Confesso: quando o escândalo envolvendo Thomas Partey estourou na imprensa britânica, em 2023, eu achei que a Fifa agiria rápido. Trabalhei anos como correspondente em Barcelona e Milão, cobri casos delicados envolvendo jogadores de grandes clubes, e aprendi que organismos como a Fifa costumam se mover quando a pressão midiática se torna insuportável. Errei. Em Boston, na terça-feira (23), Partey entrou em campo na Copa do Mundo carregando sete acusações de violação e uma de agressão sexual — enquanto a entidade que governa o futebol mundial seguia em silêncio absoluto.
O gesto de Spence e o peso de uma mão no bolso
O protocolo de cumprimento antes de uma partida de Copa do Mundo dura menos de dois minutos. Mas no Gillette Stadium, em Foxborough, aqueles instantes concentraram uma tensão que a transmissão oficial preferiu não mostrar. Foi o canal ganês 3Sports que publicou o vídeo: Djed Spence, lateral do Tottenham, colocou as mãos nos bolsos do casaco ao se aproximar de Partey, esperou o próximo jogador de Gana e seguiu adiante. O ganês encarou, não disse nada e continuou. A torcida no estádio vaiou Partey cada vez que ele tocou na bola — uma resposta popular ao que a burocracia esportiva se recusou a dar.
Spence foi o único inglês a tomar essa postura. A Federação Inglesa de Futebol — a FA — havia avaliado orientar o elenco sobre os cumprimentos, segundo o The Times, mas o Telegraph confirmou que nenhuma diretriz oficial foi emitida. O lateral agiu por conta própria e explicou depois, em comunicado:
"Tenho minhas crenças e vivo de acordo com elas. Minha fé guia minhas decisões, e sei o que minhas escrituras me ensinam. As pessoas são livres para interpretar o que aconteceu como quiserem, mas não vou entrar em detalhes nem me explicar."
E ainda acrescentou, dirigindo-se diretamente aos torcedores ingleses que criticaram o gesto:
"Aos torcedores da Inglaterra, se minhas ações decepcionaram ou incomodaram alguém, peço sinceras desculpas. Essa nunca foi minha intenção. Respeito todas as pessoas, mas também preciso ser fiel às minhas convicções."
O que diz o regulamento da Fifa sobre acusações criminais
Partey, de 32 anos — 33 segundo fontes portuguesas —, responde a acusações de crimes que teriam ocorrido entre 2020 e 2022, quando defendia o Arsenal. Ele se declarou inocente. O julgamento está agendado para 2027 no Reino Unido. Em 2025, chegou a ser preso na Inglaterra e liberado mediante fiança, com a condição de não contatar as acusadoras e de informar qualquer viagem internacional. Mesmo assim, jogou a Copa. A única barreira concreta que ele enfrentou foi burocrática: o Canadá negou seu visto, fazendo-o perder a estreia de Gana — uma vitória por 1 a 0 sobre o Panamá.

O Código Disciplinar da Fifa prevê sanções para comportamentos que "ofendam a dignidade ou a integridade" do futebol, mas a entidade historicamente interpreta esse artigo de forma restritíssima — aplicando-o a racismo dentro de campo, manipulação de resultados ou doping, raramente a processos criminais externos. A lógica interna da Fifa é a presunção de inocência: enquanto não houver condenação, o jogador mantém o direito de competir. Essa mesma lógica foi invocada — com alguma coerência jurídica, diga-se — nos anos 1990, quando a entidade resistiu a afastar jogadores investigados por doping antes do resultado final dos exames. A diferença é que naqueles casos havia um processo esportivo paralelo. Aqui, não há absolutamente nada.
O contraste com outros episódios é revelador. Em 2021, a Fifa afastou preventivamente o árbitro Massimiliano Irrati — cotado para apitar jogos da Copa do Mundo 2022 — após acusações internas de conduta inadequada, antes de qualquer processo formal. A assimetria entre o tratamento dado a um árbitro e o dado a um jogador em situação infinitamente mais grave diz muito sobre onde a Fifa posiciona seus interesses.
Por que o silêncio da Fifa é, ele mesmo, uma decisão
Quem acompanhou o futebol europeu nas décadas de 1990 e 2000 lembra bem que a UEFA e a Fifa já lidaram com casos de jogadores sob investigação criminal — e escolheram, em geral, o caminho da omissão. Em 1995, quando Eric Cantona foi condenado pela Justiça inglesa por agredir um torcedor, a punição esportiva veio do Manchester United e da FA, não da Fifa. A entidade máxima ficou de fora. O padrão se repetiu. O problema é que Cantona agrediu um torcedor em plena Arena — a visibilidade era inevitável. As acusações contra Partey envolvem crimes gravíssimos ocorridos fora dos gramados, o que parece, paradoxalmente, tornar mais fácil para a Fifa alegar que "não é de sua competência".
Essa postura — omissão estratégica apresentada como neutralidade — tem um custo real para a credibilidade da Copa do Mundo como evento. A Fifa investiu bilhões em campanhas de compliance e governança desde os escândalos de corrupção de 2015. Gianni Infantino construiu parte de sua imagem pública em torno de uma suposta renovação ética da entidade. Permitir que um jogador com sete acusações de violação pendentes jogue o torneio sem qualquer nota oficial — nem de apoio às vítimas, nem de esclarecimento sobre os critérios regulatórios — contradiz frontalmente esse discurso.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, o árbitro afastado preventivamente pela própria Fifa em 2021 serviu como exemplo de que a entidade pode agir antes de uma condenação quando há vontade institucional. O caso Partey demonstra que essa vontade, aqui, simplesmente não existe.
Gana encerra a fase de grupos no Grupo L, onde ainda enfrenta adversários a definir. Partey deve seguir em campo — sem qualquer indicação de que a Fifa pretende se pronunciar antes do encerramento do torneio. O julgamento na Justiça britânica está marcado para 2027. Até lá, o silêncio da entidade não é ausência de posição: é, ele mesmo, uma posição.
Na saída do Gillette Stadium, depois do empate sem gols, uma câmera captou Partey caminhando sozinho em direção ao túnel de vestiários, enquanto a torcida ainda distribuía vaias nas arquibancadas. Djed Spence seguia na direção oposta, olhando para o chão.








