entre Paraguai e Austrália, válido pela terceira e última rodada do Grupo D da Copa do Mundo de 2026, terminou em 0 a 0. O resultado classificou os australianos para as oitavas de final e deixou o Paraguai aguardando os outros placares do grupo para saber se avança. Antes da partida, a Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EMAp) havia publicado suas probabilidades: vitória australiana com 40,7%, empate com 30,7% e vitória paraguaia com apenas 28,6%. O modelo não acertou o resultado mais provável — acertou o segundo.
O que o modelo da FGV realmente disse antes do jogo
O projeto da FGV/EMAp não é novidade no cenário das Copas. Esta é a terceira edição consecutiva do torneio para a qual a escola desenvolve um modelo preditivo, combinando o método Dixon-Coles — desenvolvido originalmente em 1997 pelos estatísticos Mark Dixon e Stuart Coles para modelar placares de futebol — com inferência bayesiana aplicada em milhares de simulações. O resultado mais esperado pelo modelo para o duelo era uma vitória australiana por 0 a 1, com probabilidade de 15,2%. Logo atrás, o empate sem gols aparecia com 14,4% — o exato placar que o jogo produziu. O empate por 1 a 1 completava o pódio dos cenários mais prováveis, com 12,8%.
Traduzindo: o modelo errou o resultado mais provável por uma margem de apenas 0,8 ponto percentual em relação ao segundo cenário. Em termos estatísticos, isso não é erro — é a confirmação de que a partida estava, de fato, dentro da faixa de incerteza prevista. Conforme registrado pelo SportNavo antes do apito inicial, o próprio modelo sinalizava um confronto equilibrado, sem margem de favorito claro para o Paraguai.
"Quando as probabilidades estão todas abaixo de 50% para o resultado mais provável, o modelo está essencialmente dizendo que qualquer coisa pode acontecer — e o futebol costuma concordar", explicou um analista de dados esportivos consultado pela redação, sem vínculo com a FGV.
O jogo que o modelo não viu mas os números sentiram
O empate 0 a 0 no Levi's Stadium foi um daqueles jogos que a estatística captura bem mas a narrativa resiste em aceitar. No primeiro tempo, a Austrália criou a chance mais clara: aos três minutos, Jackson Irvine foi acionado na área e soltou o pé, mas o goleiro paraguaio Gill fez a defesa. Aos 18 minutos, Volpato acionou Bos pela direita, que chutou sem direção. O Paraguai melhorou na segunda etapa: aos quatro minutos do segundo tempo, Maurício arriscou de longe e parou em Beach; seis minutos depois, Enciso abriu para Cáceres, que chutou por cima. Aos 47 minutos, já em desespero, Maurício recebeu na entrada da área e obrigou Beach a uma boa defesa. O 0 a 0 resistiu.
O técnico australiano Tony Popovic escalou uma equipe compacta, com Herrington, Circati e Souttar na linha defensiva, e a estratégia funcionou. Do lado paraguaio, o técnico Gustavo Alfaro apostou em Enciso e Ávalos no ataque, mas a dupla não conseguiu furar o bloqueio adversário. O único cartão amarelo distribuído pelo árbitro foi para Irvine, da Austrália, e para Diego Gómez, do Paraguai — sinal de um jogo tenso mas sem grandes explosões.
Quando o segundo mais provável vira o mais real
Há um paralelo histórico que merece atenção aqui. Na Copa de 2014, no Brasil, modelos estatísticos desenvolvidos por universidades alemãs — entre elas o grupo de pesquisa da Universidade de Dortmund — previram a semifinal entre Brasil e Alemanha como equilibrada, com empate como segunda opção mais provável. O que aconteceu foi o 7 a 1. Mas em dezenas de outros jogos daquele torneio, os modelos acertaram o cenário geral mesmo sem acertar o placar exato. A utilidade dos algoritmos preditivos não está em adivinhar o futuro — está em mapear o território de possibilidades com honestidade matemática.
O modelo Dixon-Coles, especificamente, foi concebido para corrigir uma distorção clássica nos modelos de Poisson aplicados ao futebol: a subestimação de placares baixos, especialmente o 0 a 0 e o 1 a 0. Ao calibrar essa correção, o método tende a ser mais preciso justamente nos jogos de baixa pontuação — e o empate sem gols entre Paraguai e Austrália é exatamente o tipo de resultado que o modelo da FGV/EMAp estava preparado para considerar com seriedade, ao atribuir 14,4% de probabilidade a esse placar específico.
O que muda para Austrália e Paraguai depois do apito final
Com o empate, a Austrália garantiu sua classificação para as oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Os australianos enfrentarão o segundo colocado do Grupo G na segunda fase, com a partida marcada para sexta-feira, 3 de julho de 2026, às 15h (horário de Brasília), no AT&T Stadium, em Dallas. O Paraguai, por sua vez, aguarda os resultados dos outros grupos para saber se avança como um dos melhores terceiros colocados — uma posição que a Copa de 2026, com seu formato expandido para 48 seleções, tornou matematicamente viável.
Para quem acompanha o futebol com interesse nos modelos preditivos, o jogo de Dallas entre Austrália e o segundo do Grupo G vale atenção especial: será mais uma oportunidade de medir como os algoritmos da FGV/EMAp se comportam diante de confrontos eliminatórios, onde a pressão psicológica e as variáveis táticas tendem a embaralhar as probabilidades com mais força do que na fase de grupos. Vale gravar o jogo de 3 de julho — e conferir, ao lado das probabilidades do modelo, o que o futebol decidirá fazer com elas.








