Travou. A menos de seis semanas do apito inicial da Copa do Mundo 2026, marcado para 11 de junho, a Fifa se vê diante de um cenário que não enfrentava nesta magnitude desde antes da era dos megacontratos televisivos: dois dos mercados mais populosos do planeta — Índia e China — ainda sem acordo de transmissão fechado. Juntos, esses dois países responderam por 22,6% de toda a cobertura global de streaming digital durante o torneio do Qatar, em 2022. Deixá-los de fora não é uma nota de rodapé; é uma rachadura na fachada do maior evento esportivo do mundo.
A cena
Na Índia, a joint venture formada pela Reliance, do bilionário Mukesh Ambani, e pela Disney colocou sobre a mesa uma oferta de US$ 20 milhões — o equivalente a R$ 99,2 milhões — pelos direitos de transmissão da Copa 2026. A Fifa recusou. A entidade havia pedido inicialmente US$ 100 milhões pelo mesmo pacote, segundo fontes ouvidas pela Reuters, uma diferença de cinco vezes entre oferta e pedido que, por si só, explica o tamanho do abismo. A Sony, outro grupo com histórico de transmissão esportiva na Índia, avaliou o negócio e também optou por não apresentar proposta. O silêncio das duas empresas mais capacitadas para fechar o acordo é o dado mais revelador da situação.
Na China, o quadro é diferente em forma, mas igualmente preocupante em substância. A CCTV, emissora estatal com alcance massivo em televisão aberta e plataformas digitais, não confirmou qualquer acordo até esta segunda-feira, 4 de maio de 2026. Nas edições de 2018 e 2022, a emissora garantiu os direitos com semanas de antecedência e já havia iniciado a veiculação de conteúdo promocional e espaços publicitários nesta mesma fase do calendário. O silêncio atual contrasta diretamente com esse histórico.
"As discussões na China e na Índia sobre a venda dos direitos de mídia para a Copa do Mundo estão em andamento e devem permanecer confidenciais neste momento", informou a Fifa em comunicado oficial.
O contexto que explica
Para entender a dimensão do problema, recorro a um exercício comparativo que o SportNavo já realizou em coberturas anteriores de Copas: em 1994, quando o torneio foi disputado nos Estados Unidos, os contratos de transmissão para mercados asiáticos eram negociados com margens de tempo muito maiores e valores infinitamente menores. A globalização do futebol — e a explosão dos direitos digitais — transformou esses acordos em operações financeiras de alta complexidade, com múltiplas camadas de negociação entre federações nacionais, conglomerados de mídia e plataformas de streaming.
A China, especificamente, representou 17,7% da cobertura televisiva global da Copa de 2022 e 49,8% de todas as horas de visualização em plataformas digitais e redes sociais no mundo inteiro durante aquele torneio — um número que, isolado, já justificaria qualquer esforço de negociação. A Índia, com 2,9% da cobertura televisiva global em 2022, apresenta curva de crescimento acelerada impulsionada pela penetração de smartphones e pela expansão da classe média urbana. Tratar esses dois mercados como periféricos seria um erro estratégico de proporções históricas.
A analogia que me ocorre é a de uma gravadora que lança o álbum mais esperado da década sem distribuição confirmada nas duas maiores lojas do planeta. O produto existe, o público quer consumir — mas a cadeia entre criador e espectador está interrompida por uma disputa de centavos relativos, considerando o tamanho do negócio envolvido.
As implicações imediatas
O prazo operacional é o fator que transforma este impasse de inconveniente em crise real. Fechar um acordo de transmissão não é assinar um papel: envolve instalação de infraestrutura técnica, treinamento de equipes, contratação de comentaristas e narradores, venda de espaços publicitários a anunciantes locais e configuração de plataformas de streaming. Com 11 de junho como data-limite, a janela para executar tudo isso está se fechando em velocidade acelerada. A Fifa já concluiu acordos com emissoras em mais de 175 territórios globalmente — o que torna a ausência de fechamento nos dois países mais populosos do mundo ainda mais visível por contraste.
"A falta de um acordo de transmissão confirmado com a Índia ou com a China é incomum nesta fase", apontaram fontes com conhecimento direto das negociações, ouvidas pela Reuters.
A análise exclusiva do SportNavo mostra que, historicamente, impasses desta natureza tendem a se resolver — mas sempre com concessões de ambos os lados e, frequentemente, com redução de qualidade na cobertura final, seja em número de jogos transmitidos, seja na ausência de plataformas de streaming que ampliariam o alcance para públicos mais jovens. O risco concreto não é apenas que torcedores fiquem sem ver a Copa: é que a experiência de consumo seja degradada justamente nos mercados onde a Fifa mais precisa construir audiência para as próximas décadas.
Se nenhum acordo for fechado até o fim desta semana, as emissoras indianas e chinesas simplesmente não terão tempo hábil para montar uma operação de transmissão à altura do maior torneio de futebol do planeta. A Copa começa em 11 de junho, em território norte-americano, com 48 seleções e 104 jogos no calendário. Do outro lado do globo, mais de um bilhão de pessoas podem assistir a tudo isso por transmissões piratas ou, simplesmente, não assistir. A Fifa tem poucos dias para evitar que o mapa da audiência mundial de 2026 registre dois buracos negros onde deveriam estar suas maiores audiências digitais.








